“The Benedict Option” de Rod Dreher
- Infelizmente, os chamados conservadores são frequentemente mais associados a defenderem o mercado do que a defenderem a família. E devemos reconhecer que não é difícil que, apesar de defendermos causas tidas como conservadoras, acabemos também por nos tornarmos como consumidores.
- Rod Dreher escreve o livro "The Benedict Option" a partir da preocupação que tem em apresentar soluções criativas e comunitárias para que os cristãos mantenham a fé num ambiente cultural cada vez mais hostil. Nesse sentido, é preciso reconhecer que no Ocidente o cristianismo deve voltar a assumir-se como contra-cultural. A maior parte dos jovens adultos ocidentais é na sua maioria ignorante do cristianismo e da sua história.
- É sobretudo nas questões relacionadas com a sexualidade que podemos ver que defender uma fé cristã ortodoxa (ou conservadora, ou tradicional) tornou-se equivalente a ser considerado intolerante ou preconceituoso (nos EUA isto ficou mais claro com a aprovação do Supremo Tribunal do chamado casamento homossexual como um direito constitucional).
- Para ganharmos resistência, precisamos de recuperar práticas já há muito esquecidas pelos crentes ocidentais. No fundo, temos de voltara a ser a Igreja, sem desculpas. Seguindo a perspectiva do Papa Bento XVI, não há alternativa a os cristãos viverem em comunidades realmente comprometidas onde a fé é vivida intensamente, ainda que isso possa ter um custo de nos sentirmos removidos da sociedade no seu geral. Também por aqui, o exemplo de S. Bento é útil, quando se refugiou da queda do Império Romano, no início da Idade Média.
- Os maiores desafios da Benedict Option vêem-se sobretudo em dois testes contemporâneos: o sexo e a tecnologia. Sabemos que a Igreja não será vencida, porque nem o Inferno pode prevalecer contra ela. Mas a Bíblia não nos diz nada especificamente sobre a Igreja ocidental...
Capítulo 1 - "O Grande Dilúvio"
- Em 2002 o Papa Bento XVI disse que a crise que se aproximava era equivalente à da queda do Império Romano, no final do quarto século da era cristã. O secularismo crescente de um Ocidente que já foi considerado um lugar cristianizado, pode ter uma comparação com as invasões bárbaras. Podemos tomar o reconhecimento constitucional do chamado casamento homossexual nos EUA como a batalha do Waterloo para o movimento conservador religioso, geralmente aí tido como poderoso. É como se fosse a vitória final da Revolução Sexual que começou na década de 60 do século passado. É uma época nova.
- Em 2005, os sociólogos Christian Smith e Melinda Lundquist Denton cunharam o termo "Deísmo Moralista Terapêutico" para definir uma crença que:
a) Deus existe e olha para a vida humana no planeta
b) Deus quer que os homens sejam bons, como ensina a Bíblia e a maior parte das religiões mundiais
c) o objectivo central da vida é ser feliz e a pessoa sentir-se bem consigo mesma
d) Deus não precisa de se envolver na vida das pessoas, a menos para resolver algum problema delas
e) as pessoas boas vão para o Céu quando morrem.
Este é um novo tipo de religião que está a substituir o cristianismo, inclusive nas igrejas que se dizem cristãs. Apesar de o DMT defender coisas correctas, coloca no centro não Deus mas o homem e o seu conforto material.
- Detectar o DTM nas nossas próprias comunidades cristãs deve levar-nos a reconhecer uma necessidade de conversão profunda e de levar a sério os desafios do evangelho, que vão muito além dos desafios do DTM.
- Os cristãos americanos (e europeus) devem assumir que a fé que têm é cada vez menos entendida pela sociedade de que fazemos parte. Por aqui, podemos concluir que não vale a pena lutar contra o dilúvio mas vivermos a nossa fé em comunidades que possam ser arcas para ele.
- S. Bento, ao querer afastar-se do cristianismo oficial e decadente de um Império que, ele mesmo, também decaía, refugiou-se fora da cidade. Aí criou uma comunidade que deveria seguir uma regra. A comunidade deveria ser "uma escola para o serviço do Senhor". A ironia é que, estando o Império a cair, a Igreja era a forma de governo mais estável que o povo podia agora ter. Nesse sentido, a experiência monástica de S. Bento fortaleceu a Igreja e fortaleceu a sociedade no seu todo. Os mosteiros mantinham a fé ao mesmo tempo que cultivavam o campo. Oravam e laboravam.
- Alasdair MacIntyre escreveu um livro chamado "After Virtue" no qual defende que o Ocidente tem vindo a abandonar uma tradição de razão e virtude, abandonando-se a um relativismo progressivo. Essencialmente, orientamo-nos hoje por um emotivismo: "a ideia de que todas as opções morais não são mais do que a escolha que o indivíduo toma como certa para si". Por oposição, uma sociedade que acredita em absolutos morais e práticas daí decorrentes, apela a que os cidadãos as incorporem em sociedade. A questão é que hoje vivemos num estado "pós-virtude", que abandona padrões morais definidos, recusa qualquer determinação religiosa ou moral que não seja fruto da nossa escolha pessoal, repudia a memória histórica como irrelevante, e distancia-se de comunidades ou de obrigações sociais prévias à nossa escolha.
- Neste estado pós-virtude é a própria visão acerca do que é ser humano que é colocada em causa, na fé, na família, no sexo. Do mesmo modo como S. Bento não tinha como salvar Roma, nós podemos estar no início de um época longa de obscuridade moral. Não vale a pena tentar resolver o dilúvio com soluções políticas. A solução terá sempre de ser eclesiástica (a Igreja sendo Igreja) e escriturística (a Bíblia sendo autoridade). Sem pânicos, os cristãos são chamados não a providenciar soluções, mas a viverem nesta realidade como ela é. A fé que têm terá de ser mais firme e mais criativa. Afinal, não podemos dar ao mundo o que nós próprios não temos - não nos podemos deixar assimilar pela Babilónia.
Capítulo 2 - "A Raiz da Crise"
- A palavra "religião" vem do latim religare, que, como dá para ver, quer dizer religar. Não é possível falar de religião sem falar de comunidade. E essa é uma característica essencial deste livro.
- É possível dizer que no Ocidente a religião está num processo de fragmentação. Por causa de várias razões:
a) no Século XIV perdeu-se a crença na ligação integral entre Deus e a Criação (em linguagem filosófica, a realidade material deixou de depender da realidade transcendente);
b) o colapso da unidade religiosa e da autoridade religiosa provocado pela Reforma Protestante no Século XVI;
c) o Iluminismo do Século XVIII, que substituiu o cristianismo pelo culto da razão, privatizou a vida religiosa e inaugurou uma era democrática;
d) a Revolução Industrial (entre 1760 e 1840) e o crescimento do capitalismo no Século XIX e XX;
e) a Revolução Sexual (dos anos 60 para cá).
- Claro que muito mais aconteceu mas estes acontecimentos têm muita importância.
- Na Idade Média o mundo era encantado, sem separação entre o que era natural e o que era sobrenatural. A vida era entendida sacramentalmente. As pessoas podiam não saber tudo acerca de Deus mas acreditavam que ele estava presente em tudo - tudo o que existia, existia em relação a ele. Não só se acreditava numa verdade, como ela era entendido fundamentalmente a partir do facto de Jesus se ter feito carne (o logos encarnou).
- Isto não quer dizer que a Idade Média era uma utopia cristã. A Igreja estava visivelmente corrupta e exercia o seu poder muitas vezes de forma violenta. Mas até o que corria mal era compreendido a partir da doutrina do pecado original. Até as coisas que corriam mal eram entendidas a partir de uma perspectiva religiosa. Nesse sentido, o universo não era frio e sem sentido, mas era um cosmos - um lugar de vida das criaturas e do Criador.
- Um dos exemplos medievais foi a Escolástica, o movimento teológico que teve o seu expoente maior em Tomás de Aquino. O princípio base era que todas as coisas tinham uma essência recebida de Deus que era independente do nosso pensamento. Ou seja, o nosso pensamento podia ou não pensar nas coisas à nossas volta; mas que elas existiam independentemente do nosso pensamento, existiam. Em termos filosóficos é possível falar nisto usando o termo "realismo metafísico".
- William de Ockham foi um filósofo que contribuiu para o chamado nominalismo - que acreditava que o realismo metafísico limitava a liberdade divina às consequências racionais que se atingissem. Ou seja, Ockham acreditava que tirar tantas conclusões lógicas a partir da existência de Deus poderia descambar contraditoriamente numa sistematização intelectual que lhe tirava protagonismo. Logo, os objectos não tinham tanto um sentido intrínseco, mas mais um sentido na medida em que eram pensados pelas pessoas. Por exemplo, uma mesa é apenas o nome que se dá a algo que convencionámos ser uma mesa (daí a palavra nominalismo).
- Isto pode parecer sem importância mas teve muita. Se até ao nominalismo se acreditava que qualquer coisa apontava para a existência de Deus, agora sugeria-se que as coisas criadas não tinham de mostrar uma relação assim tão directa com Deus. O significado de tudo não depende tanto de uma razão interna mas de uma revelação que nos seja dada externamente por Deus. Em grande parte, o mundo moderno vem desta revolução. As conclusões acerca do universo passaram a depender menos de uma relação directa com Deus, mas de uma relação com a pessoa que o observa. De uma teoria filosófica prévia passou a valorizar-se a experiência empírica. O mesmo aconteceu com a arte. Emergiu um novo tipo de individualismo que se exprimiu no Renascimento e numa revolução religiosa iminente - a Reforma Protestante.
- O Renascimento enamorou-se novamente da cultura grega e romana. Com isto, veio um novo optimismo acerca das capacidades humanas. Na frase do antigo filósofo grego Protágoras, "o homem é a medida de todas as coisas". Apesar de esta cultura renascentista se concentrar na Antiguidade clássica, isso não quer dizer que fosse anti-cristã. Dreher escreve: "O humanos cristão era mais individualista do que o que veio antes, e procurou cristianizar o modelo clássico do herói, o homem virtuoso. O Escolasticismo enfatizou a razão e o intelecto como o caminho para Deus; o humanismo cristão focou-se mais na vontade" (pág. 30). Mais no sul da Europa do que no norte, subestimou-se o impacto do pecado na natureza humana (o norte da Europa estava mais atraído pela Escritura do que pela filosofia).
- Todos estes fenómenos foram influências para a vida de Martinho Lutero, e para os choques entre Roma e a Reforma.
- A revolução científica que começou com Copérnico (no Século XV) e terminou com Newton (no Século XVIII) ultrapassou o modelo aristotélico-cristão em que a Terra era considerada o centro do universo. Mais do que acreditar em coisas diferentes, a revolução científica deu uma maneira diferente de pensar: sem a base transcendente. Houve uma separação entre Deus e os factos. Os factos passaram a existir independentemente de Deus lhes dar origem, pelo menos em termos de demonstração, uma crença que não era possível na Idade Média.
- Ao mesmo tempo, se aquilo que é possível saber sobre o universo passa a depender mais da verificação humana do que da convicção teológica, a própria ciência passa a servir mais para a vida dos homens do que para a vida de Deus. Ou seja, o foco do conhecimento não é sabermos sobre Deus, mas é melhorar a vida do homem.
- René Descartes, no Século XVII vem contribuir para o momento. Só aquilo que é absolutamente verificável pode servir de base ao conhecimento. Só a nossa própria existência pode ser a base para o que conhecemos (daí, o "penso, logo existo"). Apesar de Descartes acreditar em Deus, a existência humana era o eixo para o conhecimento das coisas - há um subjectivismo radical. No fundo, o Iluminismo é a procura de fundar na razão humana a base do conhecimento. O Iluminismo não era ateu mas passou a não ser necessariamente cristão. No geral, podemos falar de deísmo, a crença na existência de Deus na medida em que ela oferece uma explicação lógica para a existência dos homens - esta sim, é a existência que passou a ser a nuclear. Deus tornou-se mais um princípio do que propriamente uma pessoa.
- Um país moderno como os EUA já nasce nesta ideia de que a religião pode existir mas a partir de uma base privada, em que o sagrado já não é considerado uma base segura para o consenso público. Os Pais Fundadores americanos eram mais deístas que propriamente cristãos. Graças à liberdade religiosa consagrada na sua Constituição, o país foi influenciado por movimentos como o Grande Avivamento do Século XVIII, contribuindo para uma visão relativamente generalizada acerca do que poderiam ser as virtudes cívicas. Ou seja, apesar de a América ser um país que separa o Estado da Igreja, a Igreja ainda era um voz poderosa para sugerir o que um bom cidadão deveria ser. Hoje as coisas mudaram.
- A Revolução Industrial do final do Século XIX conferiu ao homem um poder sem precedente sobre a natureza. As velhas hierarquias sociais perderam boa parte do seu efeito. O Romantismo foi um movimento que reagiu ao progresso tecnológico, na medida em que os românticos desconfiavam que a tecnologia despersonalizava as pessoas, fazendo-as cativas do lugar que ocupavam para manter todas as máquinas a funcionar. Nessa preocupação com a alma humana, o Romantismo passou a olhar para a voz do povo como a voz a ser ouvida. É deste ambiente que se desenvolve o marxismo e, noutro sentido, "A Origem das Espécies" (de 1859). Nietzsche sacou muito de Darwin para desenvolver uma filosofia onde a vontade humana é o valor dos valores. Nos Estados Unidos, no entanto, a força da religião mantinha-se. O movimento evangélico enfatizava a necessidade de causas sociais, quer através dos últimos puritanos, quer através do movimento do evangelho social do liberalismo teológico (já no início do Século XX). A América juntava o idealismo dos revolucionários europeus ao puritanismo dos religiosos.
- Mas o Século XX com as suas duas Guerras Mundiais não deixaria as coisas como estavam. Nesse sentido, a modernidade perdeu a sua solidez. Do lado filosófico, Freud fazia da psicologia a única forma de religião socialmente respeitável. A visão terapêutica em que o significado da existência é encontrado numa busca individual por realização tornou-se uma espécie de novo sagrado. Se a religião promovia a mudança da pessoa de acordo com a personalidade divina, a psicologia promove a aceitação pessoal como o modelo comportamental. Philip Rieff descreve assim: "o homem religioso precisava de se salvar; o homem psicológico precisa de ser agradado". Nos anos 60 a vitória desta era terapêutica está ganha, com a chegada da Revolução Sexual.
- Com a perda de um consenso acerca dos "nãos" (os comportamentos tidos como condenáveis) o Ocidente passou a ser essencialmente uma não-cultura. O eros foi entronizado, como a expressão mais sincera do que o homem é, podendo atender todos os seus desejos que agora não merecem a condenação generalizada e pública de antigamente. O corpo é o palco desta conquista. "O ideal romântico do homem auto-criado encontra a sua plenitude nas novas vanguardas da Revolução Sexual, as pessoas transgénero" (pág. 43). A modernidade líquida permite que a própria pessoa crie o seu sentido, tão fluído quanto o desejo assim permitir.
- Neste sentido, o cristianismo é hoje visto como um adversário a esta modernidade líquida. Se é verdade que temos um presente com um conforto inimaginável no passado, temos, por outro lado, um mundo desprovido de significado e comunidade.
Capítulo 3 - "Uma Regra para a Vida"
- Não é absurdo dizer que uma vida de oração é uma vida pouco moderna. Por exemplo, no caso da ordem beneditina, a regra conduz a vida dos monges e das freiras em termos de comunidade à volta de valores como a castidade e a pobreza. Ao mesmo tempo, tudo o que se faz é feito sob o pressuposto de que precisamos de uma vida inteira para termos uma conversão profunda - não se vive para uma religião fácil do aqui e agora.
- Uma vida regrada assim canaliza a nossa energia espiritual numa direcção concreta, que não deve ser desperdiçada. O objectivo é "encontrar a presença de Deus na nossa vida quotidiana". Apesar de o cristianismo defender que dependemos da graça de Deus, o nosso esforço é convocado. São necessárias crenças certas e comportamentos certos. A disciplina faz parte deste processo duplo (encontramos esse valor em textos como 1 Timóteo 4:7 ou 2 Pedro 1:5-8).
- Erradamente, tendemos a olhar para a disciplina como uma coisa sem coração. Mas a disciplina serve precisamente para nos fazer mais consequentes com aquilo que o nosso coração já crê. O que endurece o coração é precisamente a nossa falta de cultivo dele, deixando-o abandonado a si próprio. Neste sentido, a preocupação de Rod Dreher ao escrever "The Benedict Option" não é salvar o Ocidente mas simplesmente "tentar construir um modo cristão de viver que enfrenta como uma ilha de santidade e estabilidade uma maré cheia de modernidade líquida" (pág. 54).
- Se concluirmos que uma das características principais do nosso tempo é a sua desordem, logo concluiremos também que procurar ordem é um acto de resistência cultural. Se pensarmos nesta ordem como um resultado do logos que Deus inscreveu na Criação, então fará sentido que não somente reconheçamos a sua existência como queiramos viver em harmonia com ela. A ordem não só existe no universo como é também uma expressão do facto de Deus o ter criado, e de nos caber a nós uma obrigação de nos adequarmos a ela. Quando vivemos com ordem, glorificamos mais e melhor o Deus em que cremos. Levando este raciocínio ainda mais além, "o objectivo da vida para os indivíduos em particular, para a igreja, e para o estado, é perseguir esta harmonia com o transcendente, com esta ordem eterna" (pág. 54).
- "Ligar a nossa paixão espiritual através do ritmo da nossa vida quotidiana e das suas disciplinas, e fazer isto com os outros na nossa família e na nossa comunidade, é construir um fundamento forte de fé, onde cada um se torna plenamente humano e plenamente cristão" (pág. 55).
- Cada frade beneditino sabe que a ordem não está apenas perturbada no mundo, mas dentro de cada homem, por conta do pecado que existe em todos os seres humanos. A procura da ordem é urgente e traz-nos, quando atingida, paz. Ela é exigente, como que equivalente a um treino militar, mas que neste caso é espiritual. Todas as repetições envolvidas numa vida que segue uma ordem têm um papel de nos formar, de ir ao fundo da nossa personalidade e dar-lhe um novo molde. Nesse processo repetitivo são adquiridos novos hábitos que funcionam como uma fábrica de virtude.
- A oração é uma das actividades que tem de ser repetida neste ordenar da nossa vida. Numa vida de mosteiro, por exemplo, a oração é o centro da comunidade. A oração é tida como a actividade mais activa que de pode ter (passando o pleonasmo), como a aplicação mais prática da nossa fé. A contemplação é essencial para uma vida ordenada. Sete vezes por dias os monges beneditinos reúnem-se para oração. Seguem também a prática da meditação da lectio divina (em que a Bíblia é lida mais buscando um encontro com Deus do que uma interpretação estritamente teológica). A lógica passa por aquietar a nossa mente e o nosso coração com o ritmo dado pela Palavra de Deus e pela oração.
- A vida de trabalho, quando vista desta perspectiva, não perde a sua necessidade e pertinência. Antes pelo contrário, o lema é "ora et labora". Trabalhar com as mãos não é indigno para quem contempla com o espírito. Tudo deve ser feito para a glória de Deus. É daqui que vem uma lógica sacramental da realidade, em que podemos ter qualquer parte da realidade como um canal da graça de Deus. Uma vida de amor pelos outros exprime-se nesta mistura de oração e trabalho. "Reorientando de um modo mais centrado em Deus a maneira como concebemos o trabalho, o molde beneditino vai ajudar-nos a tomar a decisão certa quando formos testados no mercado de trabalho, e vai fortalecer-nos se formos forçados a encontrar outra profissão" (pág. 62).
- Dreher fala da vantagem do ascetismo, sobretudo tendo em conta que os americanos não estão habituados a viver com privações. No entanto, disciplinas como o jejum treinam-nos para uma existência onde limitações nos podem ser impostas pelo exterior (como floristas, pasteleiros e fotógrafos cristãos que estao a ser processados por se recusarem a usar os seus serviços profissionais em casamentos homossexuais). Estamos tão orientados para um princípio de conforto que não sabemos ir para outros destino além dele. "Sem o jejum e outras práticas ascéticas, perdemos a capacidade de dizer não a coisas que os nossos corações desejam" (pág. 64). O domínio próprio e a auto-negação é uma verdadeira grandeza humana que está à nossa disposição.
- Dreher enfatiza a busca por uma existência que produza fruto, e isso não acontece sem estabilidade. Por exemplo, o monge beneditino sabe que não existe uma tarefa missionária ambulante - o missionário deve passar o resto da vida no lugar para onde Deus o chamou. E esta é uma característica pós-moderna típica - o medo de nos fixarmos, fugindo de todos os compromissos, como se eles nos acorrentassem ao passado. A ironia é que a nossa obsessão por sermos livres a qualquer hora e em qualquer lugar acaba por tornar-se uma verdadeira prisão. Vivemos numa instabilidade constante, que é consequência do ídolo que construímos a partir da ideia de liberdade.
- Ao mesmo tempo, a comunidade também nos assusta porque temos medo que ela constranja também a nossa autonomia. Até mesmo no domínio da religião, o que não falta é turismo. Os turistas religiosos coleccionam artefactos históricos e culturais sem se identificar com uma comunidade local em particular. É necessária disciplina para que sejamos aperfeiçoados numa peregrinação genuinamente espiritual que nos conduza a um destino sólido de santidade. Menos do que isto é tomar a graça de Deus como uma graça barata (nas palavras de Dietrich Bonhoeffer).
- A hospitalidade é mais um valor que está relacionado com uma vida ordenada de acordo com Deus. Mateus 25:35 consagra isto, associando o cuidado que damos aos outros com o cuidado que damos ao próprio Cristo. De facto, "Cristo está presente nas pessoas que hospedamos" (pág. 72). Haverá sinal mais concreto da nossa disponibilidade para alguém do que lhe abrirmos as portas da nossa casa? Isto não quer dizer que o hóspede impõe as suas próprias regras na casa que o recebe, mas que o cristão não age fundamentalmente a partir do medo que sente que do mundo. Nesse sentido, a melhor defesa é o ataque e a hospitalidade é uma arma espiritual potente - é uma expansão do Reino de Deus.
- A saúde de uma comunidade também se vê pelo seu equilíbrio, como as pessoas que dela fazem parte mostram a sua alegria. Esta é uma alegria fácil, feita de baixarmos os nossos parâmetros até uma espécie de mediocridade espiritual. Mas, de facto, o equilíbrio atesta-se nesse encontro de "prudência, misericórdia e bom julgamento". É também daqui que surge o paradoxo de quanto mais a pessoa se entrega a Deus, mais consciente se torna dos seus pecados e limites - só a misericórdia divina pode resolver o que nós não conseguimos.
- O escritor católico francês dizia que "a única e verdadeira tragédia na vida e não se tornar santo" (pág. 76). O que podemos aprender com a regra de S. bento passa por não fugir do mundo real mas vê-lo e vivê-lo como ele realmente é - isso exige uma transformação feita pelo Espírito Santo.
Capítulo 4 - "Um novo tipo de política cristã"
- Como é que os cristãos encaixam num contexto que mudou, onde os seus valores já não são tidos como normais ou sequer desejáveis? Um dos exemplos a seguir é o dos resistentes ao regime comunista na República Checa durante a Guerra Fria. Eles tinham uma abordagem que era uma política anti-política, encabeçada sobretudo por Vaclav Havel.
- Nos Estados Unidos havia um consenso em relação às questões sexuais até a chamada Revolução Sexual, que teve impacto em momentos como o Roe Versus Wade em 1973, que tornou legal o aborto. Como reacção, surgiu a chamada Religious Right que hoje não tem a influência que ganhou na década de oitenta. Mesmo que tomemos a eleição de Donald Trump como uma inesperada vitória dos conservadores, Dreher crê que a mudança global já se deu e não é este Presidente americano que a vai inverter. Questões sociais e raciais continuarão a fazer aumentar a temperatura do debate político americano, mas as ligadas à moral sexual parecem ter ficado arquivadas na imaginação dos cidadãos. Mesmo que aparentemente os conservadores tenham chegado à Casa Branca, a América já não é conservadora.
- Por outro lado, o facto de Trump ter sido eleito com apoio de tantos evangélicos levanta a questão do rigor destes em relação ao carácter dele - "o poder político não é um desinfectante moral". A política não pode substituir a solidez de um testemunho de santidade por parte dos cristãos.
- É seguro que nos cabe, enquanto cristãos, a tarefa de orarmos pelos políticos. A questão é saber como podemos usar do poder político, sobretudo quando ele se revela tão instável e tão arredado de valores que antes nos colocavam em consenso com a cultura. O caminho deve ser a construção de subculturas resistentes. Para tal, é fundamental lutar-se pela liberdade religiosa (que, no caso americano, é defendida pela primeira emenda). E estar preparado para uma experiência de estrangeiros no exílio que só será conseguida se estivermos firmes nas Escrituras. Lance Kinzer, um presbiteriano americano, aconselha atitudes como:
- uma actividade local com envio de cartas para políticos regionais;
- focar-se em pequenos objectivos que sejam atingíveis;
- trabalhar para garantir a autonomia das instituições cristãs;
- contactar a comunicação social para dar conta da nossa perspectiva;
- manter o respeito em relação aos nossos adversários, mantendo uma comunicação gentil;
- formar parcerias com outras denominações cristãs e mesmo com não-cristãos.
- A liberdade religiosa não é um fim em si mesma mas um meio de os cristãos poderem viver plenamente. É à Igreja que compete desenvolver essa plenitude. Neste sentido, podemos dizer que a missão do cristão é ser Igreja, e não viver para a liberdade religiosa. Mas a liberdade é importante para a Igreja ser Igreja. "A missão da Igreja na terra não é o sucesso político mas a fidelidade".
- "A Benedict Option desafia-nos para um novo tipo de política cristã que emana da relativa falta de poder na América contemporânea". No entanto, como a regra de Bento diz respeito à vida em comunidade, acaba também por ser um princípio político, ainda que o objectivo de uma vida monástica não seja o mesmo de o de uma vida secular. No caso dos EUA, um desafio necessário é aceitar que provavelmente os cristãos terão de optar entre quererem ser bons cristãos ou quererem ser bons americanos. Apesar de as duas coisas não terem de coincidir, por outro lado Alexis de Tocqueville dizia que as democracias só poderiam sobreviver se o cristianismo dentro delas mantivesse algum tipo de consenso moral.
- Falar acerca de política é mais do que falar sobre assuntos do estado moderno. A política exige uma consciência daquilo que nos une enquanto pessoas, famílias, cidadãos. Para Vaclav Havel, uma comunidade contra-cultural que abdicasse da sua responsabilidade de alcançar outras pessoas redundaria numa forma de viver dentro de uma mentira - a vida comunitária cristã é um caminho necessário e que fará por muitas mais pessoas do que apenas aquelas que já comungam dessa vida.
- Para que esta vida contra-cultural e comunitária cristã seja uma realidade, tem de haver um investimento sério na educação. Não há Benedict Option sem escolas. As escolas próprias destas comunidades cristãs contra-culturais não servem para mantê-las em isolamento mas precisamente para o oposto: para fazê-las resistir à fragmentação que é uma das características da nossa época. Logo, o empenho na educação cristã fará pelo bem dos cristãos mas também por muitos mais. Diz Dreher: "envolve-te patrocinando educação teológica num Seminário undergound".
- A política anti-política de Havel é na prática uma política paralela com capacidade de resistir à dispersão cultural à nossa volta. As escolas cristãs devem ser pequenas na medida em que mantêm-se mais perto de responsabilidades pessoais. Esse relacionamento apertado permite um ambiente em que o amor fraterno não é apenas uma teoria mas uma prática. Isto não nos garante resultados imediatos mas oferece-nos uma real resistência para um longo-prazo, que é muito mais realista. Quanto mais discernível for uma cultural concreta de compaixão, mais a alternativa cristã se tornará convincente aos olhos daqueles que ainda não são.
- Como se faz isto? "Corta as ligações com o mainstream. Desliga a televisão. Põe os smartphones longe. Lê livros. Joga jogos. Faz música. Toma refeições com os teus vizinhos. Não basta evitar o que é mau, também é preciso abraçar o que é bom. Começa uma igreja ou um grupo dentro da tua. Abre uma escola cristã de ensino clássico, ou junta-te e reforça a uma que já exista. Planta um jardim e participa num mercado agrícola. Ensina os miúdos a tocar e começa uma banda. Junta-te aos bombeiros voluntários (...) Perder o poder político pode ser aquilo que salva a alma da Igreja. Deixar de acreditar que o destino do Império Americano está nas nossas mãos liberta-nos para trabalhar para o Reino de Deus nas nossas pequenas freguesias".
Capítulo 5 - "Uma Igreja para todas as Épocas"
- Uma Igreja pode estar a matar-se a si mesma sem se aperceber. E esta morte lenta dá-se também a partir de uma falta de consciência do que é, afinal de contas, o culto cristão. A palavra culto vem do latim "cultus" que, significando louvor, também se associa à palavra cultura. "Uma cultura é o modo de vida que emerge do louvor comum de um povo. Aquilo que temos como sagrado determina a forma e o conteúdo da nossa cultura, que emerge organicamente do processo de tornar uma fé tangível". A Benedict Option nasce do coração da Igreja, defende Dreher. É consequente dela.
- Russell Moore, um pastor baptista norte-americano diz no seu livro "Onward" que, ao perder a sua respeitabilidade cultural, a Igreja torna-se mais livre para viver a fé radicalmente. No fundo, quando o cristianismo se torna menos normal, pode ser ouvido de uma maneira mais simples e objectiva. Se ser cristão deixou de ser a norma, não precisamos de viver agarrados à ideia de que nos devemos adequar à maioria.
- Um dos problemas é que muitas igrejas funcionam como centros seculares de entretenimento onde se adiciona uma mensagem moral religiosa por cima. O louvor é tratado como algo que se consome e as pessoas na congregação vivem isoladas, atomizadas na autonomia como escolhem o que querem da programação que a Igreja oferece. "Os cristãos falam frequentemente acerca de 'atingir a cultura' sem entender que, não havendo uma cultura distintamente cristã da sua parte, já foram formatados pela cultura secular que desejam atingir". Se queremos resistir a uma época complicada que já nos chega, devemos desistir da ideia de sermos normais. Isso vai permitir-nos uma formação cristã mais forte e com verdadeiro sabor a sal, que se distingue do mundo.
- Não é possível valorizar uma cultura cristã sem ter um interesse pela sua história. A tradição é um exemplo precioso da aplicação da Palavra de Deus e do guia que o Espírito Santo é. Uma compreensão litúrgica é, portanto, fundamental. Liturgia vem da palavra grega "leitourgia", que significa o trabalho do povo. No fundo, a liturgia pode ser entendida a partir do que dizia Marshall MacLuhan, "media is the message" (o meio é a mensagem). Aliás, dizer que "media is the message" é apenas outro modo de afirmar que "o Verbo se fez carne" (como dizia Robert Inchausti). Todos os seres humanos, com mais ou menos consciência, são criaturas litúrgicas (como explica James K. A. Smith).
- Se quisermos resumir muito o culto cristão, podemos defini-lo em termos de quatro momentos: a chamada à reunião para louvor a Deus, a leitura da Palavra, a celebração da comunhão (Ceia), e a dispersão da comunidade para os lugares que ocupam durante a semana. Apesar de em todos estes momentos sermos chamados a fazer coisas, a liturgia é fundamentalmente acerca do que Deus faz connosco. Nesse sentido, a ordem do culto forma-nos de acordo com o que Deus faz com o seu povo. Deus chama o seu povo, Deus revela-se ao seu povo, Deus reúne o seu povo, e Deus dispersa o seu povo.
- A liturgia não é magia mas sugere uma interpretação sacramental da realidade: as coisas não são apenas pelo que vemos nelas; as coisas são pelo modo como elas se relacionam com Deus. O ritual volta a mostrar o transcendente da realidade, aquilo que está além dos nossos sentidos imediatos. Neste processo, é reformada a relação entre aquilo que é físico e aquilo que é espiritual. Isto contrasta com a maneira atomizada e isolada como o Ocidente encara hoje a realidade. "A liturgia restaura a estabilidade que perdemos cimentando a história do evangelho nos nossos corpos". E faz isto em continuidade com aquilo que já aconteceu às gerações anteriores de crentes. Há um ritmo que nos é dado para o corpo que também é comida para a nossa imaginação. Afinal, o cristianismo não é apenas uma filosofia mas um modo de viver.
- No caso das igrejas evangélicas, devemos reconhecer que na nossa vontade de procurarmos conversões pessoais e autênticas, caímos muitas vezes na desvalorização das instituições. Também por isso, tendemos a olhar para formas fixas de adoração como mortas. No entanto, e para bem da estabilidade e continuidade de uma formação cristã profunda e que sobrevive às modas, precisamos de encarar a repetição e a forma como valores. Muitas igrejas evangélicas, aterrorizadas com a ideia de parecerem antiquadas, criaram uma versão de louvor cristão que parece uma adaptação religiosa da cultura pop. E se é certo que não é a liturgia que nos salva, ela coopera para que a formação do nosso coração seja o mais integral possível.
- De seguida, Dreher falava sobre o ascetismo, vindo da palavra grega "askesis", que significa treino. Refere-se a abdicar de privilégios materiais, de um modo permanente ou periódico, para fortalecimento espiritual. Aceitamos disciplinas para que as nossas necessidades sejam vividas em função da história que nos dá sentido - o evangelho. Wendell Berry dizia que negar prazer ao nosso corpo por uma questão de crescimento espiritual, permite que saibamos negar-lhe aquilo que ele pode desejar mas que não concorre para o seu bem. O objectivo não é somente a disciplina mas adquirir uma segunda natureza.
- A importância da disciplina também se vê no valor que atribuímos ao uso dela dentro da Igreja. A tradição da Igreja de dois mil anos indica-nos que havia a expectativa de que o cristão se comportasse à altura da sua fé, na medida em que o corpo comunitário podia e devia corrigir aqueles que nele se congregavam. Dreher pergunta até que ponto é que os cristãos não contribuíram decisivamente para a Revolução Sexual, vivendo sem ordem os seus casamento que em parte considerável culminaram em divórcios. Por conta destes desafios contemporâneos, cada vez são mais as igreja que requerem dos seus membros a assinatura de um pacto. O objectivo não é acrescentar texto à Escritura mas concretizar o que significa um compromisso com Cristo numa das suas igrejas locais.
- Devemos ter a beleza como um meio evangelístico. Joseph Ratzinger dizia que "a arte e os santos são a melhor defesa da nossa fé". Se o nosso testemunho não apelar ao coração dificilmente será aceite apenas no cérebro. Tem de haver algo a excitar o amor daquele que é exposto à apresentação do evangelho. É como se houvesse um talento erótico na partilha do cristianismo, em que um desejo é excitado no ouvinte.
- Por outro lado, esta valorização da beleza não pode colocar de parte a eficácia do testemunho cristão que é feito no martírio. "Na Igreja primitiva, a disponibilidade para sofrer por Cristo, eventualmente ao ponto da morte, era visto como o testemunho mais poderoso da verdade de Cristo". O pastor luterano Richard Wurmbrand, resistente na Roménia comunista, diz que há dois tipos de cristãos: os que acreditam em Deus, e os que acreditam que acreditam em Deus. A diferença está numa fé vivida em comunidade, com estações definidas e formas que nos moldam profundamente, que reflecte a história do evangelho e se abre a quem crê e a quem não crê através da oração e do serviço sacrifical, à medida do que Cristo fez por nós. "Uma igreja que parece, fala e soa como o mundo não tem razão para existir", e não terá força para resistir a todas as mudanças que o próprio mundo impõe.
Capítulo 6 - "A Ideia de uma Aldeia Cristã"
- Há um provérbio africano que diz que é preciso uma aldeia para educar uma criança. Não é portanto de admirar que a educação hoje seja tão difícil tendo em conta a fragmentação do conceito de família e de comunidade. Diz Dreher: "Basta o fracasso de uma geração na tarefa de transmitir uma tradição para que essa tradição desapareça da vida de uma família e de uma comunidade". Durante muito tempo os cristãos reagiram como se o terreno da luta fosse no campo político, não tendo consciência que é naquilo que eles próprios fazem em relação às gerações futuras. Esse erro de leitura da realidade só pode ser corrigido através de um reforço das nossas famílias e comunidades. Não podemos tratar disto sem urgência.
- De certo modo, a nossa família deve ser vista como um pequeno mosteiro. A nossa família deve ser estruturada sob a ideia de conhecer e servir Deus. A oração é um elemento inegociável. A adoração deve ser um valor mais alto do que qualquer outra actividade, como por exemplo os desportos ou lazer em que geralmente as nossas crianças estão envolvidas. "Os teus miúdos precisam de ver-te a ti e ao teu cônjuge a sacrificarem eventos que esbarrem com a igreja. E eles precisam de ver que és sério com a vida espiritual".
- Esta união familiar não existe sem amor. E esse amor é reconhecido através de uma prática concreta de pedido de perdão, sempre que ofensas acontecem. Um filho tem de conhecer a experiência de ter um dos seus pais a pedir-lhe desculpa. E isto em nada belisca a obediência que é devida aos seus pais. "Uma cultura de obediência é a marca de um mosteiro saudável, mas os membros dessas comunidades precisam de ver que aqueles que exercem autoridade também se sujeitam a uma superior".
- A hospitalidade é um valor essencial de uma comunidade saudável, que imita o exemplo do próprio Jesus Cristo. Para este mesmo fim, um bom mosteiro sabe, através das suas paredes e muros, manter fora o que fora deve estar. Aplicando isto à vida da família, significa menos exposição a meios de comunicação como a televisão e as ligações à internet. Este é um princípio para miúdos e graúdos. Os pais devem ser um exemplo concreto de que decidem não ver coisas que podiam ver, por uma questão de saúde espiritual.
- É importante educar as nossas crianças no princípio que as nossas famílias são diferentes das outras e que não há mal nenhum nisso. Não temos de pedir desculpa por termos princípios diferentes. Pais comprometidos com isto são pais exigentes no tipo de grupo de pessoas que tem acesso aos seus filhos. A responsabilidade da educação é dos pais, nem sequer é da Igreja. Infelizmente, muitos tem esperado que seja a Igreja a exercer a paternidade espiritual que deveria existir em casa. Por outro lado, as próprias igrejas nesta missão acabam frequentemente a entreter mais do que a disciplinar.
- A desagregação da educação, quer a partir de casa, quer a partir da escola, quer a partir das igrejas, tem uma consequência positiva que é a de nos obrigar a recuperar princípios realmente sólidos. Do mesmo modo como uma cultura se pode perder numa geração, também se pode ganhar. Importante é, nesta tarefa, não fazer da nossa preocupação um ídolo: a família é importante mas não é Deus. Se a família for tomada como o mais importante de tudo, facilmente se torna tirana.
- Um dos segredos para uma comunidade forte é a proximidade geográfica dos seus membros. Por exemplo, no caso judaico, e como ao Sábado não se pode guiar um carro, os crentes têm de viver a uma distância da sinagoga que se faça a pé. A ideia é o local de reunião de culto da comunidade tornar-se realmente um centro para os seus membros, um ponto de convergência não somente no dia da reunião principal mas também em todos os outros. Claro que, por outro lado, é desafiador ter membros da nossa comunidade tão perto de nós mas esse relacionamento desafiador serve precisamente para o nosso aprimoramento espiritual. "Não somos chamados a ser materialistas isolados, desligados dos vizinhos e acumulando coisas nos nossos castelos". A Igreja deve ser um modelo real de redes sociais (redes sociais mesmo, não as da internet).
- É importante construir-se um relacionamento mesmo com outros que não partilham das nossas convicções confessionais e tradições religiosas mais específicas. Deve existir um "ecumenismo das trincheiras" (como aconteceu no caso dos "Catholics and Evangelicals Together"). Afinal, temos uma frente adversa comum no secularismo contemporâneo. Isto não significa desvalorizar ou relativizar a importância das distinções teológicas, antes pelo contrário.
- Como foi dito em relação à família, devemos amar a nossa comunidade sem idolatrá-la. Muitas vezes pode haver uma reacção tão grande à ideia da impureza do exterior que a comunidade drena a verdadeira alegria e confiança de dentro de si mesma. Pode dar-se o caso de que este tipo de comunidades acabe por impor uma exclusão total dos seus membros do convívio com pessoas que não partilhem dos seus princípios, impedindo que os cristãos existam como sal no mundo.
- Se se idealizar demais a comunidade, nunca teremos grande experiência nela. Temos de ser humildes no modo como queremos corresponder aos nossos objectivos. Devemos começar por nos ligar a outras famílias e, a partir de expectativas realistas e descomplicadas, construirmos pequenas aventuras que não tenham medo de não se regerem pela maioria. No fundo, a Benedict Option não é mais do que apenas ser cristão. "Comunidades com uma missão forte e partilhada serão necessárias para começar e sustentar escolas autenticamente cristãs e contra-culturais". No ambiente actual, e com uma secularização cada vez mais agressiva, o número de cristãos a decidir tirar os seus filhos da escola pública aumentará. E mesmo que as iniciativas públicas e privadas seculares providenciem mais vantagens pedagógicas, serão as escolas cristãs ortodoxas, academicamente sérias e com uma moral definida que sobreviverão. Nesse sentido, um cristianismo real é um cristianismo empenhado na tarefa da educação.
Capítulo 7 - "A Educação como Formação Cristã"
- Michael Hanby, professor de religião e filosofia da ciência no Instituto João Paulo II em Washington, diz que a educação está no centro da sobrevivência cristã. Quando os místicos se refugiavam em comunidades separadas eles buscavam Deus sabendo que era importante acarinharem a educação, na medida em que ela mantinha o valor dado à verdade e à beleza. O mesmo se aplica a nós em 2018, que devemos procurar apaixonadamente a verdade, e reflectir com rigor na realidade à nossa volta. Hanby diz que "guardar a imaginação necessária para ver ou procurar por Deus será um elemento indispensável na preservação da verdadeira liberdade e da liberdade cristã quando ela se tornar mais limitada pela lei".
- Existe actualmente um movimento crescente a favor da educação clássica cristã. Este movimento, bem contra-a-corrente, apresenta a tradição ocidental aos estudantes, tanto aquela greco-romana como a cristã. Do mesmo modo como os judeus colocam a instrução no topo das prioridades, o mesmo devem pensar os cristãos. Para isso, é necessário criar escolas de ensino clássico cristão. Diz Dreher: "Em vez de deixarmos as nossas crianças gastar quarenta horas por semana a aprender "factos", com umas poucas horas de educação acerca da nossa perspectiva do mundo postas por cima, os pais precisam de tirá-las das escolas públicas e providenciar para elas com uma educação correctamente ordenada - uma baseada na premissa que há uma estrutura unificada da realidade e que essa estrutura é descobrível". Aprender a Bíblia e a história faz parte deste pacote urgente. Ora, esta tarefa não é uma coisa simples. Por isso é necessário que pais, igrejas, e grupos heterogéneos de cristãos trabalhem juntos.
- Uma aventura destas, feita escola de educação clássica cristã, exige a que os valores da ordem, do significado, e da continuidade sejam ensinados aos alunos. A integração do conhecimento é fundamental para que se ganhe uma perspectiva harmoniosa do todo. Dreher diz que: "qualquer modelo educativo pressupõe uma antropologia: uma ideia acerca do que o ser humano é. No geral, o modelo maioritário funciona na direcção de equipar os estudantes para serem bem-sucedidos no mercado de trabalho, providenciando uma vida agradável e segura para eles e para as suas famílias, e idealmente, para poder preencher os seus objectivos pessoais - sejam eles quais forem. O modelo típico da educação cristã mais comum pega neste modelo e adiciona aulas de religião e períodos de oração. Mas de uma perpectiva tradicional cristã, esse modelo é baseado numa antropologia incorrecta. No cristianismo tradicional, o último objectivo da nossa alma é amar Deus e servi-lo de todo o coração, alma e mente, para alcançar uma união com ele na eternidade" (pág. 147). Neste sentido, uma pessoa ser pessoa a sério é crescer em contemplação e acção, através da fé e da razão. Esse crescimento faz-se no amor de Deus, que é a fonte de toda a verdade e beleza.
- Compartimentalizar a educação separando-a da igreja é criar uma falsa dicotomia. O verdadeiro discipulado é também uma questão de pedagogia, de um modo que crescemos além da nossa infância espiritual. Para que assim aconteça, temos de ultrapassar a expectativa em que fomos criados de que a nossa maior aspiração é a conquista do sucesso no nosso trabalho.
- Martin Cothran, uma voz no movimento de educação clássica cristã norte-americano, diz que "a educação clássica dos pagãos que foi transformada pela igreja tentava inculcar em cada nova geração uma ideia acerca daquilo que um ser humano deveria ser, através de exemplos constantes dessa humanidade ideal, e estudando os grandes actos dos grandes homens" (pág. 148 e 149). A transmissão destes ideais de geração em geração era nuclear. Em grande parte foi assim que durante dois mil anos a educação foi compreendida. No entanto, até os pais cristãos hoje acabam por adoptar o modelo educativo utilitário. Precisamos mais do que domesticar o nosso conhecimento de factos. Precisamos de recuperar uma perspectiva do ensino que nos encoraja à santidade. Diz Dreher: "a separação do ensino da virtude cria uma sociedade que aprecia as pessoas a partir do seu sucesso" (pág. 149). Do mesmo modo como uma fé anti-intelectual é frágil, também é igualmente frágil uma fé que é sobretudo intelectual.
- "Porque a Escritura é a palavra viva de Deus, a chave é criar modelos educativos onde as nossas crianças integram o conhecimento da Bíblia e a meditação na vida delas" (pág. 150). Temos de quebrar a iliteracia teológica que caracteriza boa parte do ambiente das nossas igrejas. O Deísmo Moralístico Terapêutico nasce precisamente daqui. Do mesmo modo como Deus dialoga com o mundo que criou, o nosso modelo pedagógico pede que os alunos sejam mais que receptores passivos dos factos que aprendem.
- Na educação é urgente recuperarmos a memória cultural. O cristianismo emergiu da confluência da religião hebraica, da filosofia grega e da lei romana. Apesar de o evangelho não ser Aristóteles, São Tomás de Aquino ou César Augusto, acreditamos que o cristianismo tricotou a sua história na história ocidental e não queremos perder esse património. A educação clássica cristã pressupõe que esta arte, literatura e filosofia foram usadas por Deus e continuam úteis para nós hoje. "Não podemos compreender o Ocidente sem a fé cristã, e não podemos compreender a fé cristã como a vivemos hoje sem compreender a história e a cultura do Ocidente" (pág. 153).
- O ensino que devemos oferecer às nossas crianças tem de ir além daquilo que é hoje considerado relevante. Devemos preservar a memória histórica - um bárbaro é precisamente alguém sem valor pelo passado. Por isso mesmo não podemos considerar normal que o nosso ensino comece fundamentalmente a partir do período do Iluminismo, como se nada de anterior tivesse acontecido. As experiências de ditadura do Século XX controlavam precisamente este acesso ao passado, para poderem fazer uma tábua rasa em função do que queriam que o povo soubesse e de como se deveria comportar.
- Rod Dreher encoraja os pais cristãos a tirarem os filhos do ensino oficial. Dá algumas razões: a pressão social para que os comportamentos que sejam tidos como aceitáveis é enorme diante dos nossos filhos (a experiência sexual, por exemplo, e a aceitação e promoção LGBT); a expansão do poder escolar em prejuízo da autoridade parental; a ingenuidade de defender que os nossos filhos podem ser sal e luz diante de um ambiente estruturalmente hostil (a metáfora é a de lançar uma criança à corrente de um rio para que ela salve outra que já lá está a afogar-se).
- Isto não significa que um espaço de ensino cristão é completamente seguro e isento de problemas. O que não falta em muitos espaços de ensino que se afirmam cristãos é um formalismo religioso apenas (e esta realidade é mais presente nos EUA, ou em Portugal em escolas católicas). A alternativa não é necessariamente escolas cristãs mas talvez mais a educação clássica cristã, podendo ela ser feita através de escolas ou de home-schooling. A base desta preocupação é olhar para a educação não tanto a partir do que posso fazer com ela mas do que ela pode fazer comigo.
- A educação clássica aceita o pressuposto de que tudo é ordenado a partir da lógica (logos) que se fez homem em Jesus Cristo. Logo, tudo na realidade está baseado em realidades espirituais. O transcendente é a base do físico, e não o contrário. Não faz, por isso, qualquer sentido, aprender sem que essa aprendizagem nos leve à adoração pessoal de Deus. Aprender a sério é aprender a adorar. Menos do que isso não chega a ser aprendizagem mesmo.
- A educação clássica tem uma abordagem de estudar os grandes livros (considerados parte do cânone ocidental), usando a estrutura do trivium: começa-se pela gramática (onde o estudante se compromete em memorizar factos básicos acerca do mundo), segue-se a lógica (onde os estudantes aprendem a usar a razão para analisar os factos e extrair significado deles), e finalmente a retórica (onde os estudantes se concentram num pensamento mais abstracto, poesia ou expressão pessoal). Há um método sistemático que se integra profundamente numa antropologia cristã e numa visão integrada da realidade. Graças à internet, o acesso a recursos para a prática da educação clássica cristã é cada vez maior. Este tipo de ensino mais facilmente aceita a participação da família e da igreja no projecto educativo. Não há separações, antes pelo contrário. Quanto mais os cristãos de origens denominacionais/confessionais diferentes conseguirem trabalharem juntos nesta frente, melhor.
- Claro que a opção do home-schooling parece demasiado radical para uma cultura que se tem rendido ao semi-monopólio estatal da educação. E pede decisões arriscadas como um dos pais assegurar que esse ensino está a ser mantido, geralmente acompanhado do facto de que o sustento salarial precisa de diminuir para que uma disponibilidade dessas aconteça. No fundo, não há como negar: "a educação clássica cristã é a nova contra-cultura" (pág. 173). Como dizia Chesterton, é preciso uma coisa viva para ir contra a corrente. Há sustos e riscos numa aventura destas e os poderes existentes não nos fazem a vida fácil. Mas o ensino dos mais novos não pode ser sustentado a partir do medo. É pela fé que vivemos.
Capítulo 8 - "Preparação para o trabalho duro"
- Como já vimos, o modelo beneditino recorda-nos que a acção e adoração estão integradas e que por isso não podemos separar a nossa fé da nossa carreira. Em segundo lugar, assegura-nos também que o trabalho manual não é uma maldição. Já os puritanos defendiam que a vocação era a chamada de Deus para que a pessoa a exercesse para o bem comum. O trabalho comum era também sagrado, e o trabalho pessoal era também colectivo. O trabalho, sendo importante e dado por Deus, não é tudo na nossa vida, mas uma parte fundamental dela que deve estar regulada de acordo com a adoração que devemos a Deus (e aqui Rod Dreher dá o exemplo da lei alemã que ainda não permite que o comércio esteja aberto sempre, como acontece com os Estados Unidos)
- "Podemos ainda não ter chegado ao ponto que os cristão são proibidos de comprar e vender sem uma aprovação estatal, mas aproximamo-nos do tempo em que áreas inteiras da vida comercial e profissional estarão além do alcance daqueles que não queimam incenso aos deuses da nossa era" (pág. 179). E se os cristãos não serão perseguidos necessariamente por serem cristãos, parece certo que o avanço inclemente dos direitos LGBT acabará por vedar o acesso de cristãos a muitos pontos do mercado global, exigindo-lhes leis anti-discriminação que em consciência não poderão seguir. Nesse sentido, a agenda gay não parece assim tão diferente da exigência pagã de adorar César.
- No caso do ensino a circunstância aperta. Professores de escolas públicas, professores universitários, médicos, advogados, são exemplos de profissões em que o cerco adensa-se, não permitindo que o desempenho profissional aconteça se não existir uma concórdia com a agenda LGBT em curso. Por isso mesmo, os cristãos são chamados a reavaliar as próprias profissões que contemplam seguir. Na prática, isto não é assim tão diferente do que acontecia com os judeus na Idade Média, quando muitas profissões lhes estavam vedadas pelos cristãos. Nos nossos dias, por exemplo, há no Canadá um grupo chamado Campus Pride que publica uma "lista da vergonha" nas universidades para que esses nomes, que não se revelam suficientemente apoiantes dos temas LGBT, não sejam contratados no futuro.
- Isto não significa que esta luta se faz de barulho apenas. Haverá pessoas que serão fiéis no seu cristianismo dando luta nas profissões que têm, e outras que terão uma perspectiva mais tranquila. Talvez parte da superação do problema aconteça mais em arriscar criativamente - os cristãos devem pensar em novos modelos de vocações e profissões que não coloquem em causa as suas convicções. A internet abre hoje possibilidades que no passado não existiam. Por exemplo, no campo da roupa há cristãos a trabalharem segundo o lema: "podes ficar frustrado com a indústria da moda ou poder ser a indústria da moda". Maior comunicação também significa maior alternativa.
- Também é possível dar prioridade a consumirmos produtos de cristãos, contribuindo para o sustento de pessoas que enfrentam as mesmas dificuldades que nós. Também é possível criar redes de emprego entre cristãos. Há um potencial dentro das nossas igrejas que muitas vezes não é explorado. Também é possível explorar as potencialidades de uma vida mais agrária, ligada à terra. Por outro lado, e colocando as coisas de um modo bem directo, podemos prepararmo-nos simplesmente para sermos mais pobres e marginalizados. A ambição, uma espécie de qualidade americana sagrada, não tem de ser um dogma.
- "Podemos começar a pensar acerca do nosso trabalho como uma chamada, uma vocação no sentido antigo: um modo de vida que nos foi dado por Deus para a sua glória e para o bem comum". Nenhuma destas estratégias vai, no entanto, resultar se não encararmos as duas forças mais poderosas da vida moderna: o sexo e a tecnologia.
Capítulo 9 - "Eros e a Nova Contra-Cultura Cristã""
- O sexo foi criado por Deus para a nossa alegria e desenvolvimento. Fora deste molde, tem efeitos destrutivos. "Não existe ensino cristão que seja menos popular hoje [como o do sexo], e talvez nenhum outro seja tão importante de obedecer". É triste que haja também cristãos que não o entendam. Sabermos que os dons não nos dominam mas nós que somos chamados a dominar os dons é um testemunho precioso nos nossos dias. Nesse sentido, todos os cristãos são chamados a viverem com algum grau de abstinência sexual. Em nenhuma outra área da vida seremos chamados enquanto cristãos a ser tão contra-culturais como na área sexual. Para isso devemos entender a riqueza da visão cristã sobre o sexo e entender como a chamada Revolução Sexual se opõe a ela. "As práticas sexuais são tão centrais à vida cristã que quando os crentes deixam de ser ortodoxos nesta matéria, geralmente deixam de ser significativamente cristãos". Este ambiente de liberdade sexual já era o que caracterizava o velho paganismo, onde os cristãos deram um testemunho de combate a essa desumanização. "A moderna repaganização chamada Revolução sexual não pode ser conciliada com um cristianismo ortodoxo".
- "O modo como tratamos os nossos corpos (e toda a criação) diz alguma coisa acerca do modo como olhamos para aquele que nos deu [esses corpos] e cuja presença enche todas as coisas". Geralmente quando as pessoas deixam de concordar com aquilo que historicamente o cristianismo ensina acerca do sexo, elas não mudam de igreja - pura e simplesmente abandonam qualquer uma. De certo modo, isto significa que o sexo é um assunto de tal importância que na fé confere uma força social única. Philip Rieff dizia no seu livro "The Triumph Of The Therapeutic" que "renunciar à autonomia sexual e à sensualidade da cultura pagã e redirecionar o instinto erótico era intrínseco à cultura cristã".
- O ensino cristão acerca da pureza sexual foi o que libertou muitas pessoas da cultura pornográfica e sexualmente exploradora dos gregos e dos romanos (especialmente abusiva das mulheres e das crianças). "O cristianismo, como articulado por Paulo, fez uma revolução cultural, restringindo e canalizado o eros masculino, elevando o estatuto das mulheres e do corpo humano, e infundindo o amor ao casamento - e à sexualidade matrimonial (...) A castidade - o uso ordenado do dom da sexualidade - foi a maior distinção colocando de parte os cristãos da Igreja Primitiva em relação ao mundo pagão". No cristianismo não dá para separar o que a pessoa é daquilo que faz com a sua sexualidade - há uma nova antropologia a partir daqui.
- No mundo pagão o sexo não era uma expressão da subjectividade da pessoa ou das suas necessidades, mas era uma espécie de pulsar cósmico tão impessoal como as estrelas. Se esse impulso vinha de deuses ou demónios, não interessava tanto. A Bíblia liga a sexualidade à imagem que herdámos de Deus, conferindo-lhe uma personalidade moral. Nesse sentido, o uso das nossas capacidades sexuais produz sempre algum tipo de resultado ético. O pecado sexual é tudo aquilo que acontece que não corresponde ao propósito de Deus, rompendo com a estrutura da própria realidade, como desenhada por ele. Logo, para os cristãos apenas o sexo entre o marido e a mulher defende um símbolo que, sendo físico, corresponde a um propósito transcendente. Esse propósito é a imitação da união entre Cristo e a Igreja. A própria diferença envolvida no sexo, entre homem e mulher, existe para que ambos sejam encaminhados à compreensão de quem Deus é e de que tipo de seres humanos devemos ser. O sexo é escatológico - tem um propósito futuro.
- A questão não é tanto se somos homens ou mulheres mas como podemos ser homens e mulheres juntos. Os factos biológicos acerca do nosso género não são acidentais mas parte da nossa personalidade. O sexo é feito de complementaridade porque essa complementaridade é um reflexo da ordem divina. Ora, o divórcio, o chamado casamento gay e o fenómeno trans-género dissolvem por completo essa harmonia. E sugerem que a natureza não nos impõe qualquer limitação, que o céu é apenas o tamanho do nosso desejo. "A autonomia sexual, que pelos vistos é a propriedade mais desejada pelas pessoas modernas, não é apenas moralmente errada como é também uma falsidade metafísica".
- De certo modo, a revolução sexual foi a mais revolucionária da história mesmo. De um modo que capturou os corações e as mentes até dos cristãos. "Os historiadores futuros perguntar-se-ão como é que os desejos sexuais de apenas cerca de três por cento da população se tornaram o fulcro de como uma visão acerca do mundo foi vencida". Os direitos gays tornaram-se a pedra fundamental de todas as guerras culturais. O movimento homossexual, nesses termos, inventou uma nova cosmologia que se tornou até a daqueles que supostamente não concordam com ele. Um dos truques de génio passou por equivaler os direitos dos homossexuais aos direitos raciais.
- Por outro lado, a aceitação do chamado casamento homossexual ganhou adesão por causa do conteúdo que passou a ser achado no próprio casamento heterossexual e tradicional. Ou seja, a partir do momento em que o casamento passou a ser visto fundamentalmente como uma experiência de prazer pessoal e realização pessoal, em que a procriação é secundária, a aceitação do chamado casamento homossexual tornou-se apenas o seguinte degrau lógico.
- Na perspectiva moderna o valor da vida avalia-se da capacidade que a própria pessoa tem de definir o sentido da sua existência. Cada um manda em si mesmo, somos educados. O chamado casamento gay é o triunfo final da Revolução Sexual porque destrói de uma vez por todas a velha antropologia cristã, em que a pessoa não define os seus próprios conceitos de certo e errado mas tem de se confrontar com conceitos de certo e errado que são anteriores a si mesma, absolutos. O problema não é apenas o fenómeno dos direitos homossexuais; os direitos homossexuais são a consequência de a modernidade ter colocado dentro de cada pessoa a autoridade para determinar a moral que cada um segue. O chamado casamento gay não é a causa mas a consequência.
- A ironia é que são as ditas igrejas que toleram esta nova moralidade sexual que mais rápido se esvaziam. E, paralelamente, julgar que por não se falar no assunto se fica na neutralidade, apenas confirma que se tomou o lado que não é o da defesa da palavra de Deus. Mais ainda: "Aguar a verdade por causa do princípio de preservar ou expandir a congregação é fazer da comunidade um ídolo".
- O segredo passa por enfaticamente afirmar o que a palavra afirma e deixar claro que a sexualidade é uma bênção divina. O corpo é bom porque foi Deus que o criou. Mas a bondade do corpo e do sexo envolve a coragem de declarar que a nossa actual cultura erotizada é uma versão desqualificada e contrabandeada do bem que há no sexo. É urgente uma formação bíblica para a compreensão do dom da sexualidade e do dom da castidade, não escondendo sobretudo das novas gerações dos desafios implícitos num cristianismo autêntico. Essa formação não pode tornar-se apenas num moralismo - tem de saber lidar com o drama bíblico que também é erótico, porque trata de um casamento entre Cristo e a Igreja (e daí a importância de Cantares de Salomão). Os cristãos não são chamados a se manterem virgens até ao casamento porque temem o sexo; a castidade cristã deve apontar para uma alegria que vem do uso correcto da sexualidade.
- O Papa Bento XVI disse que "a ligação entre eros e casamento na Bíblia praticamente não tem equivalente em literatura extra-bíblica". Já no Velho Testamento a ligação entre Deus e o povo de Israel era descrita como um casamento. Diz Dreher: "A castidade nunca é um fim em si mesmo, mas o meio através do qual o instinto erótico do homem é canalizado e redirecionado para uma relação contínua com Deus". Quando o eros vive à solta na nossa vida o resultado é o caos e a desintegração. "No cristianismo o desejo individual é purificado e transformado em agape - um amor incondicional e que não é egoísta". Logo, não é possível reduzir a castidade cristã a uma "não faças" - é ficarmos com a nossa imaginação espoliada.
- Enquanto cristãos vivemos para sermos unidos a Deus, numa relação que é tão intensa que não é absurdo o emprego de uma linguagem erótica. Ao longo de dois mil anos, também foi isso que a arte cristã invocou. A completa libertação sexual traz uma tragédia consigo que é perder-nos nessa peregrinação desejosa em direcção a Deus, para ficarmos parados em lugares que ironicamente não têm capacidade de nos satisfazer. Nesse sentido, uma falha dos cristãos tem sido não saber contar bem a aventura que é a importância da castidade para uma alegria e prazer finais e superiores.
- Os pais têm de ser educadores sexuais competentes, combatendo a pornificação global em curso na nossa cultura. O acesso indiferenciado dos nossos filhos aos media e à tecnologia tem de ser revisto. Não pode ser o que os nossos filhos vêem a guiar a educação deles, mas aquilo que os nossos filhos ouvem de nós. Num mundo em que o normal se tornou a ideia de que tudo é normal, os pais cristãos devem valorizar sem culpas a bênção que é ter filhos e educá-los numa imaginação moral saudável que os ensina a ecologia da família natural.
- É fundamental as nossas comunidades cristãs amarem e apoiarem as pessoas que não são casadas. A Igreja tem de ser um lugar acolhedor para solteiros. Muitas vezes, e mesmo que sem intenção, caímos num extremo tão defensivo em relação à família que esquecemos que o celibato é um dom divino ainda melhor do que o do casamento (como Paulo afirma em 1 Coríntios 7). Ao mesmo tempo, perdemos a capacidade de ajudar as pessoas que são tentadas pela atracção física por pessoas do mesmo sexo.
- A luta contra a pornografia tem de ser vista como uma prioridade absoluta. A desumanização que a pornografia consegue é um mal muito próprio da época que vivemos, e que chega a todo o lado, mesmo dentro da igreja. As pessoas expostas à pornografia ficam com os fios que ligam o amor ao corpo completamente trocados. "A pornografia cria ligações novas no cérebro, tornando muito difícil que aqueles que a usam muito tempo consigam sentir-se excitados por seres humanos reais". O perigo é concreto. Como é possível que os pais abram a estrada da pornografia aos seus filhos oferecendo-lhes smartphones, pergunta Rod Dreher. É óbvio que a solução não é pensar que é impossível impedir totalmente o acesso da pornografia pelo exterior - temos de ensinar as nossas crianças a compreender o papel do sexo na economia da Criação.
Capítulo 10 - "O Homem e a Máquina"
- Actualmente 90% dos americanos tem telemóvel e 64% desses são smartphones. Esta é a teconologia mais rapidamente consumida em toda a história. Quantos de nós é que não reconhecemos que a nossa dependência dos nossos telefones vai além do que desejamos?
- A tecnologia online é um fenómeno que fragmenta e enfraquece a nossa concentração, tornando-nos mais débeis em resistir aos nossos impulsos. Uma das definições de tecnologia é precisamente a de "uma ideologia que condiciona o modo como nós humanos compreendemos a realidade". Nesse sentido, o uso de uma tecnologia imprime uma liturgia cultural que se não estivermos conscientes nos leva a aceitar uma crença moderna, de que o nosso lugar no mundo é dominar a natureza. Se não for o Criador a liderar o nosso relacionamento com a criação, vamos querer ter diante dela uma potência total.
- A tecnologia não é moralmente neutra. A tecnologia implica um modo de olhar para o mundo. No percurso do desenvolvimento da tecnologia, a natureza passou a ser vista como desprovida de um sentido em si mesma, sem um significado objectivo. Ou seja, a natureza é vista como algo para ser conquistado por nós, o agente realmente significativo da relação. Despreza-se então a ideia de que a natureza possa ter um sentido em si ao ponto de aceitarmos as limitações que ela nos impõe. No cristianismo, a personalidade objectiva da natureza e os limites que ela nos impõe não têm de ser um problema porque ela foi planeada por Deus. O que parece uma incapacidade nossa em relação a ela, é uma escola para nós.
- Antigamente a relação das pessoas com a natureza vinha das convicções morais e religiosas que elas tinham. Primeiro acreditava-se em alguma coisa e em função disso lidava-se com a natureza, com os limites colocados pelas próprias convicções prévias. Hoje não é assim. Hoje nós temos convicções morais a partir daquilo que conseguimos fazer com a natureza. A convicção não é a causa mas a consequência. "O homem tecnológico compreende a liberdade como uma liberação de tudo o que não foi escolhido livremente pelo indivíduo autónomo". A relação com as tecnologias tem sido conduzida a partir desta ingenuidade. "O homem tecnológico diz: se podemos, devemos".
- A Revolução Sexual é o resultado desta perspectiva aplicada ao corpo. Por exemplo, se é possível o sexo sem procriação, então o sexo passa por princípio a ter de ser entendido além da procriação. Nunca antes tinha existido este entendimento. Esta é uma verdadeira perspectiva tecnocrática. O que é moral é aquilo que a tecnologia permite. Considera-se inaceitável que a moralidade seja entendida a partir dos limites que nos são impostos; a moralidade é o resultado das liberdades que obtemos. A mudança é completa em relação às nossas convicções cristãs.
- "A Internet acelera a fragmentação política, social e cultural". As mudanças que as formas da internet imprimem são maiores do que os seus conteúdos. Isto porque a nossa exposição aos modos da internet altera a maneira como compreendemos e interpretamos a realidade. O paradoxo da Internet passa pelo facto de nos dar tanta liberdade (de, por exemplo, termos acesso a recursos cristãos) e, ao mesmo tempo, poder tornar-nos tão passivos. "Usar a rede torna muito mais fácil encontrar informação mas muito difícil manter a atenção necessária para conhecer coisas".
- Entendendo a origem das palavras gregas, "techne refere-se ao conhecimento que nos ajuda a fazer coisas, ao passo que episteme refere-se ao conhecimento de como as coisas são, de um modo que possamos saber o que fazer". Tanto a contemplação como a acção são necessárias para o desenvolvimento humano.
- É importante ganharmos uma prática de jejum das tecnologias digitais. Para nós, cristãos, a existência de limites colabora para termos uma contemplação mais clara de Deus e das pessoas à nossa volta. Nessa medida, aquilo que podemos fazer mas moderamos serve para estarmos mais disponíveis para uma vida em que não somos o centro. No fundo, uma vida desordenada é aquela que ama mais as coisas finitas do que o Criador delas. A razão porque a vida cristã medieval estava orientada a partir de orações, rituais, jejuns e festas era porque toda a vida, fosse pública ou privada, deveria ser organizada sob a crença numa ordem divina. "Desenvolver um controlo cognitivo que nos leva a uma vida cristã mais contemplativa" é uma das chaves para não nos rendermos à verdadeira prisão que é fazermos tudo o que quisermos. "O primeiro passo para reconquistar o controlo cognitivo é criar um espaço de silêncio em que possamos pensar".
- Deveria fazer-nos pensar o facto de os maiores cérebros da tecnologia digital terem regras de restrição de tecnologia nas suas casas em relação aos seus filhos (Steve Jobs ou Chris Anderson, por exemplo). Vale a pena inverter esta terrível experiência involuntária em curso, que é deixarmos que o acesso inqualificado dos nossos filhos à tecnologia lhes marque o ritmo do seu desenvolvimento. Vale a pena, por exemplo, deixar a tecnologia fora dos nossos actos de adoração, diz Dreher. A questão não é deixar de usar a internet mas reclamar sobre ela o uso correcto. Há muito mais no mundo não-digital que podemos e devemos estar a fazer.
- Julgar que o mundo pode ser compreendido fundamentalmente a partir da tecnologia é um erro - ficamos apenas o que podemos fazer. E, como a nossa fé nos ensina, somos mais do que aquilo que podemos fazer. É por isto que o mundo moderno tem pânico do tédio, porque o tédio é o que acontece quando não conseguimos resolver a vida a partir da acção. A ironia é que o tédio serve hoje de isco para a descoberta da contemplação/meditação, a resposta cristã para o que deve ser feito quando aparentemente não há nada para fazer.
- Como foi dito no primeiro capítulo, o deísmo terapêutico moralista reduz Deus à felicidade que ele nos pode dar. Infelizmente, a tecnologia opera segundo a mesma lógica de termos os nossos desejos imediatos satisfeitos. Por isso mesmo, é importante que o nosso louvor seja capaz de colocar restrições à tecnologia, e não e tecnologia a colocar restrições ao nosso louvor.
- A solução é ficar firme na rocha da ordem divina, junto à tradição cristã. Pensar, falar e agir de acordo com a encarnação de Cristo e passar isso de geração em geração.
- A imagem final deve ser a da arca, símbolo de resistência num naufrágio justificável pela erosão moral de um povo. Também durante o exílio da Babilónia foi dado a Ezequiel a visão de Jerusalém restaurada. A Igreja tem a ver com as duas visões: a arca que sobrevive e a cidade restaurada. A Benedict Option tem a ver com as duas dinâmicas: a da retirada e a do envolvimento. O amor é um elemento necessário para os dois movimentos. É mais do quem feeling, é um compromisso.