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[Tudo à minha volta ]
Tudo à minha volta cumpre um destino silencioso e incompreensível a que algum deus fugaz preside. Fora de mim, nas costas da cadeira
o casaco, por exemplo, pertence a uma ordem indistinta e inteira. Dava bem todo o meu sentido prático pela sua quieta permanência em si e na cadeira.
A realidade dos livros em cima da mesa parece tão estritamente real! As filhas falam, barulhentas e reais, e eu próprio, em qualquer sítio, sou real.
Sob este rio real o rio que me arrasta, de palavras, como dentro de mim ou fora de mim? O que pensa? Estou lá, ou está lá alguém,
como está neste lugar (qual?), e como os livros na mesa? O que fala falta-me em que coração real?
É duro sonhar e ser o sonho, falar e ser as palavras! E, no entanto, alguém fala enquanto fujo, e falo do que, em mim, foge.
Sem que palavras alguma coisa é real? As filhas sabem-no não o sabendo e falam alto fora de mim sem falarem nem não falarem.
Em mim tudo é em alguém em qualquer sítio escuro como se houvesse um muro entre o que fala (quem?)
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 136 e 137 | Assírio & Alvim, 2012












