D. A. CARSON - CHRIST AND CULTURE REVISITED
Definição de cultura por A. L. Kroeber e C. Kluckhohn: “cultura consiste em padrões, explícitos ou implícitos, de ou para comportamentos adquiridos e transmitidos por símbolos, constituindo uma conquista distinta de grupos humanos, incluindo a sua incorporação em artefactos; o núcleo fundamental da cultura consiste em ideias tradicionais (historicamente derivados ou seleccionados) e especialmente os valores associados a elas; os sistemas culturais podem, por um lado, ser considerados produtos da acção, ou, por outro, elementos condicionadores de uma acção posterior.
Uma boa parte da contestação à ideia de cultura vem de quem a considera dependente de uma metanarrativa. Ou seja, quem não crê num conceito unificador da realidade, da tal metanarrativa, olha para a ideia de cultura como impossível—só quem acreditar no transcendente ou em valores universais poderá acreditar em culturas unas à volta de algo estruturante. Nesse sentido, será impossível falar de Cristo e Cultura porque qualquer forma de Cristianismo, sendo circunstancialmente parte de uma expressão cultural particular, deixa ao suposto diálogo entregue a um monólogo.
Para os cristãos, a conversa acerca de Cristo e a Cultura é marcada pela transição do Velho para o Novo Testamento, em que o lugar do povo da aliança migrou da nação da aliança para o povo internacional da aliança. A partir desse momento, as questões entre Cristo e Cultura relacionam-se com as pessoas que temos à nossa volta, pessoas essas que podem não integrar a aliança (no VT, o pacto era nacional, tornando todo o ambiente parte da fé que nos cabia). No VT a Cultura era “cristã” por definição; no NT não necessariamente. Por isso mesmo, a história desta relação entre fé e cultura é na nova aliança marcada pelo pólo do Reino de Deus e o pólo do Império Romano.
Com a chamada conversão de Constantino, as coisas mudam (o que não significa o fim dos debates e das tensões). Se é certo que declinou o desafio de como deveria ser a resposta à perseguição, antes do Constantino, surgiu, por exemplo, o da guerra justa (o tratamento anterior de Cícero serviu de referência para cristãos que agora tinham de se ocupar de responsabilidades políticas—o “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” tornou-se um texto interpretado intensamente ao longo de gerações).
A discussão de Cristianismo e Cultura:
1) é no mundo anglo-saxónico é marcada pela categorização de Richard Niebuhr;
2) é hoje palco de um debate intenso entre vozes que querem ditar qual o seu curso;
3) é, através do impressionante progresso tecnológico na comunicação que torna as maiores cidades do mundo inevitavelmente diversas, marcada pela definição do que é “cultural” ou “multicultural”;
4) é, à custa do aspecto anterior, ambiente de polémica de culturas que se afirmem acima de outras (sobretudo no que diz respeito à religião);
5) é, por causa do declínio do Cristianismo no Ocidente, tida como devendo questionar as velhas instituições de poder (associadas à religião);
6) é complicada pelas tensões entre Estado e Igreja (que variam de país para país—na Europa os pudores desta dicotomia tendem a ser superiores).
Apesar de o Cristianismo ser uma das forças que formou o Ocidente, é precisamente aí que a maior hostilidade contra ele se levanta—a fé que seja tolerada se privada. A ironia é que o próprio Ocidente não se torna menos religioso. Pelo contrário, a diversidade religiosa cresce e com ela a urgência de repensar esta relação entre Cristo e a Cultura.