Coming home // Bona & Sora @flashback
A manhã nasceu chuvosa e fria, criando uma atmosfera perfeita no aconchegante quarto de visitas em que Sora dormia e fazendo-a desejar poder ficar mais tempo ali, deitada confortavelmente. Contudo, o barulho do despertador ecoava pelo cômodo, irritantemente anunciando que devia levantar-se rápido. Por que mesmo tinha de levantar cedo? Sonolenta, procurou o objeto barulhento e, assim que o apalpou, jogou-o o mais longe possível. Provavelmente, quebraria, mas o som havia cessado e isso era o que importava.
Sentou na cama, mau humorada, e olhou em volta. As paredes eram brancas e um carpete macio fazia o chão virar confortável; um guarda roupa bem cuidado estava em frente à cama e ao lado dele, um espelho grande; uma mala aberta, revelando o conteúdo desorganizado, jazia ali perto, lembrando-lhe o motivo de acordar cedo. Como poderia ter esquecido? Repentinamente, uma expressão brilhante emoldurou-lhe o rosto e começou a sentir-se cheia de disposição. Sabia que dali há algumas horas estaria de volta à Hongdae, seu atual lar.
Arrumou-se rapidamente e, após ajeitar o resto de sua bagagem, desceu as escadas em direção à cozinha, aonde dois jovens garotos tomavam café da manhã enquanto uma mulher velha, uma das tias, olhava-os de cara feia. Mesmo tendo voltado para sua antiga casa, em Busan, há um pouco mais de uma semana, não a reconhecia mais. Estava pintada com cores novas e elegantes, a decoração passara a ser mais chamativa e seu velho quarto tinha sido demolido e interditado para obras. Mais tarde, ele viraria um tipo de mini spa. Sora não estava contente e criara uma confusão no primeiro dia, mas logo preferiu deixar para lá. Sabia que aquele quarto não lhe pertencia mais, assim como nada naquela casa.
Não se demorou muito em absolutamente nada, nem mesmo nas conversas ou nos pensamentos de que sentiria falta do ar daquele lugar e dos rostos alegres dos irmãos. Estava cansada de ter três megeras no seu pé, tentando lhe dizer o que fazer ou como se portar como antigamente faziam. Já havia passado tanto tempo desde que acatara uma ordem dessas mulheres que Sora nem mais conseguia ser tolerante diante o comportamento incômodo e fugia para seu quarto ou para a rua. Seus irmãos não pareciam muito felizes com isso também. Pobres coitados.
O tempo mudou quando a jovem trouxe a mala junto dos objetos pessoais que sobrara do quarto; apenas algumas fotografias velhas, um gorro, uns CDs e a primeira medalha que ganhou em um jogo e a única que sobreviveu por longos quatro anos. Ainda fazia frio e as nuvens fechavam o céu, mas parara de chover. O carro já a aguardava lá fora, mesmo tendo dito que iria de ônibus até a estação. “Não seja idiota.”. Essa foi a resposta que recebera de uma das tias, a mais velha de todas, no dia anterior. Era estranho, porque aquelas senhoras não se incomodariam em levar a sobrinha com tamanho luxo para algum lugar, não mais. Mas, logo, tudo pareceu claro. Aquelas velhas a acompanhariam até o destino. E, para melhorar o dia, seus irmãos também.
Foi uma viagem meio embaraçosa. Seus tias a observavam com expressões rigorosas, porém nada foi dito até chegarem a estação. Achando que a situação melhoraria assim que estivesse lá dentro, Sora se despediu brevemente e saiu do veículo, mas se decepcionou ao ver que, não só ela, mas todos estavam do lado de fora e que eles continuariam a acompanha-la. Suspirou profundamente e apenas aceitou sem reclamações.
Longos trinta minutos se passaram e seu trem já estava a caminho. Nesse meio tempo, se distraiu conversando e zoando os mais novos sem se importar com o que as mais velhas cochichavam uma para a outra. Era bom ter irmãos mesmo que, algumas vezes no passado, quase tivessem tentado matar uns aos outros. Levantou-se feliz; os outros cinco a imitaram.
— Bom... Se cuidem. — falou meio sem jeito. Ela não era uma pessoa tão carinhosa, esse era o máximo que conseguia dizer.
— Venha nos visitar mais vezes, noona! — choramingou Jaerim, o mais novo dos três. — As tias ficam só no nosso pé, é chato. — sussurrou para a outra para que não tivesse perigo das tias ouvirem.
— Elas deveriam tentar por vocês em trajes de princesas e fazer com que atendam às aulas de etiqueta. Seria adorável! — debochou a jovem com um sorriso divertido nos lábios.
— Não é brincadeira, Sora... — disse Donghyun, o do meio, bastante sério, conseguindo tirar o sorriso do rosto da irmã.
— Você é indiferente ao nosso sofrimento, é isso?! Só porque já é “adulta”. Ridículo! — o mais novo tornou a reclamar.
— Cuidado com a boca, moleque! — repreendeu e empurrou a cabeça do garoto com a mão. Ele fez cara feia, porém, não falou nada. — Prometo que tentarei vir mais vezes. Mas não é fácil. Como você disse, eu sou uma adulta e tenho coisas para fazer... Que tal vocês me fazerem uma visita da próxima vez? Estarei esperando. Até! — sorrindo, acenou com a mão e saiu antes que dissessem mais alguma coisa.
Assim que adentrou o trem, se deteve na janela; os garotos acenavam animadamente enquanto a máquina se distanciava. Por mais que não parecesse, ela era realmente muito agradecida pelo carinho que eles lhe davam. Quando, finalmente, eles desapareceram, iniciou a busca por uma cabine vazia. Felizmente, não tivera tanto trabalho, a última cabine do corredor estava inteiramente disponível. Jogou o casaco no assento e pôs a mala no compartimento de bagagem, se sentando bem próxima da janela logo após. Os fones de ouvido foram postos e o celular ligado, uma das faixas que criara no mês anterior começou a tocar e ela perdeu-se na imensidão de seus pensamentos e sentimentos.














