Expressar Sensualidade
Realizamos uma Entrevista à Jessy! A jovem feminista madeirense e emigrante fala-nos da sua perspetiva sobre a Mulher e a Sensualidade.
“Fala-nos um pouco de tu como Mulher, o que é isto de ser Mulher?
Ser mulher, o mais importante de ser mulher é termos de confirmar em nós mesmas, eu acho que hoje em dia a nossa confiança vem ao longo dos anos, não é espontaneamente. E poder já trazer isso da nossa família, essa confiança. Eu acho que hoje em dia ser mulher é tudo e mais alguma coisa.
Achas que houve alguma mudança do que era ser mulher antes do século XXI e do que é ser mulher agora, no século XXI?
Sim! Bastante! Bastante mesmo! Isso já comecei a reparar mais com as histórias que a minha avó dizia, que antigamente, claro que a mulher ficava em casa, casava e tinha filhos, era só isso a vida delas. E até mesmo com os nossos pais, já havia uma diferença uma diferença com os nossos pais, mas havia sempre algo que a mulher já tinha um papel predefinido. E cabia neles próprios, na própria família como mudavam. Mas no sistema, já havia um papel para cada um predefinido.
Atualmente cada vez mais vemos as mulheres serem fãs de questões de beleza, de moda, que vêm a mudar aos longos dos anos. O que é que achas que agora algumas mulheres serem repreendidas por usarem uma saia mais curta ou um top que mostrem a barriga, etc?
Para mim essas questões… Quando a pessoa é contra é ridículo, porque antigamente uma mulher nem podia usar uma saia que mostrava o joelho e isso hoje em dia a pessoa não consegue pensar que é uma coisa infantil. Eu acho que hoje em dia se a pessoa se sentir confortável é o que interessa! Não sei porque é que as pessoas vão comentar isso, se sentem assim não muito confortáveis, porque não são elas que estão a vestir. Eu acho que hoje em dia o corpo humano, especialmente o da mulher, não devia ser tão sexualizado como era antes, deveria já ter mudado.
Fala mais sobre essa questão se sexualizar o corpo humano. O que queres dizer com isso?
Ao longo dos anos nós sempre sexualizamos o corpo humano, especialmente o das mulheres, mas não podemos esquecer o corpo dos homens também. O dos homens é só o abdómen, o peito não é muito comum de ver. A mulher também sempre foi muito mais sexualizada, porque nós concebemos vidas, daí a sexualização. E já vimos isso nas pinturas, nas estátuas e isso tudo. Mas hoje em dia as pessoas estão a chamar mais atenção porque a internet ajuda e é muito mais fácil para encontrar a essas imagens e ganhar mais informações e comentar. Mas com esse avanço, devia também haver o avanço de não sexualizar tanto o corpo de uma pessoa. Para mim é maldade. E faço esta questão a todas as pessoas que eu conheço, se a pessoa vai sexualizar bastante o corpo de uma pessoa, ninguém pode andar na rua porque vai ficar com o corpo “quente”. Agora eu não vou falar consigo? Não é uma pessoa normal? Por isso acho ridículo as pessoas dizerem que é um abuso, que é muito exposto. Então eu pergunto, mas você quando anda na rua sente-se um bocadinho envergonhada de ver as pessoas? Qual é diferença de olhar para uma imagem? Isso já tem a haver coma pessoa, claro que é difícil mudar isso, vem da pessoa, também da educação, da família. É por isso que é um assunto bastante sensível porque chega a muitas coisas.
Falamos aqui então na educação, em raízes famílias, também a própria Escola e os media. E agora o papel do mulher dos media, muitas pessoas aparecem nuas nas redes sociais, nos sites, na tv. Até que ponto que uma pessoa da população geral poderá distinguir que é algo socialmente saudável ou um propósito dos media por exemplo para ter algum mérito com isso?
Pois, aí é um bocado difícil, porque a pessoa não consegue ver a história por detrás da fonte, o que há por detrás da cortina. Quando a pessoa já está naquelas atividades de provar alguma coisa, aí já se sabe que é vontade própria. Agora quando é marketing, as pessoas têm de pensar se são forçadas ou não, porque muitas pessoas vão assinar contratos e são jovens ainda e não sabem muito bem como funciona, são enganados e forçados a se expor. Mas aí têm o direito de dizer não! Mas claro, a pessoa não sabe o quanto isso custa, pode custar o trabalho, a custa. Mas hoje em dia, com as modelos conhecidas elas tem o direito de dizer não ou sim (…) por exemplo a Naomi foi uma das primeiras modelos negras que foram consideradas muito populares e ela muitas vezes disse em entrevista que recusou muitas coisas, porque já não era do género dela, mas claro que ela já tinha aquele poder. Mas aquelas que não tê, para dizer não… Eu acho que é importante as pessoas que têm esse poder, esse papel, que devem dar informação às pessoas que vão começar e que têm o direito de dizer sim ou não. Isso pode começar com pessoas com já alguma fama. Mostra que não há vergonha de mostrar o corpo, sim, mas há pessoa que não o querem.
As mulheres devem reconhecer os seus direitos em vários campos.
E os homens também. Há homens que não se querem expor, que não querem fazer certas coisas porque vai contra as suas crenças e o seu feitio e claro eles têm aquele padrão do “sê homem”. Isso tem de começar com uma pessoa que já tem um certo poder e mostrar que não erro nenhum.
Tu agora trabalhas atualmente numa loja de lingerie. Como é, os teus clientes são maioritariamente mulheres, homens, sentem-se à vontade de entrar na loja?
Temos mais homens do que mulheres da Arábia Saudita, o que é interessante, visto que eles são muito conservadores e não falam muito disso. E eu acho que é para todos. A minha loja e a companhia nós gostamos de dar valor à mulher (…) e entender isso. A patroa faz parte da comunidade LGBT e quis focar-se na mulher, mas também quis ajudar os homens. Agora anda muito tabu com a nossa loja, com as fotos e tudo, com as companhias e até mesmo com as que trabalham lá. Que é só raparigas, são as nossas regras, são só mulheres que podem trabalhar lá. Por vezes há azar, em que as pessoas não respeitam, não pensam que é apenas o nosso trabalho e pensam que têm o direito de lá ir e julgar-nos por sermos demasiado sensuais, mas é um trabalho. Aí eu acho triste e eu já vi raparigas que tiveram a desistir porque tiveram traumas com isso e eu acho uma injustiça. A pessoa tem que ter mais “cabedal” para aguentar, eu não devo mudar de pessoa por causa da nossa profissão (…). Não quero dar a ideia que sou “tarada”, mas na cabeça deles, no nosso trabalho somos. É como ser atriz, nós estamos a vender uma fantasia, mas ajudamos muitas mulheres e até homens que lá vão. Eu tive um cliente que ele já devia estar na casa dos 70 ou 80, ele é LGBT e nunca se sentiu à vontade até hoje em dia para tocar numa lingerie e eles ficam espantados que nós estamos tanto sem tabus e eles ficam admirados e pensam que vão ser julgados. Até mesmo as mulheres. Eu tive uma mulher que perdeu um filho (…), é um trabalho que só mesmo quando tiveres a trabalhar é que ves que é sensível, tu ajudas as pessoas. Aquela mulher que perdeu o filho nunca se sentiu sensual e poderosa. E quando tu estás nos provadores com eles, tu vês a pessoa ali, ali que é que se abrem mais. Além de trabalhar na loja (…) gerente, eu sou também “psicóloga”. Ali os homens e as mulheres abrem-se contam as suas histórias e nós ajudamos. Por isso eu adoro o meu trabalho! Adoro! Adoro ajudar as pessoas a voltar a se encontrarem.
E como seria essa loja aqui na Madeira. Haveria essa adesão?
Eu vou ser sincera consigo essa loja aqui na Madeira não é para agora! Estou a ser sincera agora. Há muito para aprender na Madeira e eu sei que vou ofender pessoas da Madeira. Eu sou da Ilha e adoro a minha Ilha. E dos anos que vivi cá eu já vi muita coisa a mudar, mas só de saber que essa loja já causa tanta polémica na Austrália e no Reino Unido, eu não imagino em Portugal. Mas se fosse para abrir aqui talvez as pessoas abriam-se mais e isso. Mas eu já consigo ver isso, porque não tem Victoria Secrets, por exemplo, e é uma loja muito mais “leve”, até mesmo na secção da H&M ninguém toda lá. Porque o sexo aqui, principalmente em Portugal é um tabu, é por isso que ainda vai levar um bom tempo até que a sexualidade/sensualidade da mulher possa chegar cá.
Então para finalizarmos, que frase tens tu a dizer sobre esta questão das Mulheres e da Sexualidade/Sensualidade.
É assim! Não há pressa! Leva o teu tempo. Quando te sentires confortável. Eu só comecei e sentir-me confortável aos 24, mas isso claro vai depender de ti! Não deixes que ninguém mude a tua maneira de ser e acredita nas tuas decisões. Se tu quiseres expor-te ou falar fala, não há medo nenhum, não há mal. Eu acho que as mulheres têm medo de falar, porque têm medo de falhar, tu também consegues, tens é de te focar em ti mesma. (…) E quando ser a altura certa, nem te vais aperceber até te encontrares á frente do espelho! (…)”
Muito obrigada Jessy! Uma boa entrevista!
Interviewer: Jenny Gomes by Mad le’s Femme
Interviewee: Jessy
Photo: Jenny Gomes | Model: Jessy
Mad le’s Femme
















