Perna Cruzada
Passava mais uma edição do jornal televisivo do horário nobre. Na oportunidade, o âncora do programa entrevistava um politico em época de eleição. Eu, por volta de sete anos assistia, não entendendo nada do que era discutido. Mas, o que eu estava a prestar atenção era que o político mantia suas pernas cruzadas. Imitei a posição. Meu pai assistia a cena no outro sofá e tive que perguntar:
- Pai, homem pode cruzar as pernas?
Ele me olhou por um momento e respondeu:
- Não, homem não pode cruzar as pernas.
- Por quê? - perguntei.
- Porque não, mulher pode cruzar as pernas, homem não. Homem faz assim. - e colocou o tornozelo direito sobre a coxa esquerda: - Desse jeito ó!
A dúvida continuava, a resposta não foi suficiente. Escondido eu até sentava com as pernas cruzadas. Para homem era proibido.
Era Páscoa e fomos visitar meus avós em uma fazenda no interior. Sentado na sala com mais de oitenta anos estava meu avô assistindo a televisão, de repente ele cruza as pernas e continua a assistir. Eu estava espantado, no mínimo.
- Pai, por que vovô tá de perna cruzada? Ele pode? - e os dois se entreolharam e me olharam confusos.
Aos dez anos. E estavamos brincando de jogo da memória na porta de casa. Eu e meu pai, quando cruzo as pernas em forma de borboleta. No dia seguinte, meu pai vem me informar que as pernas em forma de “borboleta” é coisa de menina. E novamente não tinha um argumento do porque.
Com dezoito anos resolvi deixar meu cabelo crespo, que sempre foi cortado muito pequeno, crescer. E por estar mudando de cidade meu pai fica meses sem me ver. Dez meses sem cortar o cabelo e cinco meses sem o ver, a primeira coisa que me diz ao visitar:
- Oxe, corta esse cabelo menino! Vamo cortar esse cabelo!
- Pai, eu não vou cortar o cabelo porque o senhor quer, eu vou cortar o cabelo porque eu quero. Eu sou negro, meu cabelo é crespo e vou deixá-lo assim. O senhor achou feio?
Depois de um momento de silêncio ele responde:
- Não, está bonito, está bonito!
Ele não volta a tocar no assunto desde então.
Talvez eu nunca precisava saber o porque de não fazer aquelas coisas, só precisava de um porque para fazê-lo e defender, quem eu sou.
- PEPPO












