Ashton encarava o vazio com um aperto no coração. Ele segurava certo colar em sua mão com força, tentando em vão segurar as lágrimas. O objeto não tinha grande valor em dinheiro, mas era totalmente sentimental. Afinal, era o colar que sua namorada sempre usava. Ninguém estava ali com ele, tinham achado melhor o deixar ficar só. O vento gelado soprou em seu rosto, fazendo seu cabelo cair levemente em cima de seus olhos. Nem se incomodou de tirar, entretanto. Não tinha forçar para tal gesto. Todo mundo se vai um dia. Ashton sabia disso. Na verdade, todos sabiam. Ele, assim como a maioria, só não imaginava que ela fosse ir tão rápido. Ouviu passos apressados vindo de um corredor ali perto de onde estava. O garoto estava em um banco no ar livre encarando aquele fim de tarde triste, pensando em como tudo aconteceu tão rápido a ponto de ele não conseguir fazer nada a respeito. É tudo a sua culpa, Ashton ouviu uma voz maldosa em sua mente gritar. Ela está morta por sua culpa! LukeGirl olhou para ele em silêncio por alguns minutos. Sua boca abriu levemente ao ver o estado do melhor amigo. Destruído era pouco para o que ele estava. Quando tomou coragem, se aproximou cautelosa. - Estávamos ficando preocupados. - Eu estou bem, não precisam se preocupar comigo. LukeGirl sentiu exatamente o que ele sentia. Aquele vazio extremo, junto com a tristeza aguda. Chegou mais perto dele, lentamente. Em seguida o abraçou forte, como se quisesse fazer aquela dor insuportável parar. - Não fique assim, Ash. Ela não gostaria que ficasse desse jeito. Ashton fechou os olhos, sentindo algo estranho no peito. Deu um sorriso desajeitado ao imaginar a cena. Sua melhor amiga tinha razão, apesar de tudo. - Ela provavelmente me bateria. LukeGirl soltou uma risada curta e sincera. Não sabia se era adequado rir naquele dia depressivo, mas não pôde evitar. Era exatamente o que a garota faria. - E falaria para eu parar de ser idiota. Mas, então, diria também que seria impossível isto acontecer. - Ashton completou com um sorriso leve nós lábios. - Com um aperto no coração, LukeGirl viu aos poucos o olhar dele focar em um ponto vazio. A russa se sentiu mal. Não estava sendo fácil para ninguém. Nem para ela, muito menos para Ashton. - Como Luke está? - Perguntou o garoto, tentando mudar de assunto. - - Péssimo, é claro. Eu nunca o vi tão mal… -Suspirou triste só de pensar em seu namorado totalmente detonado. - - E os outros? - Michael sumiu faz algumas horas. MikeGirl foi atrás dele, mas não sei se o achou. E CalGirl não para de chorar. Calum está tentando acalmá-la, mas sem sucesso. Ashton assentiu com a cabeça, em silêncio. - É, parece que ela não era tão odiava quanto pensava… - LukeGirl pensou alto. – Certo… Essa foi ruim. - Foi. - Concordou. - LukeGirl ficou em silêncio por um minuto até, finalmente, ter valentia para dizer algo muito importante, mas ainda sim algo que o destruiria por dentro. - Está na hora, Ash. Sei que é difícil… Mas chegou a hora de dizer adeus. O garoto fechou os olhos com força e limpou com as costas da mão os olhos rapidamente. Não, chega de chorar. Chega de sofrer… Por mais que quisesse que isso acontecesse, seu corpo não o obedecia. Muito menos seu coração. Irritado com aquela situação, se levantou rapidamente. - Vamos logo… Entrou novamente naquele corredor estreito. Diferente do que queria, começou a andar demasiadamente lento. Sabia, no fundo, que quando alcançasse o acabamento do corredor, seria o fim de tudo. Literalmente. E Ashton não estava pronto para dizer adeus. Nunca estaria. Não para ela. LukeGirl apareceu ao seu lado do lado, puxando-o para uma sala que havia ali perto. Por que ela tinha que ser tão fraca? No entanto, nunca ficaria em paz se não fizesse nada. - O que você está… - Droga, Ashton! Eu prometi a mim mesma que não faria isso, mas você está tão mal e ela quer tanto falar com você… - Ela quem? Belikov, você pirou? - Sua feição estava preocupada. – Ninguém estava muito bem desde que tudo havia acontecido. Luke tinha tido alguns surtos, assim como todos próximos a garota falecida. Ashton… Diferente da maioria, não tinha quebrado nada. Não tinha gritado com ninguém. Ele apenas tinha se isolado. Tinha se fechado em sua própria bolha, querendo que tudo aquilo fosse um pesadelo. - Não, Irwin, você não entende… Eu recentemente descobri o meu novo poder. Mas, não falei para ninguém. Achei melhor não. Ashton estava confuso. O sofrimento não lhe caía bem. Seus olhos estavam fundos e ele não dormia desde o acontecimento fatal. O garoto não estava com estruturas para receber outra notícia arrebatadora. LukeGirl despejou a notícia mesmo assim, entretanto. - Eu posso falar com os mortos. O garoto esperava tudo, menos aquela notícia. Quer dizer, sabia que LukeGirl nos últimos tempos tinha criado uma amizade especial com sua namorada. As duas por mais que tivessem, no começo, sido rivais, de um tempo para cá haviam deixado toda aquela infantilidade de lado. Consequentemente, Ashton, tinha noção do quanto, também, estava sendo difícil para ela. - LukeGirl, eu acho que você precisa descansar. Não estava sendo um dia fácil. Resolveu nem ler a mente dela, há algum tempo todos os amigos o fizeram prometer que jamais Ashton leria a mente deles sem permissão. O garoto nunca quebrou a promessa. Tinha até sido bom, afinal, às vezes ele se deparou com pensamentos nada… Hm, confortáveis. - Eu posso viajar por dimensões. E descobri uma nova dimensão onde os mortos que ainda não acabaram suas missões na Terra ficam…Eu sei que eu posso parecer doida, mas eu juro, Ash, pela nossa amizade. Juro pela AshGirl. Ao ouvir o nome da garota que amava sendo pronunciado, ele prendeu a respiração. LukeGirl estava falando realmente sério. Sua amiga, na verdade sua melhor amiga, falava com os mortos. E ainda por cima viajava por dimensões. Meu. Deus. Do. Céu. - V-você está querendo dizer que… Oh, não pode ser… - É exatamente isso, Ashton. Eu falo com os mortos. Falei com a AshGirl. E agora ela quer falar com você. Por que sua vida não podia ser normal? Pelo menos uma vez em sua existência… AshGirl estava ali. Ele teria uma chance para dizer adeus. Teria um momento para gravar ainda mais todas as particularidades de seu rosto. A sua voz, os gestos variados que ela fazia a cada momento… Ashton tinha todos aqueles detalhes gravados, mas sabia que em um momento da vida, mesmo não querendo, iria esquecê-los. Era natural. Todavia, existia algo que o garoto jamais esqueceria. Era impossível esquecer, mesmo que quisesse. AshGirl Jones tinha uma lista grande de defeitos, mas com toda certeza seu sorriso não fazia parte dela. - O que eu tenho que fazer? –Perguntou em um sussurro. – - É só me dar a sua mão. Fez exatamente o que sua amiga mandou. Segurou sua mão forte, com medo do que estava por vir. LukeGirl percebeu isso, por conta dessa observação aperto com mais intensidade sua mão na dele. - Está tudo bem, Ashton. Desde quando você tem medo da AshGirl? Era uma boa pergunta. Medo, porém, era a última coisa que ele estava sentindo. Depois de um mero segundo tudo que tinha na sala - não muita coisa - sumiu. E Ashton, agora, estava em um lugar todo branco. Olhou para o lado e LukeGirl sorria para ele, como se quisesse dar forçar. - Eu estarei por aqui invisível para não atrapalhar. Não demore muito, pois a conexão entre os dois mundos não dura muito. É só alguns minutos. Você consegue, Irwin. Eu sei que sim. A amiga soltou sua mão e foi para um canto qualquer, já invisível. Ainda um pouco perdido, o garoto andou por aquele local desconhecido. Parecia que ele estava em outra dimensão. Na verdade, estava. O chão flutuava, por isso ele precisava de muito cuidado ao ver onde pisava. Avistou ao longe uma garota de costas, em um lugar alto. Ela olhava para um clarão que havia ali. Ashton subiu as escadas de mármore, indo em direção a ela com o coração batendo rápido. Era ela mesmo. AshGirl Jones estava de costas, parada. E como se soubesse exatamente que ele estava ali, ela virou para Ashton com um sorriso doce, que poucos tinham o privilégio de conhecer. - Você demorou. Aquela voz tão familiar… Sentiu um aperto desconfortável na garganta. - AshGirl… -Sussurrou baixinho, com os olhos cheios de lágrimas. - Nossa, ela estava ali mesmo. Ele não podia acreditar! AshGirl estava na sua frente, sorrindo. A menina usava um vestido branco esvoaçante e seu cabelo estava preso apenas por duas mechas. Ele nunca tinha a visto tão bonita antes. - Meu amor… Correndo, sem se importar com as consequências, a abraçou com força. Se dependesse dele, jamais a soltaria. Ela estava no lugar certo. Nos braços dele. Ambos sentiram uma sensação única, parecida com a de uma pessoa que procura a vida toda por algo e a finalmente encontra. AshGirl passou as mãos lentamente pelo cabelo de seu namorado, fazendo carinho. - Eu estou aqui, Ash. Estou aqui com você. - Por que você teve que ir? Por que teve que me deixar? Sua voz não passava de um sussurro, mas dava para notar o desespero que continha ali. Com mais força, apertou-a contra si. Tinha medo que, de alguma forma, ela fosse embora para sempre. Que, de repente, desaparecesse. - Está tudo bem, querido. Vai ficar tudo bem. - Por que todos me falam isso? Não vai ficar nada bem. Não sem você. AshGirl fez menção de soltá-lo para poder olhar melhor para ele, mas o garoto a impediu. - Não, por favor… - Ash… - Eu ainda não estou pronto para te soltar. Não estou pronto para deixá-la ir. Era estranho, o garoto pensava há alguns meses que ter poderes era a pior coisa que podia ter acontecido com ele. A vida, sempre amistosa, fez questão de provar a ele que existia coisas piores que aquela sim. Como, por exemplo, perder a pessoa que você mais ama no mundo inteiro. - É tudo minha culpa. Você está morta por minha culpa. AshGirl encostou seu rosto na curva do pescoço do garoto, aproveitando os últimos minutos que restavam com ele. - Não seja tolo, Ashton. Eu é que escolhi te salvar. Você não me obrigou a nada. Só de lembrar da cena, sentia um calafrio daqueles. Lembrava de na batalha final, quando todos pensaram ter ganhado, Monish de repente se erguer junto com sua querida espada para o último golpe. E era Ashton que seria atingido se sua namorada não tivesse se jogado na frente dele. AshGirl tinha a consciência de que Ashton estava sofrendo. Ela também estava. Quando tinha morrido, ficou em uma dimensão estranha. E agora ela tinha descoberto o porquê. Precisava se despedir para que partisse em paz. A garota sabia que tinha uma personalidade difícil. Falava o que pensava, sem se importar com os sentimentos dos outros. Adorava arrumar uma boa briga. Não costumava dar segunda chances e odiava quando algo não acontecia conforme o jeito dela. E mesmo assim, com tantos defeitos, Ashton a amava. E a garota, por mais que tentasse, jamais poderia explicar o quanto aquilo significava para ela. - Obrigada por me amar. -Sussurrou baixinho. - Com um sorriso trêmulo, ele a encarou. - E como eu não amaria? Ainda sorrindo, delicadamente, encostou seus lábios nos dela. Era um momento difícil. Ambos sabiam que aquele era o fim definitivo. Não era como se existisse esperança. Era o que mais doía, de fato. Foi um beijo cheio de saudade, com aquele gosto amargo da despedida. No caso, para sempre. - O tempo está acabando… -Ela sussurrou, ao poucos ver que estava ficando transparente. - - Não, não… -Falou desesperado ao ver que era verdade. - - Ash… - Droga, não, por favor não vá… - Ashton… Ela segurou com as duas mãos o rosto do namorado, fazendo-o encará-la nos olhos. Diferente do esperado, ela estava calma. Triste, mas calma. Conformada, acho que a palavra se encaixa melhor. - Você vai ficar bem, Ashton Irwin. Eu sei que vai. Será feliz, mesmo que agora seja difícil imaginar isso… -Ela parou um instante, tentando controlar as lágrimas. - Por Deus, você está me fazendo chorar. Eu quero te socar por isso. O nosso tempo está acabando, meu amor. E eu quero que saiba que por mais que ele não tenha durado muito, foi o melhor de toda a minha vida. Você me fez acreditar de novo. Me fez sentir viva. Você me amou, mesmo tendo pequenos motivos para isso… -Ela sorriu de lado. - E eu serei eternamente grata por tudo, Ash. - Não fale essas coisas, parece que… - É uma despedida? Eu sei que é difícil encarar, mas é isso que estamos fazendo agora. Estamos nos despedindo. - Para sempre? - Não. -Ela riu um pouco. - Pode demorar um pouco, mas nós vamos nos reencontrar novamente. E eu ainda continuarei te amando. - É, Jones, parece que não somos tão diferentes assim então, no final das contas. Por que pode passar dias, meses, anos e até mesmo vidas… E mesmo assim eu continuarei te amando. - Céus, a cada dia que passa você fica mais gay… -Ela rolou os olhos, ignorando algumas lágrimas que caíam. - Ele riu um pouco, mas parou quando viu que AshGirl estava sumindo diante de sua visão. Engoliu em seco, não gostando do rumo que aquilo estava tomando. - Está na hora, meu amor. É só me soltar. - Eu não consigo, eu não posso… - Vamos lá, Ash. -Ela disse, pacientemente. - É só soltar. - Eu não posso, porque… Fechou os olhos com força, tentando fazer a dor parar. Sua voz estava falhando ligeiramente. Era difícil até pronunciar uma simples palavra. - Eu não posso te soltar. Por que a verdade é que… Eu não quero viver em um mundo sem você. - Eu sei. -Ela sussurrou, comovida. - Eu também não gostaria de viver em um mundo sem você. Ashton, sem perder mais tempo, a abraçou pela última vez. - Esses foram os melhores meses da minha vida. - Engraçado, Irwin, os meus também. Agora ela sumia por inteiro. Mesmo que seus olhos estivessem marejados, seu sorriso continuava ali. E essa foi a última coisa Ashton viu. Aquele sorriso arrebatador, que o conquistou por inteiro. Não quis dizer adeus, pois assim como ela, sabia que não era uma despedida. Era um até logo. AshGirl desapareceu por inteiro. Entretanto, mesmo que ela tivesse sumido de sua frente, Ashton conseguia senti-la ainda em seu coração. +++ Com um susto, abriu os olhos. Seu coração batia violentamente e ele suava frio. Sua garganta estava seca e o garoto sentia uma pontada forte na cabeça. Quando abriu os olhos, Michael o encarava com uma sobrancelha erguida. Sem dizer nada, jogou uma garrafa de água para ele. - De todas as ilusões, essa foi a que você mais demorou para conseguir sair… Ashton não conseguia dizer nada. Estava confuso, mas aliviado ao mesmo tempo. Seu corpo tremia todo ainda de nervoso. - Ótimo. - Michael falou, o avaliando com um pequeno sorriso. - Parece que você tem mais um novo medo para a sua lista…