Sábado, 6 horas da manhã.
Não costumo ser cutucada neste horário, mas hoje uma energia contagiante me colocou pra funcionar logo cedo! Sentou, deu partida e partimos!
Chegamos em um posto. Lembro desse posto.
Encheu o tanque.
Opa, isso é bom sinal....
"Pra onde iríamos?", me pergunto. Claro que não sabia.
Eternos 30 minutos se passam, e eu continuaria no mesmo lugar. “Puta que pariu, me tirou da garagem pra ficar aqui no frio?” pensava eu.
Senti ar entrando no pneu dianteiro. “Já era hora, há tempos não era calibrada.” resmunguei.
Percebem como meu humor mudou? Comecei o dia muito bom, mas uma simples espera me fez mudar repentinamente. Há tempos me pego observando isso em mim. Tudo isso é muito novo, sentimentos, pensamentos... Não sei controlar direito. E outra, será que devo controlar? Esse negócio de consciência é fogo...
Mas voltando, quando vi, já estava na estrada. Seguindo uma outra moto. Não consegui ver quem era... Qual era.. lembro de cabelos ao vento. Continuamos seguindo.
Jr me pilotando. Preciso fazer um parêntese aqui.
Como melhorou!! A perna não treme mais. Está mais suave. As dores diminuíram muito nas passadas de marcha, principalmente na estrada. Enfim, sinto como se fôssemos um só. Acho que esse é o segredo para uma boa pilotagem.
Paramos. Cabelos ao Vento (como eu os apelidei, afinal, não sabia quem eram) e nós paramos em um posto. Bonito. Meus olhos brilharam ao ver motos lindas! Grandes como eu. E outras muito, muito maiores.
Cabelos ao Vento parou do meu lado. O rapaz e o Jr entram na lanchonete e ficamos lá.
Cabelos ao Vento é uma moto menorzinha e estilosa. Uma Intruder, com suas potentes 250 cilindradas. Já está na estrada há muito mais tempo que eu. Já deve ter tido muita experiência boa. Eu estou começando a minha trajetória.
Queria tanto conhecê-la melhor, mas ela não era de falar muito. Na verdade, nada. Ficamos uns 30 minutos e não ouvi nem uma palavra de Cabelos ao Vento. Por que nenhuma moto fala comigo?
Voltando dos meus pensamentos para o momento presente, me percebo de volta na Castello Branco, indo em direção à Sorocaba. Ótima estrada, um tapete! Certeza que ali iríamos esticar até uns 140km/h fácil.
Porém, para minha infelicidade, não passamos dos 80 no máximo 90km/h.
Aquilo me deixou muito irritada e indignada, com Jr também. Pow acelera aí!
Mas depois de algum tempo nessa irritação, me perguntei o por que de estar assim. Por que eu iria me preocupar em chegar rápido?
Daí comecei a curtir a viagem, olhando a paisagem ao redor, observando as outras motos velocíssimas me passarem. Elas pelo visto querem velocidade. Mas eu não! Gosto de curtir a viagem e não a velocidade! Foi aí que entendi. O Jr e o amigo também queria curtir a viagem! É isso! Pra que a pressa?
Passado um tempo depois chegamos. Era uma cervejaria, a Bamberg, muito bonita por fora. Como queria conhecer por dentro... Mas eu e Cabelos ao Vento ficamos do lado de fora - onde já se viu uma moto dentro de uma cervejaria?
Pra minha surpresa, Cabelos ao Vento desembestou a falar.
Em suas palavras, com sotaque do interior, pude perceber muita sabedoria. De quem já passou por muita coisa. Lembro de ter ouvido histórias vindas de Indaiatuba-SP, alguns desequilíbrios e tombos, uma mega viagem para Curitiba-PR, cheia de aventuras e surpresas, com direito a ser empurrada alguns kilometros - como será está sensação???! - e mais outras histórias.
Me vi enfeitiçada por suas palavras. E de como eu, de alguma maneira, queria viver isso também. Viver e contar histórias!!
De repente, me vi outra vez na estrada, à 80 por hora, dessa vez no sentido contrário. E agora, contemplando cada paisagem pelo caminho.
É isso... O que eu aprendi hoje?
Não tenha pressa. O importante é a jornada e não o destino!