Seis horas da tarde. Repicam os sinos. Anunciam a passagem de Mais um dia. Um dia a mais. Um dia como tantos outros que vivi e que outros viveram: Máquinas batendo, pessoas falando, enxadas sulcando a terra, pedras sendo amontoadas, vozes quebrando o silêncio fúnebre do meu interior… E as andorinhas, ah! as andorinhas estão volteando as árvores da praça, chilreando, chilreando à procura de um ensejo entre as folhagens para pernoitarem. Gente correndo, carros buzinando, luzes se ascendendo, portas se fechando. E o cheiro da terra úmida tomando conta de tudo e de todos. Mais um sinal da vinda da senhora noite e ida do senhor dia este filho de uma… Ressoa no espaço a Ave-Maria, esta que amolece os corações daqueles que perderam, perderam e só lamentam; às vezes choram, transbordando d'alma seus sentimentos e suas mágoas. E isto foi e sempre será o fim do dia. O espetáculo tem seu majestoso epílogo quando o deus Sol se põe entre os montes pontiagudos banhando-os de luz vermelha. Oh! Vermelho! Vermelho do meu sangue. Sangue que corre em minhas veias e também nas suas fazendo-nos irmãos irmãos de corpo e alma, irmãos, filhos do mesmo pai. O espetáculo. E agora a Lua. Finalmente a deusa Lua vem banhar de prateado nossas bronzeadas faces, bem como nossos tristes e frios sepulcros. E assim termina mais um dia. Um dia de sonho. Mais um dia que sonhei… Acordado. E no banheiro.
Aguinaldo Ricieri, O Despertar dos Deuses (Poema citado no livro “Buraco Analista”).












