— ✧ give me alcohol and a friendship; chaneun.
A caixinha de suco de uva em sua mão contrastava de todos os jeitos possíveis com o terno feito sob medida para si, casando com os traços jovens do engenheiro e atraindo alguns olhares estranhos em sua direção. Não queria acreditar que estava perdido, mas era exatamente o que acontecia naquele momento - inventara de explorar a cidade a pé depois do dia cansativo no escritório, esquecendo seu celular em cima da sua mesa e nem se preocupando e voltar para buscá-lo, achando que ia apenas dar algumas voltas no quarteirão, mas sua mente cheia de coisas o levara ali, onde nunca tinha pisado nos poucos meses que residia na pequena cidade. Era mesmo um terrível azarado.
A fome fazia seu estômago se contorcer, causando alguns barulhos que seriam engraçados se o norueguês não estivesse tão transtornado. No que sua vida tinha se tornado, deuses? Nem ele conseguia acreditar no ano que tivera - ser traído e explorado por uma pessoa que acreditava ser sua parceira, ter que mudar de cidade (novamente) e de vida, perder Dawon… nossa, aquela era sem sombra de duvidas a parte que mais doía em si. Não importa o quanto tentasse, não conseguia parar de sentir a constante sensação de que estava sendo sufocado por seus próprios sentimentos e frustrações, e seu apartamento vazio e silencioso só servia para aumentar o volume de seus pensamentos, que praticamente gritavam em sua mente.
Outro barulho saiu de sua barriga, e ele enfim entendeu que se não parasse pra comer algo - sólido dessa vez, diferente do suquinho em sua mão -, provavelmente desmaiaria. Já começava a escurecer, fazendo-o perceber que a última vez que comera fora de manhã - ah, irresponsabilidades, nem parecia que praticamente comandava uma filial da empresa de seu avô. Riu do próprio descuido, avistando um restaurante pequeno e muito simpático de comida caseira… bem, pelo menos não iria desmaiar no meio da rua.
Abaixou para falar com o cachorrinho que estava deitado ao lado da porta, quase derretendo por dentro quando este deitou-se de barriguinha pra cima, como se pedisse por mais carinho. Nota mental: lembrar de brincar com ele quando estivesse saindo dali. Com um ronco mais alto de sua barriga, levou o canudo do suco até os lábios, sugando o líquido no objetivo de acalmar seu estômago revolto enquanto levantava - calculando de maneira errada seus movimentos e acabando por enfiar o plastico do canudo em sua própria gengiva. Sinceramente, teria que aproveitar que estava numa cidade litorânea para tomar um banho de mar, quem sabe assim todo aquele quebranto e azar sairiam de si.
Entrou no restaurante ostentando uma careta de dor, notando que poucas mesas estavam ocupadas - agradeceu mentalmente por ser muito cedo para a hora do jantar, assim quase ninguém veria o completo tolo que conseguia ser sempre que tinha que interagir com qualquer pessoa. Foi atraído pela mesinha perto da janela, jogando-se na cadeira com um suspiro triste assim que chegou próximo o suficiente dela.
Quando imaginou-se com quase vinte e cinco anos, não era assim que queria estar.
Agarrou o nó da gravata, puxando-o com certo abuso, já não ligando mais para as roupas caras completamente amarrotadas - não que ligasse para aquilo antes, mas como a boa controladora que sua mãe era, fazia questão de mandá-lo os “melhores ternos” (que se pareciam com qualquer outro terno, Chansung responderia se o perguntassem) para que ele causasse uma “boa impressão”. O Ki se perguntava a quem tinha que impressionar.
Perdido em suas próprias frustrações enquanto encarava a caixinha do suco, não perceber quando a moça simpática aproximou-se de si, tomando um leve susto (muito bem contido, ele acreditava ter sido) quando ela perguntou se poderia ajudá-lo. Tentou corresponder o sorriso brilhante dado por ela, mas como em uma espécie de greve, os músculos de seu rosto se contorceram num meio sorriso, triste e estranho. Nem seus músculos gostavam de si, aparentemente.
“ — Olá, boa noite...?” O interrogativo tomou sua voz enquanto olhava para o relógio, checando a hora e vendo que, sim, já era noite… por quanto tempo tinha andado até ali? Não fazia ideia... Notou que agora fazia uma cara confusa para o nada, logo tratando de voltar sua atenção para a moça que ainda estava parada ao seu lado, procurando em sua blusa por um crachá de identificação. “ — Naeun, olá! Vocês tem bulgogi bibimbap?” O tom formal e com sotaque soou na voz melodiosa e forte do homem, que parecia cômico por ainda segurar a caixinha infantil do suco de uva.
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