"I know you liked it when they were hitting on you."
A bruxa cruzou as pernas com desenvoltura, ao passo que os dentes prendiam o lábio inferior, àquela altura já desprovido de batom por culpa daquele que era seu interlocutor. Sua boca agora tinha gosto de álcool e do beijo dele e ela particularmente preferia mil vezes tais sabores a qualquer outro no mundo. Gastou alguns segundos o observando com curiosidade. Parecia achar algum tipo de prazer em admirar o pequeno vinco entre as sobrancelhas masculinas, a linha fina que os lábios formavam e os braços cruzados, resultado do pequeno ataque de ciúmes protagonizado por Beau segundos antes. Claro que o flerte não foi proposital. Adèle, como era bem sabido, tinha aquele jeito maroto de falar e de se comportar, mas não teve intenção alguma de provocar o namorado. Claro que ele não sabia desse pequeno detalhe. “– Maybe I did.” Ela respondeu depois do que pareceu ser uma eternidade. Levantou do banco que ocupava em frente ao bar, logo depois de virar o resto de whisky que tinha em seu copo, e então se aproximou. Só precisou dar um passo a frente para que os corpos estivessem juntos, as mãos traiçoeiras da francesa buscando espaço no corpo que ela conhecia tão bem; uma se infiltrando sorrateira nas costas por debaixo da blusa e a outra na nuca, onde fez questão de arrastar as unhas médias devagar. Quase sem força alguma, apenas para senti-lo arrepiar e saber que era por ela. Nunca se cansaria das reações que arrancava dele. O azul dos olhos aparecia pouco devido as pupilas dilatadas, mas isso não os tornou menos bonitos quando ela encarou sua boca e molhou os lábios, antes de sorrir sujo e arrasta-los pelo maxilar masculino. Logo, se pronunciava com a voz aveludada, dividida entre a falsa inocência e a lascívia e provocação que ela adorava dedicar a ele. “– And what are you going to do about it, uh?”
“Do you want me to leave?”, “Are you done with that?”, “That doesn’t even make sense.”, “Before I do this, I need you to know that I have always loved you.”
“Do you want me to leave?”
{flashforward}
De costas para a porta, a francesa se manteve em silêncio. Aquela era a primeira vez em dias, se não semanas, em que ouvia a voz dele desde a última briga épica que só Beau e Adèle sabiam protagonizar, e que mais uma vez resultara num término. Adèle sequer se recordava do motivo inicial, apenas da avalanche que este havia desencadeado e na destruição que esta por consequência tinha deixado para trás, porque se existia um fato notável sobre o relacionamento de Adèle e Beau era: juntos, eram explosivos. Pura combustão, fogo e gasolina até no mais ínfimo dos sentidos, coisa que ela considerava boa a maior parte do tempo. Na cama, por exemplo, eles ferviam. Eram do tipo de casal que não via hora nem lugar. Que desde o começo teve uma química fodida, do tipo que os fazia serem pegos constantemente se agarrando pelos cantos, apenas porque não eram capazes de manter as mãos longe um do outro por muito tempo. Tinham aquele fogo brilhando na íris quando se olhavam, e cultivavam um senso de proteção para com o outro que excedia os limites da auto preservação - porque Adéle tinha certeza absoluta que Beau se arriscaria por ela se fosse preciso, e vice versa -. Juntos, em prol de uma causa em comum, eram imbatíveis. Compartilhavam aquele lado anarquista entre si e com seus amigos, e mesmo quando as coisas saíam de controle ainda afirmavam que havia valido a pena só pela experiência de fazer algo por paixão. Mas não se pode esquecer que eles eram fogo, e fogo queima. Queima e se espalha quando alimentado, que era o que acontecia todas as vezes em que o casal de bruxos começava uma discussão. Gritaram, disseram coisas um para o outro que com certeza haviam machucado, e a briga só terminou quando Beau foi embora batendo a porta, deixando para trás uma Adéle que acabara de gritar que aquilo, eles, tinha acabado. Eram intensos até o último fio de cabelo e aquilo era sua ruína e seu paraíso ao mesmo tempo. Contudo, era Beau quem estava ali, parado na porta e esperando por uma permissão para se aproximar. Era ele que sempre corria quando ela precisava e que recebia o mesmo dela quando a situação era oposta, porque apesar de tudo, Adèle e Beau se amavam. Pra caralho. Loucamente. Baixou os olhos para a tela do celular, estes marejando quando ela leu mais uma vez o conteúdo da mensagem de texto.
[22/01 19:05] Vovó Pauline: Sua tia Camille recebeu uma ligação da sua mãe hoje. Ela disse que infartou e que vai precisar ficar internada. Ela pediu pra não te contar mas eu achei melhor.
[22/01 19:06] Vovó Pauline: Qualquer coisa mande notícias. Bjs.
Emmanuelle, sua mãe, havia infartado. Na noite anterior. Sua mãe havia infartado e não tinha a avisado. A última vez em que tinham se falado não havia sido nem de longe agradável, transformando o relacionamento já quase inexistente entre mãe e filha definitivamente extinto. Adèle, porém, amava Emmanuelle. A amava e a admirava, e saber que a mágoa que a mulher guardara de si ultrapassava os limites ao ponto de sequer avisa-la sobre um problema sério de saúde fazia doer uma cicatriz que a Dubois já julgava estar cicatrizada. Era por isso que ela estava ali, com a cabeça há mil e se segurando para não chora enquanto o ex namorado mesmo que não por muito tempo, mas também melhor amigo, esperava por uma resposta que não veio. Ouviu um suspiro e então passos. O ranger da porta se abrindo. Não esperou pelo resto. Com os pés descalços, a bruxa se levantou e se apressou para alcança-lo, os olhos azuis turquesa cheios de lágrimas que não demoraram a escorrer pelo rosto corado. “– Stay.” Ela pediu ao abraça-lo, sentindo-se acolhida pela primeira vez em dias. Em casa. A salvo.
“Are you done with that?”
{flashback}
“– Almost…“ Muito concentrada no que fazia, Dubois respondeu aquele que, ela não sabia, mas num futuro não tão distante seria seu namorado, o mais vagamente possível. Tudo havia começado quando, após passarem algum tempo juntos lê-se transarem, e depois de terem tomado um banho e terem transado lá também, Adéle resolvera contar a Beau sobre o Brasil. Havia o ensinado algumas palavras em português, - basicamente “Adèle rainha suprema do universo” sob o pretexto de que o ensinava a pedir um táxi -, contado a ele sobre os lugares que mais gostava no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, sobre a cultura, além de ter apresentado Rita Lee, Legião Urbana e Titãs ao amigo slash fuck buddy; contudo, o fato de Beau não conhecer nenhuma daquelas coisas não a surpreendeu tanto quanto ele não ter a mínima ideia do que era brigadeiro. O que os colocava no atual cenário: Adèle usando apenas uma calcinha e uma regata, mexendo o brigadeiro numa panela que já não estava no fogo mais, enquanto Beau aguardava - não tão pacientemente assim, diga-se de passagem -. “– And… Voilà! I present you, the greastest, the hottest, the best candy of them all: brigadeiro! The best dessert you’ll ever it, by Adèle Dubois” Colocando a panela sobre o balcão de mármore da cozinha dos Dubois, a bruxa buscou duas colheres, uma para cada um, e ocupou o banco ao lado do rapaz, entregando uma delas a ele. “– Taste better if you eat it hot. Go on, try it; I bet whatever the fuck you want you won’t regret it.“
“That doesn’t even makes sense.”
Ela parou, voltando os olhos marejados para o rapaz atrás de si com raiva. O rosto quente, as mãos trêmulas, o coração batendo forte no peito e a vontade descontrolada de chorar eram as características que resumiam a Duboas naquele instante. A música do lado de dentro era abafada mas ainda assim embalava a discussão do casal na madrugada fria, que nem sabiam mais como aquela briga havia começado. Momentos antes dividiam um cigarro e os corpos esquentavam um ao outro, mas inflamáveis como era, um toque foi o suficiente para pegarem fogo. Claro que Adèle geralmente gostava quando isso acontecia se a situação envolvesse menos roupas e gemidos em vez de gritos raivosos, mas era um risco a se correr quando escolhia estar em um relacionamento com alguém que conseguia trazer a tona o melhor e o pior de si ao mesmo tempo. “– Yeah, it doesn't. I keep forgetting that you're the only person in the fucking world who's always fucking right about everything. Forgive me, sir, for having my own opinion and disagreeing with you. Fucking lying asshole!" Mais tarde naquele dia Adèle perceberia que, mais uma vez, tinham exagerado. Que começaram a discutir por um motivo e acabaram falando sobre outro, mas enquanto isso ela deu as costas. Enquanto isso, ela foi embora e o deixou sozinho ali. Eram extremos e isso se aplicava as coisas boas e ruins, porque é como dizem... Quem vive num extremo sofre no outro.
“Before I do this, I need you to know that I have always loved you.”
A expressão facial da Duboas permaneceu impassível durante os próximos 40 segundos de silêncio que procederam a frase, inalcançável como ela apenas parecia ser, porque por dentro sentia como se seu coração fosse rasgar seu peito de dentro para fora. Conhecia aquela expressão no rosto do namorado. Conhecia também aquele tom de voz, o famoso "mas" deixado no ar que fazia o estômago de quem o ouvia revirar. E ela não gostou da sensação. As deduções que fazia mentalmente eram tão ruins quanto tudo o que ela analisava sobre a expressão corporal do francês, e por mais que tivesse quase absoluta certeza de que o que quer que fosse poderia ser superado por eles - quase, sim, porque Adèle e Beau tinham passado por muitas coisas ao longo do relacionamento, e mesmo que estivessem ali agora, ela sabia que existiam pontos difíceis de superar. Pontos que não haviam superado ainda -, todo o processo que o envolvia era doloroso. As brigas, o término eminente, a tristeza de estarem separados, a raiva por não conseguirem superar... Era um processo cansativo e por mais impulsiva que fosse, evitaria passar por ele novamente se pudesse. A parte ruim era que algo dizia a ela que estava prestes acontecer. estava bem ali na sua frente. “– Fuck, Beau, stop stalling me and fucking say it. What have you done?”
Universo dos sonhos? Bom, em primeiro lugar, o mundo seria um lugar maravilhoso se não houvesse violência, de nenhum tipo, nem entre os trouxas nem entre os bruxos. Seria perfeito se houvesse mais tolerância, amor ao próximo. Seria perfeito se não houvessem guerras, as pessoas vivendo em paz.
Saltos, vestido abaixo do joelho, cabelo perfeitamente alinhado. Ela nem parece a Despina habitual. Foi o que sua cobrinha, enroscada no rímel trouxa, dentro de sua bolsa, sussurrou. Claro que a lufana nada mais fez que rolar os olhos, não arriscando sequer um sibilo naquele instante. Ainda era a garotinha do papai, e fazia muito para o agradar. Especialmente quando ele lhe devotava uma quota surpreendente de atenção, e pedia que ela se comportasse uma vez naquele encontro em específico. Ia ser diretamente no Ministério, um jantar sobre alguma coisa de muito tempo que tinha sido resolvida, e que parecia contar com a presença de ainda alguns outros ministros. Ela nunca fora muito fã de aparecer naquelas coisas, só realmente se mostrando para roubar uma garrafa de Petrus e se embebedar em alguma das salas vazias. Era de praxe. Entretanto, para uma ocasião onde o próprio Dimitri aparecera em seu quarto para solicitar sua presença, era essencial que desse alguma atenção.
Por isso, enfiou os fios de cabelo dourados atrás da orelha, deu uma última olhada em sua maquiagem e juntou-se o pai nos poucos minutos de saudações aos intermináveis convidados do evento. As paredes de mármore branco do Ministério grego pareciam brilhar excepcionalmente sob a luz dos candelabros enfeitiçados, e o cheiro na casa era aquele típico que fazia mistura entre o perfume rico dos convidados e a comida sofisticada que elfos doméstico eventualmente ofereciam, nas bandejas de prata. Ela lamentou ter vindo logo que seu pai distanciou-se e pareceu não dar sinal de retorno, até porque seu celular tinha descarregado. Estava fadada a passar pelo menos as próximas duas horas em sorrisos forçados e tendo de segurar comentários apimentados que normalmente soltaria, se estivesse em Hogwarts. Ah, como queria não estar de férias. Preferia algumas horas de detenção encarando o cofrinho peludo de Argus Filch enquanto ele ensinava como limpar o chão com aquelas escovas imundas.
Ou estaria fadada. Aquele era @frenchmyfries? Um lampejo do tipo que só aparecia depois da ingestão de muito açúcar passeou pelos olhos muito azuis da Avgeropoulos. Como se tivesse visto um pedacinho de seu doce favorito, ela cumprimentou de qualquer jeito a mulher que usava fadas como decoração, e procurou encarar o amigo suficientemente até que o olhar dele fosse de encontro ao seu. Não precisaria nem de mais palavras. Foi só sumir um pouco, andar até um dos corredores vazios onde a música clássica já não seria mais ouvida que teve certeza de que os passos atrás de si seriam definitivamente do francês egocêntrico. “Eu não acredito que esqueci que você vinha. Pensei em sérias estratégias de fuga para nada... Tsc. My hero.”
A loira revirou os olhos, soltando um suspiro pesado enquanto encarava o garoto com certa irritação. -Beau, esse filme é péssimo. É simplesmente ÓBVIO que eles vão ficar juntos no final, o que quer dizer que isso nem vale como spoiler. Portanto, é impossível estragar isso, já que é ruim de toda forma.-deu de ombros, encarando o fundo do balde de pipoca já vazio.-Vamos sair daqui e ir para algum lugar beber. Muito mais interessante.”
Scarlet parou alguns instantes para pensar, porém sem afastar-se dele, apenas abaixando um pouco a cabeça para desviar o olhar enquanto mordia o lábio inferior. Voltou a encara-lo com um sorriso nos lábios quando finalmente o respondeu. “Eu sugiro que continuemos com o que estamos fazendo...” falou contra os lábios dele, mas não chegou a beija-lo. Afastou-se um pouco para olha-lo nos olhos. “Mas ninguém pode saber. E, por ninguém eu quero dizer meu pai e meu irmão. Eles não podem nem sonhar que isso está acontecendo, ok? Por favor.”