Tento olhar pra dentro para entender como foi que eu pude esquecer - ou se eu sequer esqueci.
Eu não sei dizer como foi que aconteceu. Ou melhor, como foi que eu deixei acontecer.
Não consigo parar de pensar em como tudo isso poderia ser evitado. Não consigo entender como foi que eu pude ser tão descuidada.
Sempre fui do tipo de pessoa que confere uma, duas, três vezes, daquelas que checam incessantemente. Eu rascunho qualquer mensagem importante e releio várias vezes antes de enviar, eu confiro informações que eu sei que eu já sei, eu não consigo dormir sem antes ter certeza de que esvaziei minha bexiga, de que meu celular está fora da tomada, que meus quatro despertadores estão programados e meu celular não está no silencioso e, ainda assim, durmo com a janela aberta para ter certeza de que vou acordar com a claridade do sol contra o meu rosto.
Eu planejo, eu me dedico, eu me preocupo - e muito, sempre demais. Eu me deixo ser perturbada por prazos então sempre faço tudo com antecedência. Eu chego nos lugares com mais de uma hora de antecedência pra não arriscar chegar atrasada. Eu penso muito antes, durante e depois.
O pior? Eu sabia que tinha algo errado. Eu sabia que eu não estava atenta. É como se alguma coisa no fundo do meu subconsciente estava ciente de que algo não estava certo mas não se deu o trabalho de me alertar. Não soou nenhum alarme, não agiu com urgência. Eu não me preocupei o suficiente. Logo eu, que sempre me preocupo demais.
Não sei como deixei isso acontecer. Senti que me conhecia mas eu não sei se isso é meu.
Ou talvez eu seja exatamente assim.
Quando tento racionalizar só consigo atribuir o ocorrido a um instinto de autossabotagem. Uma tendência para a autodestruição.
É como se assim que eu começasse a avistar a luz no fim do túnel, a faixa de areia do meio do azul interminável do oceano, a linha de chegada no fim da maratona e eu não só decido dar meia volta como também resolvo atear fogo ao meu próprio barco ou então me explodir - me explodir tão perto do meu destino que pedaços de mim chegam lá mas nunca eu inteira.
Talvez isso esteja relacionado a uma síndrome de impostor da qual venho suspeitado há tempos. Um sentimento constante de não merecimento, uma sensação incessante de não pertencimento. Não mereço o que tenho - que me foi dado ou que conquistei. Mas tampouco mereço sentir que não mereço, me parece que busco por pena.
Eu desisto. Sempre fui muito boa em desistir. Chegar a algum lugar não é da minha natureza. Chego sempre por acidente, sem pretensão. Ou então eu chego mas outra pessoa chegou antes e fez melhor.
Ninguém aguenta uma pessoa assim. É insuportável. Ninguém merece ter alguém assim na própria vida. Ninguém merece.
Desatenção, desconsideração, autodestruição, descuido, não sei. Só sei que eu nunca vou me perdoar e que não vou conseguir deixar de me penalizar por um bom tempo.
Sinto que isso não vai se repetir, que eu não vou deixar acontecer de novo porque aprendi a minha lição e eu não quero me sentir assim de novo. Mas não deixo de pensar no que vou fazer em seguida, qual vai ser a próxima da vez. O que eu vou fazer (ou deixar de fazer)?
Não é o fim do mundo, nunca é. Está longe de ser. Existem problemas maiores, tenho certeza. Mas o meu medo é realmente descobrir que é isso que eu sou, que sempre fui e que sempre vou ser.
Acho que eu nunca gostei de mim, não de verdade. Talvez esse seja o preço.











