PRAGANÇA: - Memórias de Duas Habitantes.
Em trabalhos anteriores debruçamo-nos, essencialmente, sobre as festividades de Pragança, no Montejunto.
Temos ainda em nossa posse excertos de entrevistas que fomos fazendo, ao longo dos anos, a duas habitantes da aldeia, já falecidas, e que, dotadas de excelentes memórias, nos transmitiram partes das suas vivências. Foram elas: - D. Sofia Pintéus e D. Maria esposa, que foi, do ti Chico Garcia.
Assim, abaixo publicamos excertos daquilo que temos em arquivo, bem como diversas fotografias da aldeia e do vivenciar das suas laboriosas gentes.
2.Excertos das Entrevistas.
Já em tempos demos a conhecer, na Voz de Cambra nº 603 de 1 de Julho de 1996, excertos da entrevista que lhe fizemos em 1991, ano em que tinha comemorado, a 20 de Março, o seu 100º aniversário e que aqui resumimos:
. Teve 5 filhos: - 4 rapazes e 1 rapariga, 8 netos e alguns bisnetos.
. Os seus irmãos, que nasceram com a diferença de 2 anos uns dos outros, eram nove. Comiam sempre uma sardinha para dois.
. Vestia-se, penteava e lavava todos os dias.
. Apanhou muitos cestos de cerejas. Não havia quem fosse mais desembaraçada do que ela.
. Dantes, o sapateiro vinha a casa. Aconteceu estar lá e ela ter tido um dos filhos nesse dia. Não tinha outra companhia, nessa altura.
. Casou com 24 anos. O noivo tinha 27. Era 20 e tal de Setembro. O marido quando morreu ia fazer 80 anos. Faleceu a 6 de Agosto e ia fazer os 80 a 3 de Setembro.
. Disse-nos que lhe tinha nascido um dente aos 70 anos, mas que se gastou porque comia as maçãs com ele. Durou 15 anos. Teve muitas dores para ele nascer, contou-nos.
. O irmão mais velho casou em Cabanas de Torres. Era moleiro e tinha mais freguesia do que os outros, por isso foi morto, junto a uma ribeira lá para os lados da Ota. Foi alguém que assistiu ao crime é que deu o alerta. Isto aconteceu, deve haver aí uns 68 anos, ou seja cerca de 1913.
. Deu-nos o seguinte conselho:
“Se o trabalho matasse, eu nunca teria chegado aos cem anos, pois passei uma vida de privações, quando era nova e para criar os meus filhos”.
. Ensinou-nos a seguinte oração:
“Bendito é, e louvado seja o nosso Jesus, e a sagrada Assunção. Levai meu Jesus a minha alma convosco e a glória do meu coração”.
Também a D. Maria, sua vizinha, contou-nos que:
“Certo dia ela foi ao dentista, que lhe extraiu, em primeiro lugar, o dente que estava bom, em vez do que tinha a cárie. Resultado, a D. Sofia Pintéus regressou a casa com menos dois”.
- Entrevista à D. Maria, esposa do ti Chico Garcia, ano de 1995.
Por razões de parentesco, fomos visita regular em casa da D. Maria e do ti Chico e da sua descendência, já várias vezes referidos. Dotada de excelente memória e sabedora do nosso interesse pelas tradições dos habitantes da aldeia, findas as lides caseiras, tinha sempre algo para nos contar.
Assim, abaixo transcrevemos o que temos anotado no nosso caderno de apontamentos, sobretudo as récitas e cânticos da povoação, aquando da sua mocidade e vida de adulta.
Admitindo que as récitas possam estar incompletas, pois tudo foi ditado sem qualquer apoio escrito, disse-nos:
. Versos a Nossa Senhora e ao Santo António.
E as meias são pr’a Jesus.
Ó Santo António, Santo António,
Meu santinho quebra bilhas.
Estas tuas queridas filhas.
Tocai guitarras, harmónios,
Santo António, por ser santo,
Também teve os seus amores.
Quando os santos namoricam,
Que os meus olhos ta darão.
Disposição: - Rapazes de um lado e raparigas do outro pegando nas respetivas mãos*. Sem música. A dada altura, rodopiavam e ficavam de costas uns para os outros.
Se você diz que rola ó pombo,
Rola por essa casa abaixo.
. Récita: - O Milagre de Santo António.
Nota: - A D. Maria descreveu tudo, o que se segue, baseada na sua memória. Não tinha qualquer apontamento junto dela.
Entravam: - Padre e Rosinha;
. Santo António e Rosinha.
Ó Santo António, ouve lá esta,
Que é tão rija e valente.
Mais um noivo bem decente.
Ó Santo António, Santo António,
Meu santinho quebra bilhas.
Estas tuas queridas filhas.
Tocai guitarras, harmónios,
Pois o nosso Santo António,
. Padre: - Viva lá sua Rosinha.
. Rosinha: - Adeus, Sr Prior.
. Padre: - Vais encher a tua bilhazinha, de noite, só, sem temor?
. Rosinha: - Minha avó, ceguinha,
. Padre: - É bem triste o seu fadário,
Nas contas do seu rosário,
. Rosinha: - A Deus e à Virgem Maria não se farta de rezar.
. Padre: - É digna de se louvar.
. Rosinha: - Agora, sr Prior, seus olhos já não vertem pranto.
. Padre. – Podes crer, remédio santo.
. Rosinha: - Adeus, sr Prior.
. Padre: - Adeus querida Rosinha.
. Rosinha: - Salve-o Deus, sr Prior.
ENTRETANTO, ROSINHA CANTA NA FONTE.
Enquanto dançam ligeiras,
Entre canções bem fagueiras,
Eu encho a bilha na fonte.
. Stº António: - Folgo em ver-te lindo anjinho!
. Rosinha: - Tais palavras não mereço,
- Quem sois vós, anjo ou demónio?
. Stº António: - Não temas, pois tens aqui o Stº António.
. Rosinha: - Será possível, meu Deus!
. Stº António: - Não descreias, minha filha.
Nota: - Entretanto, Rosinha, quis certificar-se que ele era o Santo e pediu-lhe que lhe partisse a bilha.
. Rosinha: - Para matar receios meus, quebra e cura a minha bilha.
. Stº António: - Quebra a bilha.
. Stº António: - Conserta a bilha, mostrando-a inteira, diz:
“Satisfiz a tua vontade. Eis a bilha, enxuga o pranto”.
. Rosinha: - Sim, acredito, é verdade! És António um grande santo.
. Stº António: - Adeus, vou pr’ó céu.
. Rosinha: - Eu não posso desistir, acredita, santo meu.
. Stº António: - O que que queres tu pedir?
. Rosinha: - Stº António, por Jesus,
Nota: - Neste momento Stº António sai de cena e entra a avó.
. Avó: - Os teus rogos, meu amor, escutou-os o bom senhor.
. Rosinha: - Querida avó do coração.
. Avó: - Eu não sei o que hei de dizer, momentos que Deus consagra, estes em que te volto a ver.
. Rosinha, de joelhos: - Querida avó do coração,
Ao bom Deus Nosso Senhor,
. Avó, de joelhos: - Oremos, minha netinha, àquele que está na cruz.
. Rosinha: - Demos graças, avozinha,
Em preces muito sentidas,
Mocidade andai pr’a frente,
Nota Geral: - Está conforme os nossos apontamentos. Como a informante, entretanto, faleceu, não foi possível corrigir eventuais desvios ao relatado.
3 – Pragança nas lembranças da D. Maria.
. O ti António na Abrigada.
O ti António, peixeiro de Pragança, ia a Peniche comprar o pescado, fazendo a venda do mesmo nas aldeias do Montejunto, inclusive do outro lado da serra, na Abrigada. Devido ao mau estado dos caminhos, o burro, por vezes, desequilibrava-se e caía nos buracos, estragando-lhe as sardinhas.
Depois de passar a Abrigada, atingindo um ponto alto, antes das Estribeiras – localidade ali perto – o burro começava a zurrar, avisando da chegada do comerciante. Não era preciso mais publicidade. Logo, as habitantes passavam palavra umas às outras: - “Aí vem o burro do ti António, vamos às sardinhas”. E lá, o ti António, fazia boa venda e o burro tinha ração reforçada, consta.
. O ti António no Bombarral.
Certo dia, vindo com uma carroça carregada de mercadoria, ao atravessar o Bombarral, o ti António verifica que tinham deitado a igreja abaixo e que os “santinhos” estavam espalhados no meio da estrada.
Acontece que os populares, que lá estavam, incentivaram-no a que passasse com a carripana por cima das imagens sagradas, ao que ele respondeu: - “Não passo com a carroça por cima de santos, nem que me matem”.
Dito isto, retrocedeu e foi por outro caminho, embora mais longo, até que atingiu Pragança e deixou para a posteridade esta “estória”.
Nota: - É provável que este acontecimento se tenha verificado aquando da implantação da República. Então, a igreja foi incendiada e teve de ser demolida. Ver a Guerra Religiosa na I República. Consta o Bombarral.
O pai da D. Maria, embora sendo analfabeto, tinha um comércio, dito venda, em que, seguindo o hábito da época, vendia “fiado”, isto é, a crédito.
Como tinha uma excelente memória, logo que a mulher chegava dos seus afazeres dava-lhe conta do ocorrido e ela procedia ao seu registo em livro apropriado, já que escrevinhava o suficiente.
Nota: - A D. Maria e o marido, o ti Chico, também tinham taberna/comércio. Provavelmente seria a mesma, facto que, lamentavelmente, não averiguamos.
4. Memórias do ti Carlos, mais conhecido pelas alcunhas de Teco ou Sr Dr.
Embora natural de Cabanas de Torres, viveu muitos anos em Pragança; tendo tido casa de comércio, junto ao quartel. Era visita habitual e companheiro do ti Chico Garcia, com quem conversávamos habitualmente.
Em 1991, com a idade de 64 anos, foi nosso cicerone à deslocação que fizemos aos poços e tabuleiros da neve, lá em cima na serra, e que descrevemos em trabalho publicado na Voz de Cambra nº 601 de 1 de Junho de 1996 e sgts.
Dos diálogos tidos com ele, anotamos o seguinte:
. Nos primeiros anos de comerciante vinha a Lisboa vender “fetos reais”. A mistura destes, com folha de nogueira fervida dá uma infusão que serve de champô para a caspa.
. A estrada para Pragança tinha sido aberta há 62 anos, portanto em 1929. Foi no ano que nasceu o irmão mais novo. Tinha ele 2 anos.
. Quando havia neve tocavam a corneta e os de Pragança vinham ajudar. Tinha nevado em 1945. Há 46 anos, disse.
. O transporte para Lisboa era feito até Vila Franca com muares e depois por comboio.
. Nas festas havia lutas com os rapazes da povoação do Vilar. Estes “pensavam que eram os donos da freguesia”, disse-nos.
5. Pragança Bonita. Moda Cantada.
És tu quem não tem rival.
Que se estende até ao mar.
Que pr’a todos sabe rir e bailar.
Lá respiras ar puro e leve.
E não te esqueças de ir ver,
Se subires mais um bocado,
Estás no alto do S. João.
E ao lado Nossa Senhora a quem,
6. Versos das Modas do Rancho Infantil. Ano de 1980.
Temos na nossa posse um caderno datilografado, com as modas cantadas e dançadas pelo Rancho Infantil de Pragança. Pensamos que haja por lá, sobretudo na sede da Banda Filarmónica, outras cópias.
Este grupo etnográfico estava em atividade na década de oitenta do século XX. Era seu grande entusiasta, entre ouros, o ti Cipriano Nunes, genro da D. Maria e nosso estimado familiar. Já não está entre nós.
Dado ser extenso, deixamos aqui somente os títulos das modas e uma ou outra quadra.
. Padeirinha, Eu Fui ao Mar à Laranja, Água Leva o Regadinho, Vira de Quatro;
Coradinha, Passarinho da Ribeira e Ladrão;
“Que vira tão lindo/ Pr’a gente dançar/
Ao som deste vira/ Eu sei namorar”.
“Tu dizes que não me queres/ Ai amor tens muita razão.
Como é que tu hás de querer/ Ai aquilo que não te dão”.
. Chapéu Preto, Rebola a Bola, Fandanguinho, Vira Novo e Verde Gaio.
Eu parado é que não fico”.
* Também nós, em jovem, costumávamos brincar com as moças pegando-lhes nas mãos, balançando os braços, cantando:
“Assim se amassa, assim se peneira.
Assim se amassa o pão da masseira”.
Dito isto, virávamo-nos de costas, retomando de seguida o mesmo ritual. Ainda, hoje, praticamos com as nossas netas, mais pequenas, esta brincadeira, que adoram. Temos, contudo, de dar uma volta à casa com elas deitadas nas nossas costas. - E esta?
O saudoso ti Chico, à esquerda.
O ti Chico atrás de boné. Foto cedida pela família.
Por volta de 1980 encontrava-se em plena atividade. Era local de muito convívio e vizinhança. Falta a frondosa parreira de saborosas uvas americanas.
Nesta casa ou noutra idêntica, teve Junot o seu quartel, aquando das invasões francesas.