NDM-1, a enzima que derrota os antibióticos (parte 2)
"A descoberta e confirmação da dispersão da NDM-1 entre várias espécies de bactérias que nos causam doenças é alarmante uma vez que representa um novo mecanismo de resistência muito eficaz", refere António Piedade. Aliado a outros mecanismos, "podemos vir a estar numa situação semelhante à que existia antes da descoberta e desenvolvimento dos antibióticos", alerta António Piedade.
Por enquanto, ainda não há casos confirmados da NDM-1 em Portugal. Mas basta uma pessoa e uma viagem para alterar isso. "Os viajantes quando se deslocam para zonas onde há destes organismos funcionam como uma espécie de correio, podem trazer os microrganismos que existem por onde passam", refere Saraiva da Cunha. Elaine Pina é mais contundente. "Dada a globalização no mundo de hoje, é provável que já existam em Portugal bactérias com este mecanismo específico de resistência pois já estão presentes bactérias com outro tipo de resistência aos antibióticos", sublinha.
Prevenção e higiene são a palavra de ordem, sobretudo no meio hospitalar. "O PNCI tem como objetivo promover as medidas de boas práticas que permitam evitar a transmissão entre doentes: a higiene das mãos, o uso correto de luvas e outro equipamento de proteção individual", avança Elaine Pina. E, ao mesmo tempo, "desenvolveu sistemas de registo que permitem conhecer a frequência e o tipo de infeções em populações de maior risco (unidades de cuidados intensivos, cirurgias) e também o tipo de bactérias que provocam as infeções".
E o que pode fazer o cidadão comum? "A população em geral pouco mais pode fazer do que ter alguns cuidados de higiene pessoal e alimentar, evitando adoecer em viagem. Neste momento não há outras formas de prevenção, disponíveis e generalizadas para a população", conta Saraiva da Cunha. Elaine Pina acrescenta outras medidas. "Não devem tomar antibióticos sem que sejam prescritos pelo médico, devendo cumprir rigorosamente as prescrições, bem como regras básicas de higiene pessoal e do ambiente no seu dia-a-dia". Em viagem "deve-se ter cuidado com os alimentos (principalmente as saladas e frutas) que consomem e a água que bebem", resume.
O facto de serem bactérias transmitidas por contacto acaba por tornar esta questão menos visível. "Normalmente tudo o que se transmite por via aérea tem uma transmissão mais fácil e mais rápida, num curto espaço de tempo atinge mais pessoas. Isso põe toda a gente de alerta. Esta é uma situação mais latente", conta Saraiva da Cunha.
Para Elaine Pina, a questão não é relevante. "Para ser honesta, não sei se a atenção por parte dos media é um fator positivo ou negativo", sublinha. "O que é preciso é conseguirmos que todos os profissionais que prescrevem e prestam cuidados de saúde estejam cientes dos riscos de infecção, que conheçam as medidas básicas essenciais para assegurar a prevenção de transmissão cruzada e que existam, na prestação de cuidados, as condições necessárias para que sejam sempre cumpridas", conclui.
Por Marco Roque, publicado in Revista C (12/05/2011)