Desde 2003 a “festa da democracia” é um megaevento que rende muitos comentários e impressões na semana seguinte: roupas, gafes, shows, curiosidades do aparato de segurança. O mais inócuo é comentado minuciosa e animadamente, e ignoramos que o discurso de posse é o mesmo desde tempos imemoriais: acabar com a fome, dar mais educação e trazer o “futuro” – que está a caminho desde os tempos de JK.
No último sábado, 01 de janeiro, não foi diferente: o povo foi às ruas, teve desfile em carro aberto, choro, quebra de protocolo, só não teve anônimos agarrando a Dilma pois a turba tinha dificuldade em identificar quem era a dona da faixa. Enquanto Dilma discursava obviedades, todos os olhos se voltavam para outra ganhadora de faixa: a jovem esposa do vice-presidente Michel Temer – que, a propósito, agora tem na manga mais uma camuflagem na missão de encabeçar o poder longe dos holofotes –; ex-miss, a presença de Marcela Temer reiterava que o Brasil é um país de contrastes.
A diferença de idade, 42 anos, tem uma resposta óbvia, porém rasa: dinheiro. “Pistoleira! Interesseira!” xingam as colegas de gênero, que entre almoços nos buffet´s baratos com as colegas de trabalho deixam escapar que também desejam ser pistoleiras.
O fato é que as mulheres buscam homens com poder; e o dinheiro, desde a revolução industrial, simboliza poder. Na pré-história o poder estava com os mais fortes, nas comunidades primitivas com os líderes, na idade média com os nobres, na era moderna com os ricos. Amarradas ao manto da fragilidade, nós mulheres buscamos o macho capaz de proteger-nos das intempéries da vida.
Cicatriz milenar e cultural, difícil de harmonizar com a pele, e que muitas mulheres levam as ultimas conseqüências ao se vangloriarem dependentes financeiras ao invés de companheiras no relacionamento. Tolas, pensam que são espertas ao verem o macho cobrindo seus gastos e desejos enquanto, na verdade, passam a ser vistas como um ser dependente de cuidados que não precisa ser tão respeitado, pois está em um nível ligeiramente menor.
Na área comportamental estamos longe da igualdade entre os gêneros, enquanto na música já demos passos sólidos nessa direção: Garbage, Pato Fu, Cranberries, mostram que é possível ter uma banda mista sem recorrer a lamentos ou vingança de mulherzinha. Todavia, os vocais são predominantemente femininos e os raros duetos não têm liga.
Os novaiorquinos da B. T. Express, em seu cartão de visitas Do It ( Til You´re Satisfied) lançado em 1974 provam que a união é possível e harmônica; como devem ser um relacionamento saudável. Barbara Joyce, Louis Risbrook e Richard Thompson alternam-se nos vocais e backing vocals em verdadeiras pérolas do mais puro e suingado funk como a faixa título, “If It Don´t turn you on” e “Once You Get It”.
Em “Everything Good To You”, a voz de Barbara Joyce e o naipe de metais se destacam em uma batida dançante; “Once You Get It” tem acompanhamento de palmas e vocais deliciosos como “Mental Telepathy”.
Uma pérola do funk pouco citada nas coletâneas do gênero, mais gostosa que muitos líderes do gênero, quase escondida e capaz de encher os olhos e ouvidos em festas memoráveis com as mesmas caras amassadas tal qual a mulher do Temer.