O dia na UCLA havia sido mais cansativo do que Mary gostaria, para dizer o mínimo. Trabalhos infindáveis, acumulados através de uma semana atarefada entre a vida acadêmica e a real, tiveram seu cume junto ao prazo final de entrega. Urgh, as pálpebras pesavam só de lembrar das horas que passara em claro entre pesquisas e desenhos, tendo tido apenas um insuficiente conjunto de minutos para colocar a cabeça no travesseiro antes de se preparar para o novo dia que começaria ---- não sem antes checar se a garotinha de cabelos escuros continuava em seu sono pesado no quarto ao lado; coisa que, agarrada aos bonecos de pelúcia, de fato fazia.
Portanto, agora que não havia mais nenhum dever pendente, podia concentrar-se inteiramente em transformar aquele resto de sexta-feira num tempo de qualidade com a filha; ao menos até o início do entardecer. Talvez aquilo amenizasse a culpa que passou a sentir graças ao tamanho do sorriso que abrira quando leu a mensagem de Charles mais cedo, aliviada por perceber que teria a noite sozinha. Que espécie de mãe era ela? Uma cansada, o cérebro respondeu de imediato. E, bom, Mary já não tinha muitas forças para retrucar.
Hora de Aventura, o desenho favorito de Daphne, ganhava vida na televisão à frente do sofá. Nesse, Mary jazia deitada com as costas para baixo ao passo que a pequena criança, de costas para cima, apoiava todo o corpo sobre a mãe. Não era exatamente desconfortável, pelo contrário; chegava a ser aconchegante. O calor daquele corpinho diminuto era sempre bem vindo, de modo que uma mão protetora passou a acariciar os cabelos curtos carinhosamente. Não demorou até que o gesto arrancasse um bocejo da mais nova, levando aos lábios de Sutter um sorriso amoroso. Virando o rosto para a televisão, os olhos assistiam mais um pouco do desenho, mas a mente vagava nas roupinhas que teria que colocar na mochila de Daphne dali alguns minutos, antes que Charles chegasse. Talvez um agasalho, uma vez que as noites de dezembro tendiam a ser um pouco mais frias que o resto do ano. Piscou. Quem sabe um bikini? Talvez ele quisesse levá-la à piscina, quem sabe à praia. Piscou novamente, dessa vez demorando-se ligeiramente. Se forem à praia, Mary também precisaria colocar toalhas e o protetor solar... Outro bocejo fez-se audível, e quando percebeu que era da própria boca que ele saía, já era tarde demais.
Foi a segunda campanhia que a despertou. Piscando letargicamente, demorou alguns segundos até entender o que acontecia. A primeira coisa que viu foi o alaranjado escuro que entrava pela janela; depois, ao olhar para a tv, o aviso de inatividade prolongada; e por último, mas não menos alarmante, o terceiro buzinar da campanhia, cujo som pareceu finalmente tirá-la do torpor. Charles! Os olhos arregalaram abruptamente, e o corpo só não fez o mesmo, erguendo-se de supetão, por causa da pressão que ainda se fazia presente sobre si. Temendo acordar Daphne no susto, uma mão foi à base da cabeça e a outra ao tronco pequeno com o máximo de cuidado e cautela que a pressa permitia, removendo-a do abraço antes de colocá-la, dessa vez sozinha, sobre o sofá. Mary então correu na ponta dos pés até a porta, dando uma olhadinha no olho mágico apenas para confirmar as suspeitas. Girou a maçaneta no segundo seguinte, puxando-a na intenção de abrir a porta. No rosto, havia um sorriso amarelo que era, ao mesmo tempo, o assumir da culpa e um silencioso pedido para que a livrasse dela.
“Charles.” O cumprimentou, acenando com a cabeça. Só então deu-se conta do quanto estava amassada --- literalmente dos cabelos até os pés. “Entra, entra. Espero que não esteja com muita pressa, porque tivemos um pequeno imprevisto.” A palavra veio semitonada, acompanhada de um quase unir de indicador e polegar enquanto ombros subiam e a careta cínica de segundos atrás reaparecia. Deu um passo para o lado, liberando o caminho apartamento adentro. “Quer café?”