A criança possui uma coisa que o adulto procura desesperadamente ao longo de toda a sua existência: um refúgio. São as paredes do útero com todos os nutrientes afluindo cotidianamente e que é preciso às vezes conseguir reconstruir em torno de si. Tenho a estranha impressão de que, quando fracassamos, o mundo procura nos levar de volta a esse lugar por meio de um golpe do destino, alguma coisa exterior nos faz retornar à vida interior num confinamento a portas fechadas e a priori lúgubre, mas na realidade salvador. Quatro paredes apertadas, uma porta pequena, uma janela por onde somos vistos mas nunca tocados, e contatos restritos. Victor Hugo na ilha, diante do mar, compõe seus versos; Trótskí, em suas prisões, escapa da morte e escreve; Lowry em sua cabana compila a agitação do mundo no entanto invisível dali onde ele se encontra. O que faço de diferente agora daquilo que eles realizaram, na minha floresta sob o vulcão, de volta da quase morte que me espreitou? O que faço senão ousar dar um passo para o lado para ver melhor, ver os sinais que pulsam em mim e que anunciam suas contradições, seu furor, sua tragédia? Perdi meu lugar, e busco nesse momento um entremeio, onde encontre a intersecção entre mim e aquilo que me cerca e que de algum modo me traduza. Um lugar onde me reconstituir, atendendo às minhas expectativas e não às do mundo que deixei quando busquei o útero da floresta.
Nastassja Martin, Escute as Feras.















