Quando era pequena, sua mãe lhe contara sobre a cegonha ; Um pássaro alvo que entregava bebês de porta em porta. Obviamente, tratava-se de mais uma fábula ridícula para fertilizar a "belíssima" imaginação dos infantos e não "corrompê-los", já que a inocência era, e ainda é, um fetiche dos adultos. O quão tonto aquilo soava? Tonto o suficiente para ser verdade. O problema era que, mesmo crescendo em uma família "retrógrada", sabia sobre o sexo entre adultos desde muito pequena. Uma vez, espiara o quarto dos pais à noite, visando saber o motivo de tanto barulho, e viu a cena. Mas mesmo assim, sua mãe insistia em contar aquela mentira. Quando adolescente, já instruída, excelente pianista e leitora de grandes filósofos, engravidou de seu consorte. Já não mais era propriedade de seu pai, agora que estava casada com um barão de meia-idade,vivendo em uma das grandes casas nos arredores de Manaus, ele sendo um excelente marido. Um dia, chegara em casa embriagado, acompanhado de duas prostitutas e, na presença de tal cena, ela surtou, levantando a voz para seu bom marido. As consequências eram óbvias ; O barão largou mão das mulheres que o acompanhavam e partiu para cima da pobre grávida. A mulher, espancada, humilhada e quebrada, subiu até seu quarto, apenas para perder o rebento no dia seguinte. O barão tentou se desculpar por sua irracionalidade, mas a garota não queria saber. Seu bebê estava morto. Suas esperanças estavam mortas. Suas noites passaram a ser atormentadas pelo carcarejo de um pássaro, e ela, em seu delírio, acreditou ser a cegonha, aquela à qual sua mãe tanto falara sobre, quando perguntava de onde vinham os rebentos. Era ela que lhe trazia um novo bebê, não havia chance de ser outro pássaro, não após tanta injustiça. Seu marido a visitava em seu leito perfumado por morte e pesar de vez em quando, mas as únicas palavras que à ele eram destinadas lhe entristeciam :
- A cegonha chegou?
Mas ela nunca aparecia. Não havia justiça, assim como não havia cegonha. Uma noite, ela ouviu o pássaro assobiar e carcarejar do lado de fora da casa. Ela abriu as cortinas e as janelas para finalmente poder vislumbrá-lo, e apesar de sua única esperança se demorar, ela veio. Era uma enorme matinta, de olhos enevoados e bico cinzento. Ela ergueu as mãos para os céus e gritou por ela, não pela matinta, mas pela cegonha que via nela, recebendo, em resposta, um penetrante carcarejo, que ecoou em suas barreiras oníricas por toda a noite, e por toda a noite a garota permaneceu inerte em seu leito. Nos dias seguintes, a matinta já não carcarejava ou assobiava acima de seu casarão. Lembrou-se, então, de uma queixa de seu marido à respeito do pássaro barulhento. Lembrou-se tambem que tinha uma marido barão, e que fora ele quem lhe havia tirado o rebento pelo qual tão ansiosamente esperava. Desprezava-o, odiava-o e, acima de tudo, ela o queria morto. Passava a maior parte do tempo divagando, idealizando o seu marido grávido. Em seus devaneios, ela o espancava até o sangue do feto se misturar ao dele, e ria, ah, se ria. Abnegando de sua mente febril, a garota foi ter com o velho homem, pois precisava cumprir o seu dever como esposa ao menos uma vez antes de afundar em um vazio espiritual do qual jamais sairia novamente. O quarto de casal no qual o barão passava a maior parte do tempo estava abafado, úmido e fedendo a doença. Lá estava ele, preso em sua leitura iluminada por uma lamparina. Quando deu pela presença da garota, o homem avançou contr'ela e, em toda sua fúria, fechou ambos os punhos em volta de seu pescoço.
- Você matou o meu filho. Seu útero fraco arruinou minha vida!
Ela, sem poder falar ou gritar por ajuda, decidiu aceitar a morte nos braços daquele pobre homem, vítima da natureza cruel de uma mulher, vítima esta que, de tão desolada que ficou após o assassinato de seu filho, procurou auxílio em bordéis e ópio. Era ela a culpada, a alma condenada ao inferno. O povo consentia, e a voz de deus* é a voz do povo. Um deus metafísico, um deus sábio, justo e de índole superior. Ele a deixou quase sem ar, jogada ao relento, sozinha em um chão de madeira. Arquejava tentando recuperar o ar, tossia logo em seguida. Sua visão estava turva e, podia contar apenas com sua audição naquele momento. Ouviu alguém bater na porta, toc toc toc. Abriu os olhos, e seu pobre marido já não estava ali. A visita insistia, toc toc toc. Levantou-se, como se tivesse forças para tal coisa, e andou pela casa até a porta. Toc toc toc. Antes do terceiro bater, ela abriu a porta, e lá estava a tão aguardada visita ; Uma mulher velha, vestindo manto preto, de olhos cegos e enevoados, com um pano ensangüentado em seus braços, enrolado em algo.
- Parabéns. - a matinta disse, entregando-lhe o rebento. - É uma menina.
A garota o tomou em seus braços, acariciando o rosto sangrento e descarnado daquele feto que, caso viesse ao mundo, teria sido a sua tão amada filha. A cegonha trouxera a garota quando recém-nascida. A matinta, por outro lado veio naquele momento para guiar ambas mãe e filha no caminho da morte, já não separadas pelo véu de Ísis. A mãe beijou o rosto mal-formado da filha, saboreando o gosto de sangue e carne decomposta, adentrando o abismo espiritual, logo em seguida, para nunca mais voltar.