Um Crime em Incheon pt. 2
Na manhã de sábado, as casas de Incheon receberam o exemplar do dia da Tribuna. Diferente dos fins de semana comuns, nos quais boa parte das páginas eram dedicadas aos eventos que ocorriam na cidade, aos campeonatos nacionais de esporte, às fofocas de famosos e programas televisivos, a manchete da primeira página era no mínimo assustadora:
“02 de Janeiro de 1987
SOBREVIVENTE DE ATAQUE É ENCONTRADO MORTO
Na tarde da última sexta (01) a equipe de médicos legistas do Geomdam Yonsei identificou o corpo de um jovem como sendo o de Jeon Kyuho (23), sobrevivente do ataque ocorrido no The 7Th Theatre em janeiro do ano passado. o Jeon era estudante de ciências sociais da Universidade de Incheon e foi identificado por familiares, que o descreveram como uma pessoa tranquila e sem inimigos.
A morte ocorreu em 19 de dezembro, após o evento de natal promovido pela prefeitura em parceria com a Coca-Cola. A investigação está correndo em sigilo, mas o delegado Kim Seojoon acredita que trata-se de um caso isolado ou acerto de contas. Son Areum, a namorada do estudante, permanece desaparecida desde o ataque e não há novas pistas sobre o caso.
Leia matéria completa na página 7.”
O crime, que até então era do conhecimento de poucas pessoas, tornou-se a notícia mais comentada do momento. Todos queriam respostas. Quem teria tido coragem de acabar com a vida de um jovem dessa maneira? Onde estaria o restante do corpo?
Na noite do dia 3, um domingo, o jornal da KBS TV entrou ao ar com uma edição especial. Lim Yunho e Bang Sora, como sempre, anunciaram as principais manchetes do dia e as famílias assistiram atônitas à transmissão:
“Preso suspeito de assassinato de Jeon Kyuho. Universidade de Incheon suspende as aulas dos cursos de história e ciências sociais. General Park Wonsik teme motim conspiratório e reforça toque de recolher para as dez da noite.”
Em um tom mais sério do que o habitual para os domingos, Lim iniciou a notícia, enquanto na tela atrás dele eram exibidas fotos de Jeon Kyuho sozinho e com sua namorada, além da fotografia que costumava aparecer na coluna do jornalista Hung Junhoe e imagens dele saindo de casa algemado pela polícia. Por fim, o delegado, que andava ao lado do suspeito, apareceu se recusando a conceder entrevista.
“Boa noite. Na manhã desta sexta feira, foi preso em seu apartamento o ex-colunista político da Tribuna de Incheon Hong Junhoe, suspeito do assassinato do estudante de ciências sociais Jeon Kyuho, encontrado morto na madrugada de 20 de dezembro.
O suspeito era jornalista e dava aulas de história e ciências políticas na Universidade de Incheon. Uma testemunha que não quis ser identificada afirmou ter visto o suspeito conversando com o Jeon na noite do assassinato em local afastado. A vítima segurava uma espingarda que pode ter sido a arma do crime. As investigações correm em sigilo, mas o delegado Kim Seojoon afirma possuir provas que sustentam a prisão preventiva do acusado.”
Em seguida, Bang Sora continuou a transmissão. Em tom calmo ela anunciou as novidades
“Em razão das investigações, o General da base militar de Incheon solicitou ao governo do estado a suspensão provisória das atividades dos cursos de História e Ciências Sociais. As aulas, que estavam previstas para voltar no final do mês, não tem previsão de retorno. “Precisamos manter nossa população segura, essa é nossa prioridade.”
A suspeita é de que outros professores e estudantes da Universidade possam esta envolvidos no caso e no desaparecimento de Son Areum. O toque de recolher das dez da noite, suspenso desde outubro, volta a valer à partir desta segunda-feira. As autoridades afirmam que a medida é para a segurança de todos. Oficiais do exército farão rondas por toda a cidade e recomendam que todos evitem aglomerações de mais de três pessoas, especialmente no período da noite.”
Logo após o jornal, as casas que sintonizaram a Radio K ouviram o seguinte aviso, dito por Billy akamine durante os comerciais:
“Boa noite queridos ouvintes! Diante do clima pra baixo de hoje, preparamos uma programação especial depois do nosso programa de Top 10 Mais Ouvidas! Às 20h faremos um encontro de ouvintes para mais uma sessão de Dungeons & Dragons da Radio K na nossa casa de jogos! Quer fazer parte desse clube? Envie uma carta para nossa caixa postal e te mandaremos o endereço! Brota no seu carango e vem com a gente!”
Para a população comum, parecia apenas mais um encontro dos jovens ouvintes da rádio que gostavam de jogar RPG de mesa. Os eventos eram normais durante as férias e muitos pais permitiam que seus filhos fossem. no entanto, para os atentos, a gíria ‘carango’ tinha um significado especial: o grupo de guerrilha contra o exército se reuniria novamente.
Inativo há meses, o grupo de guerrilha era formado por pessoas de confiança, alguns estudantes ou funcionários da universidade, outros participantes de sindicatos de trabalhadores. Eles se reuniam em muitos lugares, como o porão do Domino’s Bar, casas de adeptos, quartos do Poison Heart, entre outros. Sempre eram divulgados disfarçados de eventos da rádio e identificados por palavras secretas dadas nas chamadas. Para saber o local, era preciso ligar para a Radio K e dizer a senha secreta.
Uma reunião de última hora só poderia significar uma coisa: Billy Akamine sabia alguma coisa sobre os acontecimentos recentes.







