Marcelina e Ernesto - Festa da História 2018
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Marcelina e Ernesto - Festa da História 2018
A ralé
Será que ainda é muito correto presenciar pessoas com uma situação social precária como o resto de um todo na nossa circunstância.
As penso numa pergunta que passou num filme ( Fight Club ), em que se interrogava " se todos nós ganhsssemos o mesmo, que profissão é que escolheriamos".
O infortúnio não é uma escolha mas um conjunto de más escolhas. Se não podemos fazer dessa situação uma responsabilidade assumida, então estamos a ser covardes. Não estamos a aceitar o destino que escolhemos. Em vez disso estamos a relegar as espectativas para o acaso esperar que o mundo escreva a sua consequência.
As pessoas que não têm essa base de percepção, estarão sempre sob o julgamento de terceiros que são simplesmente intolerantes às escolhas que saem da órbita daquilo que não corresponde ao padrão das suas espectativas sociais.
Será que numa época em que tudo é uma contrariedade para lidar com esse complexo padrão, é ainda justo julgar quem está a margem da caixa comportamental .
Somos um todo num puzzle de cores que se encaixam de forma a resultar num retorno dopaminico.
Estamos tão dependentes em ser recompensados que já não toleramos uma escolha alheia que traduz num destoar da paleta que completa a obra que é pintada pela obra que perpetuará a nossa vida.
Temos sempre de estar dentro da redoma e alguém e de ser o resultado da opção fora dessa ordem. Mesmo que não seja nefasta para um todo. Ser diferente é um incomodo que se traduz em diferentes tons. Mas o padrão do infortúnio é sem dúvida distorcido e jogado fora do baralho sem escrúpulos. Porque o medo de aí cairmos é comum a todos e não há medo maior na nossa sociedade que a igualdade. Todos a desejamos mas ninguém quer verdadeiramente vivenciar. Somos todos ralé com o mesmo destino físico final. Mas só fazemos a diferença se trilharmos um caminho de impacto na jornada que nos leva da existência até ao nosso fim.
A ralé dá seus jeitos
A “sociologia do jeitinho” <<
Jessé Souza argumenta que a ralé estrutural brasileira, “como a classe do ‘corpo’ por excelência” (a razão das aspas não é clara), é “desprezada e não-reconhecida” por não contar com os “pressupostos emocionais e morais”, seja da dignidade do agente racional – que Souza (2009, p. 398) associa à disciplina, ao auto-controle e à capacidade de pensamento prospectivo –, seja da expressividade do “sujeito diferenciado” – ligado ao culto à sensibilidade. Para o autor há, na essência das instituições modernas mais importantes (“mercado competitivo e Estado centralizado”), dispositivos que elevam e humanizam alguns ao passo que animalizam outros:
Mercado e Estado, ao monopolizar todas as chances, não só de sobrevivência material, mas principalmente do prestígio, do reconhecimento social e da autoestima associada ao sucesso econômico, constituem os indivíduos flexíveis, dóceis e disciplinados dos quais necessitam para se reproduzir no tempo (Souza, 2009, p. 399).
Para Souza (2009, p. 400), “os requisitos sociais do trabalho produtivo são os mesmos da cidadania política”. Para adaptar-se ao ritmo produtivo da máquina e da fábrica capitalista, e portanto para tornar-se cidadão e sujeito político em algum sentido relevante, seria necessário ao membro da ralé “autocontrole, disciplina e a noção de autorresponsabilidade” que, por sua formação, ele não tem. Assim, a posição dominante das classes média e alta se explicaria pelo acesso exclusivo às “capacidades da disciplina, do autocontrole, do cálculo prospectivo que permitem a ideia e a prática da noção de personalidade autorresponsável e racional” (Souza, 2009, p. 404). O que Souza aponta, com razão, é como os processos de subjetivação como indivíduo, na nossa sociedade, não contam puramente com aspectos externos e formais, relacionados à interface entre o sujeito e o Estado, mas também com elementos ligados à própria formação das potências do corpo.
Souza começa, assim, a responder à pergunta que ele mesmo formula: “Por que essas pessoas não reagem politicamente à sua humilhação cotidiana?” (Souza, 2009, p. 402). A resposta oferecida é evidente: porque não podem. Porque estão despossuídos de qualquer potência de ação política que pudesse tirá-los da sua condição precária – aí inclusa a mera vontade de mudar de condição, para além da possibilidade de trabalho produtivo e de pensamento racional. Tanto é assim que, para Souza (2009, p. 403), o único caminho para transformar a situação de desigualdade social brasileira, a exemplo de certos países europeus, parece ser “uma tomada de decisão refletida e consciente com intervenção dirigida do Estado, da Igreja e de associações civis”. Em uma passagem de ares distópicos, o autor dá a entender que só pode haver igualdade real na medida em que os indivíduos, mediante um “processo de aprendizado coletivo”, sejam “tornados iguais” no sentido de internalizarem “disposições semelhantes de comportamento em alguma medida significativa” (Souza, 2009, p. 400).
Parece claro que, para Jessé Souza, a ralé brasileira se distingue pela absoluta impotência de ação, sendo sua única salvação possível um resgate “de cima” a partir do Estado e de outras instituições caridosas, como a Igreja. Em sentido contrário a esse, procurei recuperar a noção de jeito, tão criticada pelo autor, como chave a partir da qual pensar a potência dos impotentes e, sobretudo dos seus corpos enquanto corpos, já que a hipótese de que a ralé seja um “puro corpo” em nada significa que ela não tenha potência – a capacidade que os de baixo mostram de, na contramão de toda probabilidade, continuar vivendo e, mais que isso, de criar o seu próprio mundo.
Por um jeito de pensar o jeito <<
Inteligência e esperteza <<