Eu estava segunda na manifestação que de sábado em BH. Não foi bonito. Quem estava sabe a confunsão que foi instaurada, onde pessoas que tentavam expressar sua raiva e indignação foram recebidas com bombas de gas, borracha, pimenta. Coisas que, se você está com raiva, não vão te ajudar a acalmar, ou raciocinar o que está acontecendo.
Pois bem, as cenas que vi segunda foram muito fortes, o que me deixou decidido a comparecer no que aconteceria sábado. Mas não seria tolo, me protegeria para o pior. Dotado de uma máscara semi-profissional contra gas, oculos protetores e luvas, me juntei a alguns poucos que se voluntariaram para ajudar os manifestantes. Como? Como pudessemos, no sentido de manter a integridade física de todos. Dando vinagre, soro fisiológico, aplicando anti-ácido nas queimaduras de pimenta, destribuindo agua e até barras de cereal.
Todas as preparações foram feitas e chegou o dia de marcharmos ao que acreditamos ser em prol de um país mais justo.
Cheguei por volta de umas 14 horas na praça 7, me encontrei com duas amigas e começamos a marcha acelerada para encontrar as pessoas do grupo que já estavam em movimento. Confesso sentimentos mistos enquanto ia adentrado a movimentação de pessoas que se engrossava a cada passo. Vi vários tipos, várias classes, várias idades e cada um se expressando de uma forma, até ai ok. Só quando foram aparecendo os cliches é que meu semblante foi fechando.
Não por tristeza ou raiva, mas por preocupação.
Vi várias pessoas que estavam perfeitamente vestidas para um churrasco de domingo. Tirando várias fotos de "manifestação! eu fui! #vemprarua #ogiganteacordou #changebrazil". Vi uma série de caras sem camisa micaretando toda a situação. Vi muita cerveja e até cara vendendo doses com energético. O mais incrível é que estava vendendo bem.
Minha preocupação aqui não é pela forma que cada um se expressa, ou entende a situação, mas foi a questão de segurança mesmo. Eles não leram os jornais? Não viram o que aconteceu no mesmo tipo de manifestação menos de 1 semana antes?
Enfim, talvez eu estivesse pensando dessa forma porque estava lá esperando o pior e me preocupava em como diminuir todo o impacto daquela situação que temia que se repetisse.
Achei estar exagerando até que, enquanto andava por meio da multidão de pessoas alegres, cantantes e empolgadas, pude ver alguns poucos de expressão mais densa. Assim como eu, não demonstravam tristeza, mas um tom forte de preocupação, até pelo tipo de aparelhagem que portavam: Luvas, botas, roupas mais grossas, alguns com mascaras e muitos óculos de natação.
- Corta para a Faixa de BeaGáza -
Eu já tinha me juntado ao grupo quando ouvimos as primeiras explosões. Nos primeiros balaços sonoros, ficamos ainda em dúvida se realmente já tinha "começado".
Não demorou muito para ouvirmos mais bombas e começarmos a ver pessoas correndo. Imediatamente, colocamos as devidas proteções e apertamos o passo para onde parecia precisar mais de ajuda.
Vimos um homem com mega fone tentando direcionar as pessoas para a rua santa maria. Subimos a Abrãao Caram e nos mantivemos a meia distancia do bloqueio, local normalmente ideal para socorrer quem sai dos gases de fumaça.
O clima de tensão era nítido no ar, não estava estourando nada ainda, mas era questão de tempo, os policiais imóveis olhavam as pessoas que se aproximavam, cantavam, vociferavam e pediam passagem.
Não foi questão de muito tempo até que algum "manifestante" se sentisse no direito de tacar uma pedra e as bombas e correrias voltassem a estourar.
Mas assim que o gas passava, as pessoas começavam a se reagrupar na frente dos policiais, que permaneciam parados e inalterados.
O local que tinhamos escolhido já não era seguro, parte do meu grupo já se separara, decidi não sair de lá, pois estava tentando auxiliar o máximo de pessoas que conseguia com o magnésio que tinha, e apesar de não estár totalmente seguro, meu equipamento estava segurando a onda.
Por volta de 20 minutos dentro do jogo do Brasil, eles se cansaram, e botaram todo mundo pra correr sob bombas de pimenta e gas lacrimogenio.
Foi na hora que meu equipamento não segurou mais a onda e desci correndo. Percebi que não estava perto de mais ninguém que conhecia. Desci pelo lado da Hyundai em direção a Antônio Carlos.
Ao meu lado iam manifestantes e manifestantes encapuzados, todos de olhos marejados e clara irritação da pele facial. Iam quebrando o que viam pela frente. Era claro perceber uma raiva sendo disseminada entre muitos ali. Não uma raiva comum, mas a do pior tipo, a raiva de INCAPACIDADE. Aquela RAIVA que é resultante de uma situação da qual não se vê saida, e então faz-se qualquer coisa pra "descontar" no famoso caso de "não tem tu, vai tu mermo". Sendo assim, não houve nada que se salvasse nos arredores dos primeiros ataques.
No meu caminho pude ver como a coisa foi escalando a passos largos. Ao tentarem entrar por uma rua lateral a da Hyundai, os manifestantes, que a essa altura já não estavam pacíficos, foram recebidos por mais bombas. Começaram então a quebrar as proteções de madeira de uma garagem de caminhonetes na esquina para usar como proteção contra as bombas e balas de borracha.
Em meio a essas depredações, houveram mais, haviam aqueles que quebravam só pra quebrar, por raiva, por indignação, escolher um motivo para "revidar" era fácil, não faltavam.
Eu já não sabia muito bem para onde ir, e ao meu redor tinham mais gente querendo brigar do que precisando de ajuda. Pensei em impedir algumas depredações, tentar colocar algum sentido no meio da massa, mas tive medo de virar o alvo.
A policia continuou empurrando com bombas e balas de borracha e as pessoas foram se aglomerando no posto Shell ao longo da Antonio Carlos. Um grupo de policiais que veio da direção da pampulha separou os protestantes que se encontravam naquela direção e começou a empurrar os manifestantes sob bombas de efeito moral e gazes.
Foi muito corre-corre, pessoas sem saber o que fazer, para onde correr. Eu estava carregando um galão de agua vazio e usei para neutralizar umas granadas. Confesso até que foi um dos momentos que nunca vou esquecer na minha vida. Em meio a toda essa confusão e destruição, voou uma granada pro meio do posto, e quando foram chutar, chutaram pro meio de uma galera. Corri com o galao na mão e pulei no meio de todo mundo para neutralizar. Quando tampei o galão e pude respirar foi que vi que olhavam pra mim,batiam palma e gritavam agradecendo.
O quebra pau se desenrolou nessa covardia, os manifestantes revidando de maneiras extremamente efetivas como atirando pedras que sequer arranham os escudos que eles portam, quebrando coisas e utilizando algumas como escudo para tentar um fútil avanço até que uma bomba de gas estourasse e todos voltassem correndo.
Foram empurrando a multidão para debaixo do viaduto da Abraao Caram e eu tentava manter no meu proposito, neutralizando as granadas, e distribuindo atendimento para quem precisasse.
Nesse ponto, para quem estava lá na frente, a tonalidade de CONFLITO que havia tomado já demonstrava que tomaria propoções extremamente piores que as observadas na ultima segunda.
A cavalaria avançou, e os manifestantes continuavam a recuar lentamente numa tentativa vã de demonstrar resiliencia, do tipo "Não vamos desistir". Para mim, parecia que não era mais uma manifestação, e sim uma especie de revanchismo.
Em meio avanço da cavalaria, alguem gritou para sentar, o qual imediatamente fiz com mais um do meu lado.A cavalaria continuou avançando e percebi que eu e este eramos os únicos sentados.
Correr, naquele momento, seria apenas se transformar alvo para os cavaleiros. Me abracei ao companheiro e nos solidificamos como uma rocha, enquanto miravamos os cavalos que avançavam.
Por sorte, a manifestação estava mais grossa um pouco ao nosso lado, o que chamou mais a atenção dos policiais, dando a chance da gente levantar e correr.
Foi nesse ponto que comecei a ver a comoção em um canto da ponte e corri para ver o que era. Quando cheguei a mais ou menos uns 10 metros do bolo, pude ver um ser humano como um boneco jogado ao chão. Havia sangue, e ele estava de costas, ninguem mexia, mas cercavam. Aonde deveriam estar as costas, havia um ombro saltando da camisa e a perna estava contorcida de uma forma pertubadora demais para descrever.
Olhei para os policiais que se reagrupavam e voltavam a mirar os manifestantes que já se confundiam com guerrilheiros. Em questão de segundos, pesei as possibilidades do que estava cogitando fazer, mas isso foi mero exercício, pois no fundo, sabia que não conseguiria dormir se não o fizesse.
Com as mãos levantadas e pelo canto, colado aos prédios, avancei em ritmo cauteloso, porém decidido em direções aos policiais. Minha mascara já estava no queixo e meus oculos na cabeça. Avançava com armas miradas para nós enquanto apontava e tentava gritar para que ouvissem: Ambulância!
Um dos policiais fez menção de se aproximar enquanto me ameaçava com uma arma semi-levantada. Eu me abaixei com as mão ao alto e falei que precisavam de uma ambulancia, para chamarem pelo rádio.
Ele respondeu que não ajudava encapuzado.
Arremessei minha mascara no chão e gritei novamente, dizendo que não era pra mim, ainda de mãos ao alto e quase de joelhos.
Veio um outro policial, vestido com uniforme da força nacional, me puxou pela camisa, e eu não quis ir. Foi naquela hora que contemplei o que podia ser feito comigo, ser preso, espancado e sabe-se lá mais o que. Gritei de desespero, enquanto o policial rasgava minha camisa e me colocava no chão sob mira da arma dele. Ele mandou mostrar o que tinha na mochila.
Fui lentamente falando que ia mostrar tudo e fazer tudo que ele tava mandando, nesse ponto já chorava enquanto mantia a calma para não piorar a situação. O primeiro policial, que estava sobre um cavalo, já colava a parte lateral do cavalo na minha nuca. Pedi que retirassem o cavalo da minha nuca, pois não me sentia seguro enquanto gritavam para eu calar a boca e abrir a mochila.
Virei o que tinha na mochila no chão: Agua, barra de cereal, leite de magnesio e vinagre.
Ele chutou e mandou eu ir embora, sair dali e me empurrou para parte de tras dos policiais, onde estava consideravelmente mais calmo.
Creio que tive "sorte" nesse momento, pois não sei o que teria acontecido se tivesse ficado lá na frente, pois não sei se teria saido a tempo do "martelo cair" de verdade sobre todos, pois como descreverei mais a frente, até então, a policia não estava agindo "pra valer".
Até então, tinha sido rendido, revistado e privado das minhas coisas, mas nada de ambulancia. O sentimento de impotencia que falamos mais cedo caiu com peso em cima de mim, mas ao contrário dos otros manifestantes, soube ponderar a situação muito melhor. Comecei a chorar de desespero e pedir por favor, para chamarem uma ambulância. Quase implorando, e só digo quase, pois não estava me jogando ao chão.
Em meio a tudo isso, vi uma luz. Mas não era uma luz comum, muito menos Jesus, mas vi uma luz de camera e vi um policial falando de frente para ela.
Corri como um desesperado e cheguei vociferando ajuda para o cara que caiu da ponte. A camera imediatamente se virou para mim e o policial, aparentemente o comandante responsavel, também. Quando comecei a falar que tentei pedir ajuda para todos os PMs e me ignoraram, imediatamente o policial me interrompeu e começou a discursar quase que em verborragia, não me dando chance de falar, enquanto ele falava que a PM estava lá para ajudar mesmo. O tempo passando e nada de ambulancia.
Pedi para ele deixar eu falar, ele falou que eu estava descontrolado, agitado, em choque. Retruquei que estava bem, só agitado, mas sabia o que estava dizendo e só queria uma ambulancia.
Confesso que foi mto rapido, o comandante tentou discursar novamente, mas eu tentei interromper pra ele pedir a ambulancia LOGO pelo radio, ele se zangou. Para minha sorte, um outro policial, aparentemente segundo no comando pegou o rádio e me perguntou as informaçoes de onde tinha acontecido e etc. Disse tudo que tinha visto.
Enquanto tudo isso tava rolando, as cenas de conflito só se agravavam naquele mesmo formato, a policia bombardeava, pessoal corria, reagrupava, pegava pedra, quebrava e tentava "avançar" de novo.
Pedi para a imprensa que tava lá ligarem a camera e dei meu depoimento. Fui interpelado pelo comandante denovo em uma discussão fútil que terminou nele dizendo para eu parar de brigar que estavam ali para ajudar. Eu apontei de forma dramática para todo cenário e perguntei se aquilo era ajuda.
Neste momento foi quando ele me proibiu de dirigir a palavra a ele. Dizendo que ele era uma autoridade e era um desacato. Pedi novamene para falar, apenas para me desculpar, pois não foi minha intenção ofende-lo ou descata-lo.
Me direcionei ao policial que tinha, de fato, chamado a ambulancia, e fui conversar com ele, pois me parecia mais sensato ou, ao menos, mais aberto a um tipo de diálogo.
Em meio uma conversa relativamente amistosa enquanto assistíamos ao massacre de camarote, o rádio do policial borbulha e ele olha pra mim, e pede pra eu ir pra trás. Foi no mesmo momento que várias viaturas lotadas de policiais com escudo e cacetete apareceram juntamente com o famoso "caveirão".
Ele apenas me disse: "Nossa, agora vocês vão assustar mesmo, a ordem é de dispersão" e logo em seguida sumiu em meio aos outros policiais.
DISPERSÃO
Tive medo do que ia se seguir, pouco pude ver a essa altura, pois a fumaça e o viaduto cobriam boa parte da visão, mas pude ver os policiais avançando em formações com escudo e cacetete empunhados e o povo recuando aos poucos.
Enquanto tudo se densenrolava, tentei ligar para amigos para saber como estavam e falar para sairem, pois o bixo ia, de fato, pegar.
Com pouco sucesso, permaneci conversando com alguns jornalistas, e consegui uma carona para ir embora.
O espaço entre o período que passei a barreira policial e finalmente consegui uma carona pra ir embora, foi longo e tive muito tempo para refletir sobre os acontecimentos.
Pois precisei refletir, a cena que vi no momento que pedia uma ambulancia desesperado foi de guerra. Pior, de guerra motivada meramente por raiva e elementos mal colocados. Os manifestantes culpavam os policiais pela agressão, e os policiais se sentiam no direito de revide por estarem sendo agredidos. O que não é, em parte tão absurdo.
É algo muito dificil nutrir qualquer tipo de sentimento bom a uma pessoa que tenta te agredir, te machucar, e se já é dificil pra uma pessoa que tem essa capacidade de ponderação, imagina pra uma pessoa que não teve estudo, não teve treinamento e se ele se negar a cumprir ordens, pode ser preso.
Ficou algo muito claro para mim que o dia 22 de junho de 2013 foi um resultado de uma mistura quase química do comportamento humano. Quando se para pra pensar nos elementos em questão:
1 - A manifestação que ocorre hoje no Brasil, é um tipo de manifestação que raramente ocorreu no mundo, pois não surgiu de um objetivo, mas de um sentimento generalizado de indignação. De raiva perante a "impotencia" perante os abusos do poder público. Como algo motivado pela raiva perante a impotência, como acham que uma barreira de policiais que parecem estar lá para oprimir vai repercutir em meio a esta multidão?
2 - Policial também é pessoa, sente raiva, sente dor, tem medo, age sem pensar. Então quando vc pega pessoas, não prepara para o tipo de situação extrema que foi sábado e bota uma arma na mão delas, o que se espera que elas farão quando começarem a ser agredidas, não importando o quão leve são essas agressões?
3 - Cria-se nessa química uma mecânica de antagonização entre povo e polícia. Sendo que isso é ridículo, os policiais não são responsáveis por nenhuma das coisas que estamos reinvidicando, talvez pela segurança, mas isso passa muito mais por outras mãos do que propriamente dito dos policiais. Não dá pra pintar policial como inimigo. Eles podem ser brutais, podem ser covardes, mas burrice é pensar que eles são assim sozinhos, eles tem ordens, quem dá essas ordens? Estes sim, tem muito a responder e poder de gerar mudança.