O espelho que comeu o céu 🪞
Na manhã em que Lira fez dez anos, o céu mastigava lentamente uma estrela esquecida. Ele rangia. Era possível ouvir, se prestasse atenção — um estalo entre as nuvens, como os ossos de um gigante velho se curvando.
Ela despertou com o som das galinhas chorando no quintal. O som era errado. Os ovos tinham cascas de vidro naquele dia, e sangravam memória.
Sua mãe penteava seus cabelos como se costurasse um véu invisível sobre o rosto da menina. Os dedos tremiam, puxavam, costuravam. E a cada nó apertado no couro cabeludo, uma palavra saía de sua boca como fumaça:
— Casamento.
— Dever.
— Alegria. (Mas a palavra veio murcha, como fruta podre.)
Seu pai estava sentado à mesa, engolindo o silêncio. Dizia que a filha precisava “se preparar”. Que o tempo voava, mesmo quando as asas não batiam.
— Dez anos — disse, sem olhá-la. — Já metade do caminho para ser mulher.
A faca em sua mão brilhava como língua. Ele a passava na pedra com gosto, como quem limpa pensamentos perigosos.
Na parede da sala, o relógio andava para trás.
Lira mordeu o ar. O bolo em seu prato estava inteiro, mas quando ela piscou, só restavam migalhas — e uma vela ainda acesa, tremendo sozinha.
Ela desceu da cadeira. Os adultos continuavam a falar, mas suas vozes agora tinham formas: uma era um peixe seco, outra um prego.
Elas batiam contra as paredes, escorregavam pela janela, desapareciam.
No quintal, o vento falava com sotaque de floresta.
O céu estava mais perto do chão.
Tão perto que Lira teve vontade de tocá-lo.
Ou comê-lo.
Ou gritar até que ele engolisse o mundo inteiro.
Mas não gritou.
Só caminhou até o poço. Olhou para dentro.
E no fundo, viu uma versão dela mesma, com olhos de vidro, vestida de noiva, sorrindo com a boca costurada.
Lira piscou.
A imagem sumiu.
E ali, sozinha, ela soube: não haveria mais infância.
Só a fome do céu — e o espelho dentro dela que começava a mastigar o mundo.
Lira sentiu um estalo por dentro — como se um vitral antigo, que ela nunca soube que existia, começasse a rachar em silêncio dentro de seu peito. Cada trinca cantava uma nota aguda, como sinos pequenos feitos de dor e segredo.
Ela suspirou, e o mundo se arrepiou — um sopro longo que parecia vir do próprio inverno, como se ela tivesse se tornado o vento que atravessa as frestas das portas e assombra as casas.
"Se quebrar mais..." — pensou, sem usar palavras — "não haverá dedos suficientes no mundo para recolher cada lasca invisível que fui."
E então ficou quieta, tentando não respirar tão fundo. Tentando não se partir toda.
Lira sentiu um sussurro que não fazia som — era feito de vento quebrado e cheiro de terra molhada, e voava direto de dentro da floresta como se tivesse escorrido pelas folhas.
Não passava pelos ouvidos, mas entrava pelas costelas.
Ela virou devagar, como quem teme que o mundo mude de forma enquanto se distrai. A floresta a observava com olhos que não estavam lá. As árvores tinham pescoços compridos demais. A sombra dos galhos se arrastava no chão como dedos de tinta.
Ela nunca tinha entrado.
Seu pai dizia que lá era um lugar de crescimento indecente, onde meninas viravam ervas ou fumaça. Onde o chão não obedecia e o céu se esquecia de existir.
Coisa de menino, dizia ele.
Lugares que só suportavam a lógica do bruto.
Mas o sussurro não concordava.
Ele veio de novo, com suavidade de véu, mas com a força de um grito enterrado vivo.
"Lira."
Foi seu nome — mas dito com outra grafia.
Foi uma prece e uma ameaça.
Um eco que vinha de antes dela.
A floresta não chamava com voz.
Chamava com sede.
E dentro de Lira, algo respondeu — um espelho antigo girando, um rio se erguendo ao contrário, um coração abrindo os olhos pela primeira vez.
Lira deu um passo.
O chão não gemeu — ele suspirou, como se aceitasse que ela finalmente estivesse ali.
A floresta não a recebeu como se ela fosse uma intrusa, mas como se ela fosse uma lembrança. As árvores se curvaram em reverência torta, e o ar se adensou ao redor dela, denso como água sonhando.
E então ela o viu.
Suspenso entre dois galhos retorcidos, flutuava um espelho feito de água parada, moldado pelo nada — como uma janela onde não havia parede. Uma superfície límpida e imóvel, sem moldura, sem origem.
Seu reflexo estava ali.
Mas não era bem ela.
Pisava descalça sobre um chão de espinhos, com um véu cobrindo o rosto e algo em suas mãos — algo pequeno, como uma faísca ou uma semente.
E atrás da imagem, uma sombra com olhos de vidro e galhos por dedos se movia como se respirasse.
Lira não gritou.
Nem fugiu.
O espelho não a assustava.
Ele a reconhecia.
Era como se dissesse:
"Você sempre esteve aqui."
A sombra continuava ali, imóvel, como se esperasse um gesto. Mas Lira não se moveu. Só piscou devagar, e quando abriu os olhos de novo, o canto do quarto estava vazio. Como se nunca tivesse havido nada ali.
Ou como se ela mesma tivesse acabado de nascer de novo.
Engoliu seco.
O chão estava frio sob seus pés descalços quando ela voltou a caminhar.
As paredes pareciam mais apertadas do que de costume — como se tivessem crescido para dentro durante o dia.
Na cozinha, a mesa estava posta com pão escuro e sopa rala. O pai murmurava orações entre dentes, mais por obrigação do que fé. A mãe mexia a colher com o corpo inteiro, como se cada gesto fosse pedido de perdão.
— Sente-se, Lira — disse o pai, sem olhar.
Ela obedeceu.
O pão tinha gosto de terra úmida e a sopa, de água chorada.
O silêncio mastigava com eles.
A única voz era a da colher batendo na cerâmica. Ritmada. Repetida. Como um feitiço para manter tudo no lugar.
Lira olhava para as mãos. Ainda tremiam, levemente.
Mas ninguém via.
— Dez anos... já pode aprender a fiar lã — disse o pai. — E a andar com o noivo, quando ele vier da cidade.
A mãe assentiu, sem levantar os olhos.
Lira não respondeu.
Seu estômago apertou, mas não de fome.
De alguma coisa que nascia.
Quando terminou de comer, sem dizer uma palavra, subiu para o quarto.
Se deitou devagar, como quem se acomoda dentro de um eco.
A sombra não estava mais lá.
Mas deixara algo.
No canto do quarto, onde ela a tinha visto antes, havia um fio de lã negra, pendurado no ar. Flutuando sozinho.
Lira o encarou por um instante.
Depois virou o rosto e fechou os olhos.
E adormeceu com o coração feito de vidro em repouso — cheio de rachaduras que brilhavam como céu noturno.














