won't you shut the f*ck up?
Self-para.
trigger warning: menção a violência;
Se estava tudo bem? Aparentemente, sim. Daesung sempre foi muito bom em se manter no controle das suas próprias emoções; isto é, quase sempre. Afinal a raiva é algo que não se pode prever, pode? Talvez Daesung só estivesse bêbado demais para ter certeza de que aquilo ia dar merda. Ou talvez ele só não estivesse nem aí para o que aconteceria dali para frente.
A segunda opção sempre era mais viável do que a primeira.
Muito honesto consigo mesmo Daesung jamais foi capaz de mentir, ou omitir alguma coisa. Muito pelo contrário, nunca teve medo das reações das pessoas diante da sua sinceridade quase cruel; rude. Grosseira. E quando ele deixou o dormitório mais cedo com nada mais além do seu maço de cigarros e a carteira não imaginava que voltaria ao fundo do poço que com muito custo ele lutou para sair.
A verdade é que ele mal via qualquer coisa à sua frente. A bebida tem dessas. Havia passado do seu limite horas atrás, e agora vagava pela rua em busca de outro lugar onde pudesse afundar-se no banco e ficar ali, com uma outra garrafa de vodka na mão escutando alguém tocar qualquer coisa ao fundo só para distrair a mente que trabalhava em turbilhão. Ele nunca precisava de motivos para estar como estava agora, mas naquele dia parecia que nada iria colocá-lo no lugar. Não queria falar com ninguém. Não queria olhar para ninguém. Queria pura e simplesmente beber. Um coma alcoólico cairia muito bem. E ele nem havia chego aos dezoito ainda. Decadente.
A risada seca ecoou assim como havia feito quando um cara robusto se sentou ao seu lado. O que mais ele esperava? À essa hora só se encontra na rua a escória. Ele incluso. Bêbados, drogados... Arruaceiros. E Daesung se encaixa em todas as categorias. Seus pais estariam orgulhosos.
Um novo riso. Agora amargo, sem humor algum, e antes que pudesse notar já estava com a garrafa na boca de novo. Outro gole. Você aprende a se virar quando é mandado a um reformatório por causa de um escândalo que poderia arruinar a carreira do seu pai, sabe? E Dae sempre se virou muito bem sozinho. E continuava a fazê-lo. Não queria e não precisava pedir a ajuda de ninguém.
Mas no fundo Daesung sempre soube que na verdade essas crises são pedidos desesperados por ajuda.
E se ele fosse sentimental uma lágrima escorreria só de pensar sobre isso; mas ele não é. Muito pelo contrário, o oposto de sentimental seria não sentir? Mas Daesung sente, ele só aprendeu a selecionar o que vale a pena sentir e por quanto tempo. E no momento ele só sabia sentir raiva. De si mesmo. Do cara que não calava a boca do seu lado. Da garrafa vazia que ainda estava nas mãos. Gritar não adiantou e o cara continuou falando, e falando, e falando. É de irritar qualquer um aquela faladeira quando a única coisa que Dae queria era ficar quieto. Sozinho. Ele e seus demônios pessoais... Todos temos um desses, certo? Daesung tem vários. Diversos rostos que passaram por sua estadia na Inglaterra e que ele não fazia questão de lembrar os nomes, mas que sua mente estava inclinada a fazê-lo se lembrar todas as vezes que se embriagava just because.
Como um recado do subconsciente de que ele precisava encarar o passado para, talvez, ser perdoado algum dia.
Outro riso, mas agora o som foi acompanhado da garrafa se chocando contra o balcão do bar. A garrafa se quebrou e finalmente o retardado se tocou que estava falando demais e que Daesung já não aguentava mais ouvir sua voz. Queria-o calado.
Um grunhido e Daesung cambaleou na direção do desconhecido; nem é preciso dizer mais o que aconteceu, já que é claro que ele foi expulso do bar. Para a felicidade do boca de matraca. Desde que voltará da Inglaterra que Daesung não se sentiu dessa forma, até hoje. A urgência de espancar alguém até que a respiração falhe. Ou até que o maxilar se desloque e você escute aquele "creck" característico de um osso se quebrando.
As mãos fechadas em punho, e Daesung passou a cambalear agora pela calçada, sem saber ao certo onde estava. A única coisa que ele sabia era que se alguém cruzasse seu caminho iria se arrepender. Assim como ele se arrependia todos os dias por ter colocado um colega de classe em coma. Porra! Mais uma memória descartável, mas que fora o bastante para fazer Daesung urrar de raiva; no meio da rua, para ninguém em particular. A visão turva, as roupas fedendo à álcool e cigarro. Ele não tinha para onde ir. E se tivesse, quem o iria receber daquela forma? Parecendo um mendigo.
Who cares? Daesung apenas fechou o punho e desferiu um único e preciso golpe contra a porta de vidro de algum lugar que ele nem se deu ao trabalho de ver o que era. O vidro se despedaçou e uma onda de dor intensa atravessou seu braço e desceu por todo corpo. A adrenalina, no entanto, subiu como se estivesse por um momento liberado da embriaguez e Daesung começou a correr; rindo consigo mesmo da sua idiotice.
Sim, Daesung você é um completo retardado, that's fucking official.
Um grunhido novo escapou e Dae parou, ofegante. Agora já não tinha ideia de onde estava, de verdade, e não tinha nem um celular para pedir auxílio. Mas também, para quem ele ligaria àquela hora da madrugada e do que isso adiantaria? Dae esticou a mão à frente do corpo, tentando focar nos movimentos que fazia com os dedos. Doía pra caralho. Mas se mexiam, o que significava que não estavam quebrados. Isso é algo que se deve agradecer, afinal, como explicaria aquilo para o treinador na segunda? O peso na consciência já começava a bater, mas pensando positivamente? Poderia ser aquele filho da puta que não calava a boca. E ele poderia não estar vivo agora, então, era algo bom que tivesse sido uma porta de vidro e não aquele infeliz que lhe tirou do sério sem muito esforço.
Ele voltou a mover a mão, mas sem sucesso. O pulso travou e a dor foi tanta que Daesung recuou e agachou-se contra a parede. Não estava quebrado, mas porra! Porra! Porra, porra, porra, porra! Doía pra caralho. O moreno retirou a blusa que vestia, e apesar do frio improvisou uma tipoia, amarrando bem o pulso dolorido na esperança de que melhorasse com o tempo. É mesmo sem saber onde estava, vasculhou os bolsos atrás de algum resquício de dinheiro para não dormir na rua. Desorientado e sem qualquer preocupação sobre como faria pra voltar pro dormitório na manhã que se aproximava ele entrou no primeiro hotel que encontrou; podre, mas também, com aquele resquício de dinheiro que tinha o que esperava? Tinha um teto e uma cama, era o bastante.
E quando a dor amenizou, Daesung se pegou num sonho onde ele finalmente espancava o idiota que não calava a boca, até o sangue manchar suas próprias roupas.