Assim diz a lenda, que duas criaturas opostas ganhariam a vida no mesmo dia e hora, um representando a bondade, a luz, o outro a maldade e a escuridão. Deveríamos crescer lado a lado, em segredo para que então, no momento oportuno, nos fosse revelado que teríamos de lutar até que um de nós morresse pelas mãos do outro. Um mito que pregava a restauração do equilíbrio e a quebra do mesmo, seguido do prevalecimento de uma das forças. Premonição que se repetiria a cada ciclo de renovação da terra, que era desconhecida ao seres humanos. Então aconteceu, e parecia que todos sentiam no seu coração o que estava prestes a vir.
Era uma madrugada fria e calma quando decidi conhecer o mundo, mas dentro do casebre caindo aos pedaços em que meus pais viviam estava quente, barulhento. Todo o clã ao qual pertencíamos estava ali, esperando a chegada daquele que traria a ascensão devida aos pobres e injustiçados. Eles andavam por cada canto da casa, preocupados, conversavam entre si, confabulavam, sonhavam em voz alta com dias melhores. Houve apenas um momento de silêncio, em que cada um deles prendeu a respiração ao ouvir meu choro, que soou quase como um grito desesperado por misericórdia. Foi assim que nasci, e não sei como foi com ele, apenas tenho conhecimento de que protestamos juntos, pois eu o ouvi.
Batizaram-no Theo, que significa Deus, durante uma comemoração de seu segundo dia na terra. O puseram em mantas trabalhadas em fio de ouro e o exibiram ao reino, pois era seu príncipe. Um bebê dócil, amável, que sorriu ao ver a multidão, arrebatando o coração dos ali presentes. No mesmo instante, do outro lado da cidade, fazia-se a cerimônia na qual me chamaram Thomas, o gêmeo, prendendo-me a ele em coisas tão simples quanto meu próprio nome. Uma criatura pequena, porém, forte, cheia de raiva, que urinou e beliscou o xamã durante todo o evento.
Apesar de opostos em diversas maneiras, crescemos crianças lindas, ele loiro de olhos claros, com a pele levemente bronzeada tão diferente da minha clara, que contrastava com os compridos cabelos negros como os orbes que decoravam meu rosto. Aos oito anos de idade, levaram-me contra a vontade às portas do castelo e lhes disseram quem eu era, lutei para não ser arrastado para dentro do lugar, mas não era páreo para os guardas da corte. Puseram-me de joelhos em frente a um homem gordo e barbudo ao qual chamavam Rei, palavra que para mim não tinha significado algum. Falaram durante horas sobre coisas que eu não compreendia, mas não me deixaram sair dali, ainda que tentasse me levantar, fugir, depois me jogaram no celeiro e mandaram trabalhar.
Encontrei-o após uma semana inteira sem dormir ou comer direito, fraco, cansado, recusando-me obedecer às ordens dos que me tratavam como escravo e apanhando por isso. Estava caído em meio a minha própria sujeira quando chegaram, soldados cercaram-me por todos os lados, prontos para me abaterem caso atacasse seu querido príncipe, mas não foi isso o que aconteceu. Ele agachou, estendendo-me a mão para que levantasse, sem se importar com o fedor ou a imundice e eu, que nunca havia visto um gesto de carinho durante toda minha existência, não consegui fazer nada se não olhá-lo enquanto tentava entender o que era aquela sensação de calor em meu peito.
Nos afeiçoamos mais rápido do que todos esperavam, tornando-nos grandes amigos. Theo ordenou que eu fosse transferido para seus aposentos e que fosse tratado como um convidado seu, não deixando que apanhasse sob seus olhos atentos. Durante os anos que permaneci em seus cuidados, o garoto ensinou-me coisas que jamais tivera contato antes, como sorrir, abraçar, conversar, imaginar, sonhar e outras menos importantes, como ler, escrever, brincar, mas eu nunca me acostumei. Fora isso, melhorei muito no que já conhecia, como lutar e brigar, mas jamais o fiz com ele, pois era para mim o que havia de mais próximo de uma família.
Eu lembro de uma primavera, em que tínhamos 15 anos. O céu tão azul quanto costumava ser antigamente, com poucas nuvens aqui e ali. O cheiro de umidade da chuva que ainda estava por vir, no fim daquela tarde, complementava a textura da grama na qual eu deitara. O macio colchão verde aninhava-me como uma mãe (a mãe natureza talvez), e fazia cócegas leves no meu dorso nu que secava ao sol depois de um divertido mergulho no lago da propriedade. Gotas de água doce e suor escorriam de minha pele para infiltrar-se na terra fértil gravando, de uma forma biologicamente filosófica, aquele momento na história da vida.
Gargalhava, com a respiração ofegante, deleitando-me na diversão da brincadeira e de sua companhia. Pois, ele estava ali, é claro que estava. Deitado ao meu lado, ele ria também, vez ou outra sentando-se para chacoalhar os cabelos loiros propositalmente em minha direção, molhando-me novamente. Eu o empurrava e caímos nós dois no campo, os corpos juntos, os peitos que guardavam corações acelerados grudados um ao outro, apenas para nos separarmos mais uma vez, olhando para cima, olhando para o céu.
Um silêncio instaurou-se de repente entre nós, e eu senti pela primeira e última vez o rosto corar quando, depois de um minuto sem nenhum ruído, ouvi um farfalhar baixo seguido da sensação reconfortante de sua mão quente envolvendo a minha, que a cada ano que se passava ficava mais fria. Embrenhei meus dedos nos seus, fechando os olhos por um momento, tentando ao máximo apreciar aquele gesto com todos os meus sentidos. Ao abri-los, encontrei seu rosto virado para o meu, mirando-me com toda a atenção do mundo.
Penso hoje que deveria ser aquela uma bela cena para uma pintura.
O brilho quente do sol nos corpos relaxados na grama, a combinação de cores, de texturas, de emoções. Nos completávamos de formas inenarráveis, como as duas metades das forças regentes desse universo, eu Yin, de cabelos e olhos tão negros quanto minha alma obscura, ele Yang, emanava por todos seus poros a luz que havia dentro de si.
Sentíamos, o magnetismo que nos unia, a necessidade um do outro, porém, mais do que tudo, víamos os olhares que nos eram direcionados, ouvíamos os cochichos e os conselhos, e construíamos, mesmo sem querer, um muro entre nós dois. Porque éramos homens agora, havíamos deixado a infância para trás, criávamos consciência de que éramos de lugares distintos, de classes diferentes e, principalmente, do fato de que eu não era e jamais viria a ser humano.
O tempo se passou, nós envelhecemos um tanto. A cada dia eu acordava e me olhava no espelho, vendo ali algo totalmente diferente do que havia neles, a obscuridade em meus olhos que havia permanecido líquida até então, começava a solidificar. Quando chegou o momento propício, perto de completar vinte anos de idade, recebi uma carta de meus pais e o pouco do calor que ainda vivia em mim, se foi.
Saí de meus aposentos decidido, com uma espada empunhada em uma mão e em outra uma adaga, a qual o próprio príncipe havia me presenteado. Atravessei o castelo, indo em direção ao pátio, precisava terminar com aquilo logo. Passei por alguns guardas, a maioria sentiu-se confuso ao me ver armado, algo extremamente incomum fora de treino, porém outros, os mais antigos, perceberam exatamente o que aquilo significava e tentaram me deter. Derrubei um a um, com a força do punho soldada no ódio irracional.
Eu estava ali, vivendo como alguém que eu não era, depois de ter sido espancado, escorraçado, xingado, humilhado, tudo por ele e Theo sabia, sempre soube, que todo o esforço que eu fizera para manter-me com ele naquele lugar de nada adiantaria, pois, no fim das contas, estava apenas esperando o momento certo para matar-me. Vi a verdade em seus olhos quando o encontrei, ofegante com a espada de treino, sem gume, empunhada, e senti-me como um animal num abatedouro, tendo amor ao invés de alimento para engordar-me o coração e fazer-me fraco.
Ele veio até mim, sorrindo e nada pude fazer se não lhe atacar, aproveitando-me de sua guarda baixa. O garoto defendeu-se como pode na situação em que estava, e conseguiu me afastar o suficiente para dizer aos soldados que não interferissem. Soquei-o diversas vezes, em cada uma gritei como se eu tivesse atingido meu corpo ao invés do seu, e desolado com toda dor que eu sentia, fui desarmado da espada, mas continuei atacando-o com a adaga. No instante seguinte, ele pareceu hesitar, permitindo-me manchar as mãos com seu sangue, uma, duas, três vezes, e então foi ao chão.
Em pé, em meio a todo o caos que eu mesmo provoquei, olhei para aquele belíssimo rosto coberto de dor e sorri. O ato pareceu incendiar sofrimento no peito de meu inimigo estirado no chão, se contorcendo.
Inimigo? Pensei. Seria essa a palavra certa para descrevê-lo?
Aquele homem que ali estava era, em essência, o mesmo que crescera comigo, com quem brinquei durante a infância, em quem me apoiei quando cai, o que tomou meu ombro para si nas horas mais difíceis. A pessoa que mais me conhecia, a única responsável pelos pouquíssimos momentos felizes de minha vida, era a que agora se negava a pedir por misericórdia, enquanto a lâmina de minha adaga acariciava-lhe a pele do pescoço.
Era o destino, entende? Não havia como ser diferente e nós sabíamos disso, desde o momento que nos apaixonamos. Não, talvez desde o momento em que nascemos, eu no porão de um casebre mal-acabado, ele numa cama quente forrada de pele dentro de um luxuoso castelo, mas de alguma forma conectados.
Os tapas que tomei no rosto ele levou nas costas, as cicatrizes que levei no corpo não foram por bravura como as dele, mas sim por covardia, porque eu era fraco. E ainda que todos me batessem e que o motivo fosse muitas vezes o próprio rapaz, ele sempre viria salvar-me. Até que um dia compreendi que eu não tinha mais salvação.
Nos afastamos e eu me fortaleci, assim como a raiva que morava dentro de mim. O odiava porque o amava, e quanto mais desse sentimento eu nutria por ele, mais me machucava. Porém, cada corte que se abria em meu coração toda vez que eu o via, transformava-se numa cicatriz dura e profunda, que haveria de nos trazer até esse instante.
A profecia, mais certa do que nunca, avisou-nos que a encarnação do bem e do mal viriam um dia a se separar daquilo que uma vez foi união. Eu nada podia fazer, se não a seguir. E, enquanto mirava dentro de seus olhos, sentindo o calor morno de sua pele em contraste com o metal frio, eu procurava coragem para cumprir a sentença de morte que havia proferido.
Via piedade nele e isso me irritava, mas ainda sim a adaga não se movia. O meu exterior forte não conseguia suportar meu fraco interior que deixava-se corromper por coisas vis, como o carinho que nutria pelo homem cujo sacrifício da vida era a única forma de salvar a minha.
Recuei. Não podia, não conseguia. Ajoelhei-me no chão sujo de sangue, abraçando-o e chorando, implorando que me perdoasse por meu pecado. Seus braços enlaçaram-me, acalentadores, ele sorria em meio a tanta dor.
Foi a única coisa que pode dizer antes de sentir minha lâmina atravessar-lhe o coração.