O calçado e a corporeidade
Quando se fala sobre calçados é comum o tema ser abordado a partir da ideia de um acessório. Eu não sei o significado formal do termo acessório, mas penso que seu sentido se refere aquilo que é complementar a vestimenta tida como essencial. Abordar os calçados sob tal perspectiva me soa estranho e até deslocado. O seu uso além de usual e essencial por uma questão prática, também traz questões mais profundas sobre o corpo e o mundo. No fundo, penso que a questão de profundidade é apenas uma diferença de grau que cada peça ou item possui, e que acaba por penetrar os sentidos de um acessório ou adorno. Porém, o calçado parece ter dimensões muito mais delicadas que se relacionam intimamente com a nossa corporeidade, a nossa capacidade de conhecer a nós mesmos e a experiência que podemos ter com o mundo a nossa volta.
Para começar a falar sobre a corporeidade, acho interessante primeiro olhar para o corpo humano em sua estrutura e, a partir dela, notar algumas das funções que considero as mais interessantes de suas partes. Os dois pés estão sustentando o corpo sobre o solo e servem de base para as pernas, que mantêm o corpo na vertical e nos possibilitam uma série de movimentos no espaço. Sobre as pernas, está o tronco que em posição ereta nos coloca em uma condição quase plena de abertura para com o mundo. Paralelo ao tronco, estão os braços que possibilitam uma série de movimentos no espaço em volta de nós mesmos. Os braços sustentam as mãos que, com a sua articulação, são as responsáveis por nos dar uma série de habilidades peculiares. E acima do tronco, está a cabeça com um campo de visão amplo em todas as direções e sentidos.
Na estrutura corporal e as funções que os pés exercem reside uma relação árdua e pouco desejosa. Eles, literalmente, nos aguentam em pé o dia inteiro e sofrem com o atrito, praticamente direto, da superfície que pisamos, andamos, corremos ou saltamos. Além disso, há ainda o fato de que sua característica física não possui uma proteção natural adequada, de modo que se for exposto diretamente as condições do ambiente fica em uma condição desfavorável com facilidade. Dessa forma, o calçado acabar por atuar como uma proteção direta aos pés e indireta ao corpo, ele tende a evitar o desconforto e o desgaste físico dos pés e a diminuir o cansaço que pode se refletir pelo restante do corpo.
O mais próximo que um calçado parece chegar de ter um uso meramente funcional é quando olhamos para ele por essa via. No entanto, já é possível vislumbrar na estrutura do corpo e na própria ideia de calçado o que parece constituir uma prefiguração de ser capaz de vivenciar o mundo de maneira mais expansiva.
O corpo é a experiência primária que temos com nós mesmos e com o mundo, é através dele que tomamos os primeiros contatos e inferências da nossa própria existência e das coisas à nossa volta. Ele é o centro por onde gravita o eu e o meio pelo qual estamos suspensos no mundo. É também por onde os sentidos e pensamentos operam e as nossas habilidades são descobertas, praticadas e aperfeiçoadas. Através dele somos convidados e quase que impelidos a trabalhar, brincar, jogar, estudar, praticar o ócio e tantas outras coisas mais que a nossa corporeidade proporciona. Em suma, o corpo e a corporeidade propiciam experimentarmos o mundo e aprendermos sobre nós mesmos, trazendo à tona nossa multidimensionalidade.
É nessa relação mundo e corporeidade que os calçados, em sua concepção, acabam por estar envolvidos aos diversos tipos de atividades, de ambientes ou de situações que podemos fazer, estar e viver e são influenciados por elas, de tal maneira, que são elas que ditam suas principais características e que, ao menos em um primeiro momento, lhes confere uma ou mais possibilidades de uso propícias. Porém, existe uma certa liberdade em nossa corporeidade que possibilita usar um calçado de maneira mais expansiva que seus desígnios iniciais. Essa liberdade se dá por meio da própria adaptação que fazemos do calçado ao nosso dia a dia e da sua ressignificação no jeito de se vestir de um indivíduo ou grupo.
Se é através do corpo que descobrimos o mundo e adquirimos parte da consciência de nós, uma parte dessa descoberta e aquisição se realiza por meio do pé bem como também do calçado. O que eu quero dizer é que, devido a essência da nossa corporeidade e a ligação do calçado com a tessitura corporal, ele pode ser explorado como uma extensão prolongadora do nosso corpo que nos ajuda a ascender por meio de nossas capacidades físicas e imaginativas.