Inundação...
Inundou o quarto devagar Passou por todas as nossas lembranças Suas coisas espalhadas pela sala Enundou seu violão Fez canção na sua guitarra na inundação Relaxou seu colchão Que nos abrigou nos dias frios E arrepiou da vista da nossa janela Sorriu com o nosso retrato na sua escrivaninha Mas inundou seus papéis em cima dela saiu em direção ao caminho Inundou as flores que ainda perfumavam o caminho Inundou e por beleza quiz fazer ninho Inundou as horas e os segundos Inundou enchendo cada centímetro de mim e tratou de te preencher Inundou achando o caminho de volta pra casa Entrou pelas minhas gavetas mexeu no meu baú Inundou toda a caixa das maquiagens como se quisesse ocultar aquilo que já era visível pois estava se tornando mais e mais grandioso Inundou aquilo que era secreto e que escondiamos Inundou nossa foto no meu quadro quase lotado de coisas Inundou minha cabeceira cheia de livros e deles releu inundando e moldando o perfume para ser o seu Inundou meu caminho até o sol depois de embriagar toda a noite Inundou nosso olhar de novo e de novo Inundou nossas defesas e certezas Inundou de uma forma que todos os sonhos morassem bem perto. Inundou as escadas em que subimos e descemos várias vezes Inundou os nossos altos e baixos Inundou nossos gritos e nossos sussurros Inundou até isso tudo que escrevo Inundou minha alma a escrever Inundou meus dedos a obedecer E Inundou mais uma vez a vontade esgotada de te vê Inundou o que nunca cessa, essa fome que jamais vai embora traduzida em mais um verso que me inunda também. Inundou sua saudade só por vaidade Inundou nossos lábios que muitas vezes se deram em paixão e se pousaram por amor Inundou cada riso cada palavra Inundou a TV e os filmes que vemos Inundou as nossas manias como se precisássemos delas para continuar respirando Inundou nossa respiração nem tão calma e nem tão ofegante Inundou de mansinho nossos sonhos que estavam por perto e alcançou também os que ainda estavam longe Inundou os resumos e as palavras de quando dizíamos sobre nós para os outros Inundou a família que vínhamos e a que sonhamos em ter Inundou o medo e o desespero E inundou ao mesmo tempo a paz e a segurança Inundou o desejo que falava mais alto e a calma que o amor dava as vezes Inundou os nossos segredos Inundou tudo… Porque quando nos demos conta já éramos náufragos de um amor sem fim… A inundação não para e mergulhamos nela sem pensar. Porque temos, agora, toda a imensidão. O coração se encheu tanto que não há espaço para a solidão. Poema por Rebeca de Castro.









