Se Eu Fosse um Robô
Se eu fosse um robô,
não sentiria dor no peito,
nem a falta dela,
nem o peso de ser sempre o errado.
Se eu fosse um robô,
não choraria no travesseiro,
não tremeria diante do vazio,
não sentiria a lâmina do tempo
me lembrando que tudo apodrece.
Mas...
se eu fosse um robô,
também não sonharia com ela
deitada no meu colo,
nem com o impossível tão real
que me fez acreditar por uma noite.
Se eu fosse um robô,
não teria o zumbido no ouvido,
mas também não teria música.
Não teria Raul,
não teria Pessoa,
não teria Schopenhauer
gritando dentro de mim.
Seria só silêncio.
Silêncio de metal,
sem amor,
sem dor,
sem nada.
E aí eu percebo:
o que me mata não é o sentir,
é não poder desligar o sentir
quando tudo pesa demais.
Se eu fosse um robô,
não sentiria nem paz,
nem a dor,
mas saberia que,
apenas com um botão apertado,
eu viraria sucata
e não seria mais nem um robô.












