Naquele momento eu percebi que nem mesmo todo o oxigênio existente na terra seria capaz de satisfazer a minha necessidade de ser preenchida, que tudo era amargo, o ar, os doces e as cores. Naquele instante meu coração se apertou tanto que quase virara um átomo e, eu vi, que ele havia parado, por meio minuto, sua marcha frenética, só para me deixar mais em silêncio, só para me fazer perceber que naquele meio minuto uma parte de mim havia me deixado. Meio minuto atrás sua voz me fizera retorcer em agonia e, mesmo que eu tentasse esconder, alguns gemidos irromperam minhas defesas e você gemeu junto, mas em silêncio. Infinito meio minuto, em que sua dor era a minha e em que você era eu. Então o infinito chegou ao fim e meu coração voltou a acelerar e o ar a preencher e a vida voltou a ter os mesmos sabores, mas mesmo assim eu não voltei a ser eu, minha parte que se foi não voltou e o silêncio se alojou como uma nova parte de mim, pra preencher o que fora. Então, eu ouvi ao longe sua voz dizer que não devia ter dito aquilo, que não ia desligar até que eu estivesse bem, então, como um gesto automático, cansado, gravado como uma fala de um roteiro repetido eu endireitei a coluna e a alma e falei: Eu estou bem. Repeti mais de dez vezes a frase pra torna-la real, era como um desejo, repita, tenha fé, vai acontecer, eu estou bem, bem, bem, bem, bem. Eu não estava, mas você desligou mesmo assim, deixando eu e o silêncio numa brincadeira de sério diferente, quem-chorava-primeiro, eu perdi.