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Chapter 1
Suzana
O outono sempre fora sua estação preferida. Dava à tudo uma cor mais quente e melancolica. O dia estava suficientemente frio e as arvores perdiam suas folhas. De sua janela podia ver o cenário a ficar alaranjado, as pessoas começando a tirar os agasalhos da gaveta, e a construção do outro lado da rua. A maldita construção que a acordava as oito da manhã mesmo nos fins de semana, com barulhos torturantes e incessantes de furadeiras e marteladas. Observou um operário de capacete e colete laranja que a encarava. Ele parou o trabalho por um momento sorrindo, assobiou e mandou um beijo. Logo os outros também se viraram e passaram a gritar bobagens. Ela rolou os olhos e abriu a janela, estendeu a mão com o dedo do meio levantado e eles pareceram menos encorajados.
Se virou para a cama quando ouviu o onde o celular vibrou até cair no chão. Suzana fechou a janela.
- Maldição.
Depois de catar as peças e rocolocar cada uma em seu devido lugar, esperou até que o celular ligasse. Na tela principal apontava uma nova mensagem. Era de um contato denominado "mala"
“Tem 1 min p descer antes q eu va sozinho.”
Ela suspirou e respondeu rapidamente.
“VTNC!! caralho” “E espera”
Voltou pra frente do espelho e suspirou mais uma vez. Desde que podia se lembrar, odiava sua aparência. A tinta a essa altura já havia saído completamente e seu cabelo voltava a ser ruivo. As sardas a fazia sentir-se suja e os olhos eram grandes demais. Verdes carentes de melanina - como ela chamava - os olhos a irritavam desde que fora obrigada a usar óculos com seis ou sete anos. Objeto que havia se livrado totalmente na adolescência trocando por lentes, que dificilmente utilizava.
Terminou de passar delineador e colocou uma jaqueta de couro. Era sua jaqueta favorita, e uma das poucas que tinha bolsos grandes o suficiente para guardar o maço de cigarros, o celular, as chaves e o dinheiro - que havia pegado da bolsa da sua irmã no começo do dia.
Desceu vagarosamente as escadas, tomando cuidado para não fazer barulho com as botas. Não sabia se tinha alguém na casa, mas já estava habituada a sair o mais discretamente possível, quase sem emitir nenhum ruído. Passou pela porta dos fundos e sentiu o ar frio. Caio a esperava em pé ao lado da moto a observando com cara de impaciente. Ela sorriu, o alcançou, deu um beijo no seu pescoço e sussurrou em um tom digno de Marylin:
- Não está bravo comigo, não é?
Ele bufou e ficou em silêncio por um segundo observando o sorriso inocente que ela dava. Depois suspirou e deu de ombros:
- Se eu pudesse, Suzana... Sobe logo.
Após os dois subirem na moto Caio saiu cantando pneu. Ela encaixou o salto da bota no pedal e colocou as mãos no bolso da jaqueta. No final da rua passaram por um pequeno Uno vermelho. A porta se abriu no momento em que passaram e ela pôde ver uma amiga da sua irmã saindo do banco de motorista. A mulher a observou por poucos segundos até que sumissem de vista.
Se focou em relaxar os músculos e pensou em todos os problemas que a aborreciam. Sentiu a frustração tomando conta de cada parte de seu corpo, como se os membros ficassem mais pesados. Então, colocou os braços ao redor de Caio, ele sabia o que significava. Acelerou.
Estavam na rodovia e o velocímetro não parava de aumentar. 80…100…120… O cabelo dela voava e o vento batia quase com força o suficiente pra jogá-la pra trás, mesmo escondida pelo corpo dele. Os carros passavam zunindo. Caio sempre deixava pra desviar no último momento. O mundo todo começava a se transformar em borrões e zunidos. Fizeram uma curva fechada quase raspando o joelho no chão,quase bateram em um onibus ao fazer uma ultrapassagem e por pouco não acertaram em cheio um carro estacionado que abriu a porta subitamente. Sentia a adrenalina formigando por todo o corpo e o coração descompassado no pescoço e explodindo no peito. Suzana gargalhava.
- Você é louca! - Caio gritou a plenos pulmões por cima dos zumbidos da corrida.
- Quem não é louco é maçante!
Em determinado momento passaram por uma rua reta e quase vazia. Suzana se preparou e soltou os braços de Caio. Imediatamente seu corpo foi lançado pra trás e suas pernas eram tudo o que a segurava, os músculos cada vez mais retesados e o salto da bota a prendendo. Gargalhou, fechou os olhos e abriu os braços. Sentia pequenas gotas de água acertando seu rosto como agulhas. Os olhos lacrimejavam e o rosto estava tão frio que parecia a ponto de congelar. Por um segundo passou por sua cabeça que deveria usar capacete, mas logo o pensamento foi tomadopela sensação de adrenalina que a fazia gargalhar enquanto seu estômago parecida dar piruetas.
Caio soltou a mão direita do guidão e agarrou sua jaqueta em um movimento rápido. Então tomado pela raiva e pelo medo, nunca fora alguém que pudessem chamar de corajoso, gritou:
- Segura..! Segura porra! Suzana..! Segura agora... ou eu paro essa merda!
Suzana gargalhou mais uma vez. Ele estaria tremendo de medo se pudesse. Depois ela suspirou aproveitando a sensação por um último momento e voltou a se segurar.
Correram por mais um tempo antes de finalmente chegarem a festa. A rua estava sobrecarregada de carros e motos estacionados. Era possivel ouvir o som alto a quase duas quadras de distancia e na entrada havia um bom número de corpos inconscientes. Pararam na esquina e caminharam até o local.
Suzana suspirou. Não conhecia ninguém e nem queria, pra falar a verdade. Nunca se esforçara pra ser social, muito menos em festas. Mas por algum motivo sempre a convidavam e insistiam para que ela aparecesse.
O bairro era rico e a casa era uma das maiores da redondeza. Não se encaixava com os jovens bêbados e o caos que causavam.
- De quem é?
Caio deu de ombros.
- Me disseram que era de alguém que o João conhecia... Primo daquele cara loiro da festa do...
- Já entendi. - Suzana o interrompeu - Me surpreendi que você conhecesse alguém que não fosse bandido pé de chinelo.
Caio apertou o maxilar e fechou a cara. Ficava irritado com facilidade e Suzana se divertia com isso.
- Os pés de chinelo são melhores do que filhinhos de papai metido a gente como você!
Suzana riu e assentiu, o que o deixou ainda mais irritado. O deixou falando sozinho e entrou na casa. Atravessou um orla de adolescentes em busca da cozinha, que tinha algumas pessoas se servindo e um ou dois casais se beijando. Foi até a geladeira. Tinha bebida suficiente para uma semana, mesmo com tantos "convidados". Ela sorriu encantada analisando os rótulos.
- Suzana...
Ela terminou de encher seu copo com tequila, ainda sorrindo e caminhou pela casa. Caio a seguiu de perto ainda tentando uma comunicação.
- Cadê? Disse que trazeria.
Ela observou curiosamente o resto da casa. Não se preocupou em contar, mas deveriam ter mais de três banheiros, quatro quartos e mais salas do que pessoas realmente precisam. Muito mais gente do que ela conseguia suportar, também. Continuou caminhando e bebendo. Em uma das salas tinha um mini bar. Encheu novamente seu copo, com whiskey desta vez. Depois de minutos que pareceram eternidades para Caio, ela respondeu.
- Traria.
- O quê?!
Passavam por mais uma sala.
- Você disse “trazeria”, o certo é traria.
- Você é o quê? A merda de uma professora de português?
Ela deu de ombros. Ele insistiu.
- Então, você trouxe? - Sua voz já estava muito mais alta que o necessário, gritava, - Qual é a merda do seu problema em me responder? Te diverte me deixar puto?!
- Bastante.
Ele pareceu prestes a pular nela, mas se segurou. Respirou fundo e apertou o maxilar. Então ela respondeu.
- Eu trouxe.
- Ótimo. Me dá.
Suzana riu.
- Palavra mágica…
Ele colocou a mão dentro do bolso e tirou o dinheiro enrolado.
- Toma. Tá certinho.
Ela pegou o dinheiro, contou, então colocou a mão no bolso da jaqueta e tirou o saquinho transparente com um pó branco.
Ele sorriu e toda a raiva parecia ter acabado. Tomou da mão dela, se virou e saiu sem dizer nada. Ele sumiu imediatamente no meio de um grupo de rapazes. Suzana suspirou e tomou um longo gole do seu copo que ficou vazio novamente. Estava sem carona pra casa.
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