Cansada de ter sonhado com cenas horríveis na noite anterior, Claphira não conseguiu dormir direito e acordou mais cedo do que pretendia. Claphira carregava consigo o peso da hibernação dos dragões, sendo uma dorminhoca de mão cheia. Seu corpo respondia mal àquela noite mal dormida, e até que o sol nascesse, a dragão organizou algumas coisas em sua casa, sentindo um calor um pouco mais forte que o normal no vulcão, deixando então toda suas janelas e portas abertas. Ligou uma música bem alta e aproveitou para limpar alguns espaços que faltavam na semana. Ela não conseguia escrever em espaços muito desorganizados, precisando sempre tentar manter tudo em ordem. Enquanto reclamava de algumas manchas no chão, observou algumas de suas louças voando sozinhas. Pronta para golpear o fantasma que tentava lhe confundir, ouviu o despertador tocar marcando 8h30 da manhã. Colocou uma roupa rapidamente, deixando os seus cabelos soltos e usando pouca maquiagem antes de sair de casa. Claphira se transformou em dragão, sentindo uma leve fraqueza no momento da transformação, mas talvez fosse apenas a falta de alimento. Voou até o centro do Leste, notando que alguns amigos seus voavam incansavelmente em círculos. Claphira até mesmo gritou em dragonish um "Oi!" para Worshin, mas ele não parecia prestar atenção. A mulher continuou seu caminho, pousando em uma rua um pouco mais afastada do centro. Sua intenção era comprar algumas canetas e papéis de uma grande papelaria ali perto. De longe acompanhava algumas duplicatas andando em direções opostas, piscando várias vezes garantindo não ser sua visão.
Caminhando pela Ala Leste, Claphira observava todas as vitrines cogitando gastar mais dinheiro do que havia planejado. Observava um movimento estranho na avenida principal, não querendo se intrometer pois a possibilidade de algo cair sobre seu colo era grande. Continuou fingindo não notar a movimentação até que ouviu uma sirene tocar. A sirene era algo raro, e normalmente era tocada quando algum evento crítico acontecia. Claphira caminhou até a avenida principal, ouvindo da boca de algumas criaturas de que Wang Young, um Gumiho havia morrido. Clara colocou a mão em sua boca, tampando a expressão assustada enquanto andava para trás. Não entendia a pouca reação de seus conterrâneos, que pareciam não se importar com a notícia. A moça não se moveu até a segunda sirene tocar, trazendo então memórias de seus sonhos. Ou não seriam sonhos? Podia se lembrar, o sonho parecia real, parecia tão concreto. Não podia ser invenção de sua cabeça. Em cima de um prédio, Leeta anunciava uma performance de voo, e a dragão já podia sentir o frio na espinha. Quando a fada caiu novamente, estava prestes a questionar a criatura ao seu lado quando ouviu Eunsang. Aos poucos novas vozes surgiam no meio da multidão, alguns inconformados, outros nem tanto. Eunsang, Eveline, Circe, Samuel, Tabrett, Tabrett... eles pareciam reagir às mortes. A ruiva não sabia o que fazer, e felizmente Soo Hae entrou em sua mente, na verdade, de diversas criaturas. Claphira não negou o encontro no templo budista, foi bem fácil convencer a moça, que somente reclamou quando viu quem estaria ao seu encontro.
———— Eu faço tudo que pedirem para não precisar ver mais gente morrer.———— comentou rapidamente se juntando ao grupo de dragões, ficando mais ao lado de Malya e Astaroth, evitando ficar muito perto de Lucien. Olhou para Astaroth, quando comentou sobre as roupas e modos modernos, pensando um pouco sobre.
———— Aqui acabamos tendo muita referência do que vemos na mídia. De humanos usando, mas acho que você pode ter seu estilo, e talvez comprar peças novas para dar uma misturada.——— explicou, pensando, por exemplo, mas roupas mais clássicas que vampiros usavam, ou no estilo peculiar de alguns elfo e fadas. Era relativo , mas poderia ajudá-lo.
Acompanhou em silêncio a vinda de uma fada, entregando uma estaca para o grupo, com a justificativa de que pareciam os mais centrados. Clara franziu a testa tentando imaginar como uma estaca mataria um
Gumiho, e qual seria o motivo daquela fada ter entregue a eles a arma. Ela parecia estar inerte também como se fosse comandada a fazer aquilo, talvez só estivesse lá perto quando a raposa foi morta. Claphira se perguntava se ela havia visto algo. Foi só a moça aparecer que algumas criaturas se reuniram próximo à ela, para decidir quem ficaria com a arma. Os vampiros se afastaram, enquanto Circe e Astaroth se mostraram interessados. Clara torcia para que o amigo conseguisse a arma, confiava nele e sabia que as preocupações seriam reduzidas. Se Young morreu, qualquer um ali corria perigo.
Distraída pelo conflito, e discussões sobre o que estaria acontecendo, foi surpreendida por Lucien que parou em sua frente, próximo demais para ser considerado seguro. Clara desviou o olhar, comprimindo alguns de seus músculos, enquanto ouvia as provocações do Dragão.
———— Talvez eu deva colocar mais dezessete criaturas na sua frente, então.——— o respondeu, passando os olhos por cada um dos presentes no grupo lentamente. Era um comportamento esperado do seu ex, mas Claphira procurava se manter firme em frente ao rapaz. Ela não conseguia deixar quieto, sua personalidade não deixava. Lucien a conhecia bem, não era ruim, mas a convivência era um fator caótico na relação dos dragões, intensos. Quando se vive por milênios, uma boa comunicação acaba sendo crucial. Claphira entrelaçou seus dedos em seus fios de cabelo, e olhou para o rapaz, na tentativa de mudar o rumo da conversa que a deixava nervosa. Talvez plantar uma pulga na orelha de alguns poderia ser uma alternativa.
———— Quem garante que Leeta e Wang Young não estavam conscientes, como nós, antes de morrerem. E se formos os próximos do dia? Sabe? Dia um, dois. Dia dois, mais dois. Dia três...——— contava nos dedos, tentando encontrar um sentido no que falava. Talvez fosse o sonho de alguém? Aquilo era realmente real? Talvez precisasse de um empurrão para despertar em um susto.
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