The Masterpiece Is Broken - Part II [Or: The proactive can always be paralyzed]
Dizem por aí, inclusive com uma frequência irritante, que a vida tem das suas peças. Raphael Hounsfield sempre soube disso. No entanto, havia algo sobre fé, que sua amada mãe passara a vida ensinando, geralmente o fazia esperar pelo melhor.
Os trinta minutos que se sucederam durante a ressuscitação cardíaca do marinheiro David Turner foram as piores. A nítida apreensão no rosto da equipe provava que na medicina, às vezes precisa-se torcer pelo melhor mas, sempre esperar pelo pior. Olhou para o relógio, segurou a expressão de frustração e anunciou a hora da morte. Em algum lugar dentro dele, chorava. Mas, não havia tempo para desmoronar, não agora. Frequentemente, quando estava sozinho, o cardiologista se questionava se aquilo ficaria mais fácil em algum momento. Para ele, seus míseros 7 anos na área médica ainda pareciam pouco para se acostumar com pessoas indo embora bem na sua frente. Na verdade, acreditava que ninguém de fato se acostuma com a morte, com a perda, ou se quer, com a possibilidade dela. Teve certeza disso quando não conseguiu tirar os olhos sem vida da cabeça, mesmo por todos os longos 152 km de Nova York até a mansão de seus pais nos Hamptons.
No entanto, como bom médico e filho, Raphael se obrigou a absorver o impacto de seus sentimentos, tomando fôlego para encarar a longa fileira de dentes perfeitamente brancos que seus pais certamente ofereciam aos convidados do leilão beneficente que os Hounsfield promoviam todos os anos.
Raphael nunca fora o maior fã dos Hamptons, apesar da tranquilidade do local, todo o ambiente lhe parecia muito fútil. Contudo, a insistência de sua adorada mãe para que o homem comparecesse no evento fizera com que o homem, mesmo abalado por toda a situação que passara no hospital, seguisse em seu audi rumo a cidade.
Não demorou estacionar o veículo na garagem da mansão. De longe, já conseguia ver as luzes da festa, ou seriam de sirenes?
Arrumando a gravata azul marinho, o médico desceu do carro, tentando distinguir o som que escutava. Mais próximo à porta da casa, conseguiu identificar os carros de polícia em frente à residência e isso foi o que bastou para seu simpático ser novamente ativado e ele correr em direção ao local. O tumulto de policiais e civis logo tomou a visão de Rapha, o deixando atordoado e preocupado. Os olhos azuis buscavam qualquer rosto conhecido que pudesse lhe dar a informação mais rápida sobre o que aconteceu.
Sentiu-se puxado. A grande mão em seu ombro fez um movimento rápido, fazendo o Hounsfield se virar e dar de cara com Siegfried, que lhe informou do ocorrido: Griffin Hounsfield havia acabado de ser esfaqueado. Raphael não discutiu, não perguntou mais nada, não conseguiu. Simplesmente girou os calcanhares e retornou para o seu carro, dirigindo o mais rápido possível para o hospital.
Dizem por aí, inclusive com uma frequência irritante, que a vida tem das suas peças. Mas, dizem também que com o tempo, você aprende a lidar com muitas delas. No entanto, essa afirmação não se mostra muito válida quando você vê uma das pessoas que mais ama no mundo, machucada. Ninguém se acostuma com a possibilidade de perder alguém importante. Nem o médico mais experiente. Talvez tenha sido por isso que Raphael Hounsfield, pela primeira vez em diversos anos de profissão, o que o jovem cardiologista mais temia aconteceu: Ele simplesmente congelou.
















