A segregação e a discriminação racial no Japão são piores do que no resto do mundo? (Da série o que você precisa saber antes de vir ao Japão)
Da minha experiência pessoal de mais de cinco anos vivendo ininterruptamente aqui no Japão, digo que não. Sendo eu neto de japoneses, era muito mais discriminado no Brasil, onde nunca fui considerado brasileiro, apesar de ter nascido na capital paulista e sempre ter estado completamente imerso na cultura tupiniquim e muito pouco na de meus antepassados.
No Brasil, ter feições orientais é suficiente para ser chamado de “japonês” (japa) ou “chinês” (china) em toda parte, indiscriminadamente, sem qualquer cerimônia ou parcimônia, muitas vezes em tom jocoso e acintoso, escancaradamente desrespeitoso, mormente se a intenção é diminuir, ridicularizar, ofender e agredir de alguma forma. As chances de ser agredido verbal e fisicamente no Brasil por ter feições orientais, mesmo sendo brasileiro nato, são de 100%. Já no Japão, se você é estrangeiro será apenas ignorado. Sei que parece estúpido, mas prefiro ser ignorado a ser humilhado na rua.
Se no Brasil ser chamado de “preto”, “negro” e “negão”, ainda que o sujeito o seja, já configura injúria e crime racial, ser chamado de “japa” ou epítetos correlacionados não basta, aliás nada basta, pois só se reconhece no Brasil o racismo que é praticado contra negros, ops, perdão, contra afrodescendentes, para usar um termo politicamente correto, ainda que estes sejam maioria absoluta da população – e não minoria, como alegam, o que é o caso dos orientais – e estejam presentes e integrados em todos os setores e áreas, sem exceção, o que já não ocorre com os orientais, justamente por serem minoria e não serem tão bons de bola.
E ressalva seja feita, no Brasil, de fato, afora ofensas e algumas discriminações e segregações pontuais, estas na maioria das vezes disfarçadas e camufladas, nunca houve nada que chegasse perto do apartheid assumido e explícito praticado em países como os Estados Unidos, por exemplo, muito pelo contrário, pois se há algo de positivo em nosso país é justamente a salutar miscigenação e integração de todos com todos.
Mas falemos do Japão. O japonês é, sim, tremenda e assumidamente racista, em um tipo de racismo excludente, em que exclui todos, inclusive seus vizinhos orientais, e salva e privilegia somente a si próprio, por assim dizer, pois que se considera o suprassumo e a “joia da criação” dos deuses, no que não se difere dos judeus, por exemplo.
A onipresente discriminação, persistente e inamovível, não é contra apenas aqueles que não são de raça e descendência japonesas, mas também contra mulheres e uma certa casta de japoneses chamada burakumin, que representa somente 3% da população e que, durante o período medieval, compunha a casta mais baixa na hierarquia social e trabalhava em funções consideradas impuras, como carrascos, fabricantes de couro, açougueiros, limpadores de rua e coveiros. Tradicionalmente, viviam em guetos específicos e eram proibidos de frequentar templos de outras castas. O sistema feudal de castas também era hereditário, o que perpetuava o estigma social do grupo.
A base da discriminação contra os burakumin está no preceito xintoísta da pureza, em que um ser humano se tornava impuro ao fazer atividades consideradas “sujas”. Hoje, essas atividades são feitas predominantemente por nós, trabalhadores estrangeiros, então você pode imaginar a condição e o status que desfrutamos por aqui. Apenas em 1871 o grupo foi permitido morar fora de guetos, mas a discriminação social se manteve e se mantém até hoje, tanto que grande parte dos executantes de serviços sujos em lixões e fábricas processadoras de carne são burakumin. Cabe ressalvar, entretanto, que alguns dos artistas mais importantes da história do Japão foram e são burakumin, entre eles artistas e criadores do teatro noh, assim como de kabuki e de kyogen.
Esse racismo franco, aberto e assumido, porém, como é também o do norte-americano, oposto ao disfarçado e camuflado do brasileiro, que só o manifesta abertamente em situações de disputa e contenda, não é violenta, como nos Estados Unidos ou na África do Sul, e sim de exclusão. E eles não são sequer sorrateiros quanto a isso, alegando simplesmente “incompatibilidade genética e cultural” (Heil Hitler!), algo que os poria à vontade entre Alfred Rosemberg (1893-1946), Hermann Gauch (1899-1978), Julius Streicher (1885-1946) e Hans Friedrich Karl Günther (1891-1968), antropólogo nas universidades de Jena, Berlim e Freiburg, um dos principais teóricos do racismo e do eugenismo do Terceiro Reich.
Aos trabalhadores estrangeiros é praticamente vedado a ascensão no cargo, no que permanecem executando o mesmo tipo de serviço sujo e repetitivo a vida inteira. As humilhações, os maus tratos, os abusos e as explorações são uma constante. Violações às – poucas – leis trabalhistas são tidas como normais e aceitáveis. As jornadas de trabalho são longas e excessivas, e em condições em geral precárias, insalubres e perigosas, tanto nas instalações físicas quanto na convivência (assédios morais, perseguições e agressões verbais e físicas são igualmente tidos como normais e aceitáveis). Acidentes são rotineiros. O Japão pode ser um país de Primeiro Mundo em matéria de tecnologia, infraestrutura, produtos e serviços, mas é um país de Quinto Mundo em direitos humanos e civis.
Apesar de ser signatário (desde 1995) da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial da Organização das Nações Unidas (ICERD, do inglês International Convention on the Elimination of All Forms of Racial Discrimination, adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 21 de dezembro de 1965 e que entrou em vigor em 4 de janeiro de 1969, sendo que o Brasil a assinou em 7 de março de 1966), as leis antidiscriminatórias no Japão são ineficazes e muito fracas, e este país jamais tomou alguma medida legislativa para impedir que empresas e outros locais públicos recusassem a entrada de clientes com base em nacionalidade e raça, por exemplo. São raras, mas em alguns estabelecimentos se você ver placas dizendo “Somente para japoneses", etc., em um claro e explícito exclusivismo, no melhor estilo apartheid.
Há até um site na internet que denuncia e expõe essa vergonha pública, colocando fotos dessas empresas excludentes, incluindo nome, endereço, número de telefone, etc., para as pessoas saberem. Diante da exposição, alguns estabelecimentos chegaram a retirar essas placas, mas as fotos permanecerão para sempre como um registro de seus delitos passados.
Esse site é mantido por Debito Arudou, escritor, blogueiro e ativista dos direitos humanos nascido nos Estados Unidos em 1965 e naturalizado cidadão japonês em 2000. Arudou foi professor de Administração de Empresas e Ciência da Informação na Hokkaido Information University, em Ebetsu, Hokkaido, de 1993 a 2011, e liderou vários protestos contra a discriminação racial no Japão, chegado a processar alguns estabelecimentos, embalde.
Ainda que as denúncias feitas por Arudou sejam legítimas, ele peca pelo exagero (que leva ao descrédito) ao pretender transformar as questões raciais em algo muito mais graves do que realmente são – o mesmo erro, aliás, cometido por muitos ativistas negros no Brasil –, no que, por tabela, acaba por reforçar a crença de que os gaijins são problemáticos e “difíceis de lidar”. Arudou falha também ao rejeitar a noção multicultural de que existe uma maneira própria dos japoneses – e por parte de qualquer outro povo – de lidar com as coisas, e que este jeito não é necessariamente aquele que se convenciona. Esperar e exigir que os japoneses pensem e se comportem e mudem sua cultura única para serem iguais ao Ocidente, é racismo da forma mais pura.
Por outro lado, a recusa inabalável do governo japonês em proscrever essa forma de discriminação por nacionalidade e raça patenteia o racismo como uma política mesma de Estado, ou seja, se você for vítima de qualquer discriminação no Japão, as leis não o protegerão e você não terá nenhum tipo de amparo. Então por que não há indignação internacional e por que o Japão não está sob as sanções da ONU? O motivo é: por que a questão racial aqui está longe de ser o principal problema e fica circunscrita ao conceito inarredável do japonês de suas origens divinas, no qual só ele mesmo acredita e que se constitui na base de seu nacionalismo exacerbado.
Na prática, no Japão tudo é uma questão de adaptação. Como diz o ditado, em Roma faça como os romanos. A absorção cultural aqui é mais exigida do que em outros países, sendo mesmo uma condição sine qua non para ser minimamente aceito, mas pergunto qual o país que não exige um mínimo de imersão para aceitar quem quer que seja.
O Japão tem sido minha casa nos últimos 5 anos e meio, tempo que me proporcionou o direito à conquista de meu visto permanente. Embora eu não diga que não há racismo aqui, certamente não é tão ruim quanto nos Estados Unidos ou no Brasil, meu país de nascimento e ainda de coração e de alma.
Nota final: Do ponto de vista biológico, a ideia de raça é desprovida de qualquer fundamento científico. A genética propiciou uma mudança radical na forma como eram concebidas as diferenças entre os homens – o que tornou ultrapassado o estabelecimento de qualquer critério classificatório fixo, tanto que o geneticista e professor Newton Freire-Maia (1918-2003) em seu livro Brasil: Laboratório Racial, tratou de desfazer vários mitos e engodos raciais, o principal deles o da “raça pura”, uma vez que “Não há raças puras. Todas as raças são heterogêneas pela própria dinâmica do mecanismo hereditário e pelas miscigenações sucessivas sofridas durante séculos e milênios.” Freire-Maia também demoliu a noção generalizada e simplista, até hoje repetida exaustivamente em forma de clichê, inclusive por educadores, de que somos oriundos de apenas três “raças”, ou seja, o índio, o branco e o negro, “assim esquecendo que, na realidade, a atual população brasileira descende de dezenas ou mesmo centenas de raças ameríndias, européias, africanas e asiáticas. E que todas essas raças resultaram de maior ou menor miscigenação entre muitas outras, ao longo de seus respectivos períodos formativos.”