[Entrevista] Interseccionalidade - experiências como multigênero e pardo
Entrevista entre o blog e @cepheusgalaxy
A interseccionalidade é o fênomeno em que pessoas de diferentes grupos sociais enfrentam desafios muito especificos por ser parte de ambos os grupos, ao invés de só um. Essas experiências se sobrepõem também nos quesitos de descriminação e opressão da sociedade. Como pessoas trans*, devemos estar abertos a descobrir as interseccionalidades alheias da comunidade.
Trazemos hoje uma entrevista com Angel, uma pessoa dos grupos pardo e multigênero, para responder algumas perguntas sobre sua experiência com ambos.
Multigênero -> Uma categoria de identidades de gênero em que a pessoa se identifica com mais de um gênero
Exorsexismo -> Preconceito contra pessoas não binarias e a normalização da binariedade do gênero como apenas homem e mulher.
Neopronomes , neolinguagem e linguagem neutra -> A criação de pronomes novos na lingua portuguesa, já que não há pronomes tradicionais que falem com um gênero neutro sobre a pessoa. Os mais comuns são elu ou ile, assim como a adição de "e" ao invés de "a" ou "o" quando dando gênero a adjetivos dessa pessoa e afins.
Gostaria de se introduzir?
Meu nome é Angel, moro no interior da Bahia e sou estudante de Ensino Médio. Eu sou cogênero e me considero transmasculino. Meus pronomes são elu e ele e também sou aroacé.
Como você descreveria seu gênero mais detalhadamente? Você se consideraria alguém na categoria multigênero (pessoas com mais de um gênero)?
Eu diria sim que sou multigênero, e antes de achar um termo que me coubesse eu costumava pensar que meu gênero parecia uma sopa. Vários pedacinhos de vários gêneros misturados numa (?) coisa só.
Hoje eu diria que apenas uma parte dele é uma sopa; eu tenho dois gêneros: Uma sopa confusa que eu chamo de 'metade genderqueer', e uma parte meio fluida, mas sempre neutra ou masculina que eu chamo de 'metade genderfaun'.
Como foi sua jornada para se achar cogênero?
Foi bem engraçado, na verdade. Quando comecei a me questionar eu olhava mais em identidades multigenero, e fiquei um tempinho como bigênero até que achei gênero fluído.
Depois disso eu só fiquei meio "eu n sou bem isso, mas talvez um pouquinho disso aqui com isso aqui". Eu tinha meio desistido de achar um termo preciso a essa altura.
Aí certo dia, sabe o blog @aroacesafespaceforall da comunidade aroace? Um novo mod, Ray, tinha chegad, e elu (? Esqueci os pronomes) disse que era cogênero e reblogou um post explicando o termo. Foi tipo quando aquela lâmpada acende em cima da cabeça dos personagens de HQ - eu falei, "é isso!".
Foi bem incrivel achar um termo certo e flexivel como esse depois de ter desistido de procurar a um tempo. Fazia algumas semanas eu vinha usando genderfaun porque explicava mais ou menos metade da minha experiência perfeitamente. Mas eu deixava o resto de lado e dizia "ah eu sou um pouco disso aqui (não-binário)"
De qual modo você acha que seus gêneros se interagem?
Meio que como duas metades. Uma tá sempre lá, mudando e "liderando" talvez? E a outra está do lado, influenciando meu senso de ser e sendo bem obscura.
Oque você acha da interseccionalidade - a sobreposição de diferentes identidades que causa problemas específicos a individuos de ambas?
Eu acho um fator essencial para discussão de opressão e privilégio, o que torna muito frustrante quando muitas pessoas a ignoram. Eu gostaria que ela fosse mais considerada.
Qual a sua relação entre ser pardo e transgeneridade? Acredita que eles se interseccionam frequentemente?
Essa é uma pergunta um pouco difícil de responder, eu acho. Talvez porque eu não conheça muitas pessoas negras trans. Como uma pessoa negra de pele clara, eu sofro menos racismo que meus colegas de pele escura, mas sei que compartilhamos essa característica. Como uma pessoa trans, eu só acho comunidade online e na gringa; como pessoa trans e parda, eu sinto como se nunca houvesse um espaço para ambas as minhas identidades em conjunto.
Como moradore do nordeste do Brasil, acredita que a cultura nordestina teve influência na formação tanto da sua transgêneridade quanto negritude?
Quanto à minha transgeneridade eu não saberia dizer, mas da minha negritude sim. Estando sempre cercado de pessoas pardas e negras, muitas com a pele mais escura que a minha, eu acho que às vezes me sinto menos negro, mesmo que nunca branco.
Já controu, ou planeja contar, sobre ser cogênero para o público? E para família e amigos?
Me assumir é uma missão que ainda estou fora de cumprir. Para mim eu diria que ainda é um projeto de longo prazo. Contei para um dos meus pais que era trans, mas nada sobre a totalidade desse meu gênero.
Você sente que falar da sua identidade vai ser uma tarefa difícil em aceitação e explicações que terá que dar? Por quê?
Eu não consigo estimar como a situação e meus relacionamentos iriam mudar quando me assumir, então acho que por isso estou cauteloso.
Você acredita que não ter uma única identidade de gênero afetou seu tratamento pelo resto comunidade trans e/ou comunidade LGBT?
Às vezes me sinto um pouco ignorado de vários lados diferentes. Há discussões sobre pessoas trans de diferentes tipos e sempre alguém as coloca como inimigas, assim como, às vezes, colocam-se as pessoas queer mais jovens como inimigas do estranho e diferente que sempre esteve aqui.
Essa divisão antagônica sempre me frustra. Se eu sou de ambos os lados da discussão, por que temos que ser inimigos? Não deveríamos ser uma comunidade?
E sobre ser de pele parda, acredita que afetou seu tratamento por essas comunidades?
Não muito, sendo minhas únicas experiências em comunidades online. Mas eu me sinto um pouco alienado [quanto a essas comunidades mesmo sem isso].
Quanto as discussões antagonicas na própria comunidade LGBT, você se preocupa com a direção do discurso dela no momento? Como isso te afeta no seu caso?
Nessa situação específica (da discussão de transandrofobia) eu me sinto realmente frustrado.
Porque o exorsexismo é completamente ignorado da discussão, que seria beneficial à conversa, mas por algum motivo a discussão está centrada em termos extremamente binários de "oprimido - opressor" e "mulher - homem". E ter minhas experiências negadas é extremamente frustrante, no outro lado também.
Realmente, a descriminação com pessoas fora do binário tem sido bem vista ultimamente, principalmente quanto ao uso da linguagem neutra ser tão utilizado como arma.
Muito. Às vezes me irrita como a única vez em que linguagem neutra é usada é como piada ou paródia.
Como pessoa que utiliza também neopronomes, como se sente sobre essa situação? Já teve alguma interação desprazerosa ou descriminatória sobre seus pronomes?
Em inglês já tive algumas experiências bem duvidosas. Como algumas pessoas alegando que transmascs usando "it" era auto depreciação. Também me irrita.
Em português, eu ainda estou no ensido médio, certo? Uma vez perguntei a uma professora de portugues o que ela achava de pronomes neutros. E ela disse que os achava desnecessários pois complicariam a linguagem e pessoas mais velhas teriam dificuldade de entender, ignorando como a língua portuguesa é rica e mutável e outro ano tivemos um novo acordo ortográfico! Ela também tentou dizer que de pronomes neutros nós já tínhamos "isto" "isso" e "aquilo".
Você já retificou ou pensa em retificar documentos? Como você se sente sobre a impossibilidade de botar mais que um gênero, "cogênero" ou outras identificações na sua identidade brasileira?
No meu caso, eu acho que minha metade mais definidora em relação ao meu gênero é a identidade masculina. Eu não acho que me importaria muito, mas me frustra como outros indivíduos não podem se fazer reconhecidos e se sentirem representados como eu.
Qual foi a parte mais difícil da sua transição até agora?
Sem dúvida nenhuma, me assumir! Ainda estou reunindo coragem e fazendo planos, mas tirando isso, com certeza escolher um nome que me represente. O próprio nome "Angel" ainda é uma tentativa e estou tentade a mudá-lo, mesmo que o aprecie muito.
Tem algo que gostaria de dizer para as pessoas de vários gêneros e/ou negras da comunidade?
Talvez que não estamos sozinhes. Mesmo que estejamos cercados de pessoas brancas ou cis ou que não tenhamos uma comunidade muito definida, sempre tem mais de nós. E que eu espero que sempre possamos nos apoiar.
Agradecemos Angel por compartilhar sua experiência de interseccionalidade entre a comunidade trans*, de vários gêneros e parda. É de especial importância falar com alguém como elu, que vive todo dia lutas em mais que uma frente.