ROMANCE PROIBIDO
Existe um Deva pelo qual sinto muita afeição, que é Ganesha. A única deidade indiana que tem uma barriga grande e à mostra e isso sempre me intrigou. A barriga de Ganesha significa enorme capacidade de digerir as experiências, tanto as boas quanto as ruins. Como é considerado uma deidade que destrava os obstáculos, a gordura de Ganesha representa também abundância.
Pois é, barriga já foi status de abundância, dizem que até no início do século passado, o corpo magro que era fora do padrão. Eu lembro quando eu ia pra roça quando era adolescente, logo que comecei a odiar minha barriga, e ouvia o pior elogio do mundo (pra mim, na época): tá tão gorda, tão bonita!
Quando lembro disso, é automático o pensamento de que seria mais fácil se eu tivesse encarnado naquela época, então, umas décadas atrás - como se, como mulher, eu não teria de enfrentar problemas outros.
Eu sou uma virginiana preocupada, e sinto que 24h por dia existe algo no plano de fundo da minha mente, esse algo não me deixa em paz, como uma tarefa pendente que eu estou sempre procrastinando resolver. Você sabe, virginianas amam riscar itens da lista...
Esse algo é meu peso, em excesso, representado em especial pela minha barriga. É como se eu não pudesse jamais deixar de murchá-la, jamais esquecer que ela aqui está, me lembrando que a porta do céu é pequena e eu, grande demais para nela passar.
Esse texto ficaria muito longo se eu contasse aqui tudo que penso e sinto quando o assunto é barriga (e tudo que já passei por odiá-la). Hoje fico feliz de pensar que consigo me permitir sentir prazer, seja no sexo ou na gastronomia, e não perco mais um dia de sol por medo de colocá-la pra jogo.
E sabe o que é irônico? Eu amo barrigas. Grandes! Amo barrigas com dobras, até mesmo com marcas e estrias. Eu amo fazer carinho na barriga das pessoas com quem me relaciono, deitar na barriga, fazer cócegas, e na maioria das vezes acho barrigas protuberantes profundamente sexy. Também amo pintar barrigas! Tenho várias telas que retratam dobrinhas e dobronas sombreadas e pochetes. Menos a minha. Que droga, queria entender porque é tão difícil me amar, me aceitar, me achar bonita.
Vou aproveitar pra confessar algo curioso. No escuro do meu quarto, quando deito pra dormir e silencio o barulho externo e interno, Eu sempre acaricio minha barriga Secretamente Como uma amante proibida E como um ato de subversão Me permito desligar E me apaixonar por mim mesma incondicionalmente antes do sol raiar outra vez. *enquanto eu escrevia, deitada, minha cachorrinha chegou perto de mim e deitou na minha barriga. foi um momento de muita pureza.













