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João Gilberto, O Mito
Mitadas não, resposta na lata esse é Jair Bolsonaro
O mito
Num vórtice monocromático
o olhar evolui,
partícula flutuante,
pelas ondas da sublime criação.
No alto vislumbra o olho divino,
conquistador das trevas.
Hórus mitológico,
Grande Arquitecto Universal
que tudo observa e domina.
Em baixo a luz.
Feminil beleza de uma musa
envolta num luminoso crescente lunar.
Se o olhar é de Hórus
Será de Ísis a silhueta?
Como na lenda ancestral
Num olho o sol,
No outro a lua.
Olhar dual como o mundo:
luz e trevas,
homem e mulher,
divino e mundano.
Osíris ressuscitado.
Ricardo Ramalho
14 de Junho de 2018
Foto: Florence, Italy, 2017. Alan Schaller.
O Mito
Sequer conheço Fulana, vejo Fulana tão curto Fulana jamais me vê, mas como eu amo Fulana.
Amarei mesmo Fulana? ou é ilusão de sexo? talvez a linha do busto, da perna, talvez o ombro.
Amo Fulana tão forte, amo Fulana tão dor, que todo me despedaço e choro, menino, choro
Mas Fulana vai se rindo... Vejam Fulana dançando No esporte ele está sozinha No bar, quão acompanhada.
E Fulana diz mistérios, diz marxismo, rimmel, gás. Fulana me bombardeia, no entanto sequer me vê.
E sequer nos compreendemos, É dama de alta fidúcia, tem latifúndios, iates, sustenta cinco mil pobres,
Menos eu... que de orgulhoso me basto pensando nela Pensando com unha, plasma, fúria, gilete, desânimo.
Amor tão disparatado, Desbaratado é que é... Nunca a sentei no meu colo nem vi pela fechadura.
mas eu sei quanto me custa manter esse gelo digno, essa indiferença gaia, e não gritar: Vem, Fulana!
Como deixar de invadir sua casa de mil fechos e sua veste arrancando mostrá-la depois ao povo
tal como é, ou deve ser: branca, intacta, neutra, rara, feita de pedra translúcida, de ausência e ruivos ornatos.
Mas como será Fulana, digamos, no seu banheiro? Só de pensar em seu corpo, o meu se punge...Pois sim.
Porque preciso do corpo para mendigar Fulana, rogar-lhe que pise em mim, Que me maltrate... Assim não.
Mas Fulana será gente? Estará somente em ópera? Será figura de livros? Será bicho? Saberei?
Não saberei? Só pegando, pedindo: Dona, desculpe, O seu vestido esconde algo? tem coxas reais? cintura?
Fulana às vezes existe demais: até me apavora. Vou sozinho pela rua, eis que Fulana me roça.
Olho: não tem mais Fulana. Povo se rindo de mim. (Na curva do seu sapato o calcanhar rosa e puro.)
E eu insonte, pervagando em ruas de peixe e lágrima Aos operários: a vistes? Não, dizem os operários.
Aos boiadeiros: A vistes? Dizem não os boiadeiros. Acaso a vistes, doutores? Mas eles respondem: Não!
Pois é possível? pergunto aos jornais: todos calados. Não sabemos se Fulana passou. De nada sabemos.
E são onze horas da noite, são onze rodas de chope, onze vezes dei a volta de minha sede; e Fulana
talvez dance no cassino ou, e será mais provável, talvez beije no Leblon, talvez se banhe na Cólquida;
talvez se pinte no espelho do táxi; talvez aplauda certa peça miserável num teatro barroco e louco;
talvez cruze a perna e beba, talvez corte figurinhas, talvez fume de piteira, talvez ria, talvez minta.
Esse insuportável riso de Fulana de mil dentes (anúncio de dentifrício) é faca me escavacando.
Me ponho a correr na praia. Venha o mar! Venham cações! Que o farol me denuncie! Que a fortaleza me ataque!
Quero morrer sufocado, quero das mortes a hedionda, quero voltar repelido pela salsugem do largo,
já sem cabeça e sem perna, à porta do apartamento, para feder: de propósito, somente para Fulana.
E Fulana apelará para os frascos de perfume. Abre-os todos: mas de todos eu salto, e ofendo, e sujo.
E Fulana correrá (nem se cobriu; vai chispando) talvez se atire lá do alto. Seu grito é: socorro! e deus.
Mas não quero nada disso. Para que chatear Fulana? Pancada na sua nuca na minha é que vai doer.
E daí não sou criança. Fulana estuda meu rosto. Coitado: de raça branca. Tadinho: tinha gravata.
Já morto, me quererá? Esconjuro se é necrófila... Fulana é vida, ama as flores, as artérias e as debêntures.
Sei que jamais me perdoara matar-me para servi-la. Fulana quer homens fortes, couraçados, invasores.
Fulana é toda dinâmica, tem um motor na barriga. Suas unhas são elétricas, seus beijos refrigerados,
desinfetados, gravados em máquina multilite. Fulana, como é sadia! Os enfermos somos nós.
Sou eu, o poeta precário que fez de Fulana um mito, nutrindo-me de Petrarca, Ronsard, Camões e Capim;
Que a sei embebida em leite, carne, tomate, ginástica, e lhe colo metafísicas, enigmas, causas primeiras.
Mas, se tentasse construir outra Fulana que não essa de burguês sorriso e de tão burro esplendor?
Mudo-lhe o nome; recorto-lhe um traje de transparência; já perde a carência humana; e bato-a; de tirar sangue.
E lhe dou todas as faces de meu sonho que especula; e abolimos a cidade já sem peso e nitidez.
E vadeamos a ciência, mar de hipóteses. A lua fica sendo nosso esquema de um território mais justo.
E colocamos os dados de um mundo sem classes e imposto; e nesse mundo instalamos os nossos irmãos vingados.
E nessa fase gloriosa, de contradições extintas, eu e Fulana, abrasados, queremos... que mais queremos?
E digo a Fulana: Amiga, afinal nos compreedemos. Já não sofro, já não brilhas, mas somos a mesma coisa.
(Uma coisa tão diversa da que pensava que fôssemos.)
Carlos Drummond de Andrade
Deal With It Jonas.
O mito
Sequer conheço Fulana, vejo Fulana tão curto Fulana jamais me vê, mas como eu amo Fulana.
Amarei mesmo Fulana? ou é ilusão de sexo? talvez a linha do busto, da perna, talvez o ombro.
Amo Fulana tão forte, amo Fulana tão dor, que todo me despedaço e choro, menino, choro
Mas Fulana vai se rindo... Vejam Fulana dançando No esporte ele está sozinha No bar, quão acompanhada.
E Fulana diz mistérios, diz marxismo, rimmel, gás. Fulana me bombardeia, no entanto sequer me vê.
E sequer nos compreendemos, É dama de alta fidúcia, tem latifúndios, iates, sustenta cinco mil pobres,
Menos eu... que de orgulhoso me basto pensando nela Pensando com unha, plasma, fúria, gilete, desânimo.
Amor tão disparatado, Desbaratado é que é... Nunca a sentei no meu colo nem vi pela fechadura.
mas eu sei quanto me custa manter esse gelo digno, essa indiferença gaia, e não gritar: Vem, Fulana!
Como deixar de invadir sua casa de mil fechos e sua veste arrancando mostrá-la depois ao povo
tal como é, ou deve ser: branca, intacta, neutra, rara, feita de pedra translúcida, de ausência e ruivos ornatos.
Mas como será Fulana, digamos, no seu banheiro? Só de pensar em seu corpo, o meu se punge...Pois sim.
Porque preciso do corpo para mendigar Fulana, rogar-lhe que pise em mim, Que me maltrate... Assim não.
Mas Fulana será gente? Estará somente em ópera? Será figura de livros? Será bicho? Saberei?
Não saberei? Só pegando, pedindo: Dona, desculpe, O seu vestido esconde algo? tem coxas reais? cintura?
Fulana às vezes existe demais: até me apavora. Vou sozinho pela rua, eis que Fulana me roça.
Olho: não tem mais Fulana. Povo se rindo de mim. (Na curva do seu sapato o calcanhar rosa e puro.)
E eu insonte, pervagando em ruas de peixe e lágrima Aos operários: a vistes? Não, dizem os operários.
Aos boiadeiros: A vistes? Dizem não os boiadeiros. Acaso a vistes, doutores? Mas eles respondem: Não!
Pois é possível? pergunto aos jornais: todos calados. Não sabemos se Fulana passou. De nada sabemos.
E são onze horas da noite, são onze rodas de chope, onze vezes dei a volta de minha sede; e Fulana
talvez dance no cassino ou, e será mais provável, talvez beije no Leblon, talvez se banhe na Cólquida;
talvez se pinte no espelho do táxi; talvez aplauda certa peça miserável num teatro barroco e louco;
talvez cruze a perna e beba, talvez corte figurinhas, talvez fume de piteira, talvez ria, talvez minta.
Esse insuportável riso de Fulana de mil dentes (anúncio de dentifrício) é faca me escavacando.
Me ponho a correr na praia. Venha o mar! Venham cações! Que o farol me denuncie! Que a fortaleza me ataque!
Quero morrer sufocado, quero das mortes a hedionda, quero voltar repelido pela salsugem do largo,
já sem cabeça e sem perna, à porta do apartamento, para feder: de propósito, somente para Fulana.
E Fulana apelará para os frascos de perfume. Abre-os todos: mas de todos eu salto, e ofendo, e sujo.
E Fulana correrá (nem se cobriu; vai chispando) talvez se atire lá do alto. Seu grito é: socorro! e deus.
Mas não quero nada disso. Para que chatear Fulana? Pancada na sua nuca na minha é que vai doer.
E daí não sou criança. Fulana estuda meu rosto. Coitado: de raça branca. Tadinho: tinha gravata.
Já morto, me quererá? Esconjuro se é necrófila... Fulana é vida, ama as flores, as artérias e as debêntures.
Sei que jamais me perdoara matar-me para servi-la. Fulana quer homens fortes, couraçados, invasores.
Fulana é toda dinâmica, tem um motor na barriga. Suas unhas são elétricas, seus beijos refrigerados,
desinfetados, gravados em máquina multilite. Fulana, como é sadia! Os enfermos somos nós.
Sou eu, o poeta precário que fez de Fulana um mito, nutrindo-me de Petrarca, Ronsard, Camões e Capim;
Que a sei embebida em leite, carne, tomate, ginástica, e lhe colo metafísicas, enigmas, causas primeiras.
Mas, se tentasse construir outra Fulana que não essa de burguês sorriso e de tão burro esplendor?
Mudo-lhe o nome; recorto-lhe um traje de transparência; já perde a carência humana; e bato-a; de tirar sangue.
E lhe dou todas as faces de meu sonho que especula; e abolimos a cidade já sem peso e nitidez.
E vadeamos a ciência, mar de hipóteses. A lua fica sendo nosso esquema de um território mais justo.
E colocamos os dados de um mundo sem classes e imposto; e nesse mundo instalamos os nossos irmãos vingados.
E nessa fase gloriosa, de contradições extintas, eu e Fulana, abrasados, queremos... que mais queremos?
E digo a Fulana: Amiga, afinal nos compreedemos. Já não sofro, já não brilhas, mas somos a mesma coisa.
(Uma coisa tão diversa da que pensava que fôssemos.) - Carlos Drummond de Andrade
``Mas o vento levou,meus melhores amigos``
Marcao o mito