Cy, o arquétipo da deusa-mãe brasileira
Os povos da pele vermelha ao longo do tempo começaram a decair e houve uma grande dispersão dos remanescentes para muitas regiões do continente americano. Na América do Sul, especialmente no Brasil, estes remanescentes originaram os tupinambás e os tupi-guarani. Apesar de haver variações nas histórias sobre a mitologia devido a imposição da religião cristã e ocultação de toda uma religião indígena, é bem relatado que eles acreditavam que todos os seres possuíam uma mãe. Essa mãe não seria apenas uma mãe única para o todo, mas ela era fragmentada para cada ser, seja mineral, animal, plantas e até mesmo fogo, vento, rio e terra. Cada elemento da natureza era cuidado por uma Cy, que quer dizer "Mãe Criadora" , ela é capaz de gerar, modelar, criar, governar e alimentar seus filhos permanentemente sem necessidade de haver um elemento masculino. Os povos indígenas brasileiros não tinham o costume de cultuar um pai gerador, pois não entendiam o papel do masculino na geração da vida, levando-os a crer que as mulheres tidas como virgens eram fecundadas por energias luminosas em forma de animais (como o caso do boto), por forças da natureza (como a chuva ou o vento), seres ancestrais ou suas próprias divindades. Os homens respeitam imensamente o sangue menstrual e o fim da menstruação era visto como um milagre, já que se transformava em filhos. Sendo Cy a mãe criadora, na sua ausência não poderia existir a manutenção da vida e da morte. Na língua Tupi existem vários nomes da deusa que enaltecem suas qualidades maternas, como Yacy ou Jaci, a mãe Lua; Amanacy, a mãe da chuva; Aracy, mãe do dia, a origem dos pássaros; Iracy, mãe do mel; Itaycy, mãe do rio da pedra. Uma curiosidade sobre a palavra Cy e seu significado é que Guaracy, considerado o deus do sol e companheiro de Yacy, poderia ser, na verdade, uma deusa. Guará quer dizer "vivente", logo seu nome significaria "Mãe dos seres viventes", a força vital, a luz, que cria a vida animal e vegetal.
Mitologia
Por ter sofrido modificações ao longo do tempo com os ataques cristãos, a origem de Yacy é muito discutida nas lendas, mas a mais aceita é que ela teria sido criada por Tupã, o grande gerador e deus dos trovões. Tupã teria criado Yacy para ser a Senhora da Noite e trazer calmaria para os homens, mas ele acabaria por se apaixonar por ela também. Outra lenda diz que Yacy teria sido criada junto com Guaracy, sendo ambos manifestações visíveis de Tupã; a crença relata que Yacy teria sido criada enquanto Guaracy dormia, gerou-a para que pudesse iluminar a escuridão que surgia toda vez em que fechava os olhos, e assim a Lua assumiria seu papel. Guaracy se apaixonou pela beleza de Yacy e se frustrou por ela desaparecer toda vez em que abria seus olhos, desse amor nasceu Rudá, o mensageiro do amor, para que pudesse contar a Yacy o quanto ele a amava, Guaracy também criou as estrelas para estarem com ela enquanto ele dormia.
Criação do Rio Amazonas
Uma outra versão da mitologia indígena de Guaracy e Yacy conta que ela estaria vagando pela floresta amazônica quando Guaracy apareceu, descreveu-o como um guerreiro de olhos de fogo e energia radiante. Ele teria se rendido aos encantos de Jaci, que é descrita como tendo uma beleza prateada e tímida. Com a efervescência do amor dos dois, Guaracy pôs a terra em perigo ao queimar com o fogo de sua paixão, enquanto Jaci estava tão feliz e dominada pelo amor que suas lágrimas de felicidade quase inundaram a terra. Incapazes de lidar com seus próprios sentimentos, os amantes decidiram que seria perigoso demais permanecerem juntos e nunca mais voltaram a se encontrar. Yacy nunca mais apareceu antes que Guaracy estivesse completamente adormecido, sua tristeza era tamanha que todas as noites suas lágrimas escorriam pela copa das árvores formando poças enormes no chão da floresta que por fim desciam pelas montanhas, nascendo assim o grande Rio Amazonas.
Lenda da Vitória-Régia
A índia Naiá teria caído de amores ao contemplar a Lua que brilhava estonteante no céu todas as noites. Os índios contam que Jaci descia até a terra para buscar virgens e transformá-las em estrelas, Naiá quando soube dessa história pôs-se a sonhar com o dia em que viraria uma estrela no céu de Jaci. Todas as noites a índia saía de casa para contemplar Jaci e esperar o momento em que a Lua desceria no horizonte para alcançá-la. Naiá repetia essa espera toda noite, mas acabava adormecendo e não encontrava Jaci. Um dia Naiá vê o reflexo da lua nas águas do rio e tenta tocá-lo, mas acaba caindo e se afogando, Jaci padece com a cena do esforço da índia e a transforma numa grande flor do Amazonas, que só abre suas pétalas nas noites de luar, a chamada Vitória-Régia.
Outros arquétipos de Cy
Em outro mito amazônico a Cobra Grande é um dos aspectos da Mãe Ancestral indígena, sendo esta a dona dos rios e dos mistérios da noite. Ela é apresentada como um monstro que vive escondido nas águas escuras e profundas do rio e ataca embarcações; a Cobra Grande é, na verdade, a face escura da deusa, a Mãe Ceifadora, que gera a vida em lugares sombrios como também traz a morte, ciclando entre criação, destruição, decomposição e transformação. Outro aspecto da Mãe Escura é Caamanha, a "Mãe do Mato" , deusa que nutre e protege as florestas e os animais silvestres, sendo a maior inimiga de quem agride a natureza, essa deusa pouco conhecida foi transformada em personagens populares como Curupira e Caapora.












