Rafe aproximou perigosamente o dedo indicador de seu rosto, apesar de imaginar que a intenção do primo é apenas empurrar seu óculos para cima, a mão do Villiers não tarda em o acertar com um tapa inofensivo, porém eficiente para interromper o contato. As pupilas verticais se erguem para visualizar o rosto do Burton, ”Não toque no óculos, Daren”, o tom de voz é quase um cicio, em resposta, o grifinório o presenteia com um revirar de olhos ao mesmo tempo em que ocupa o banco à sua frente, em consequência, Kissa abandona o local, o miado contrariado o faz sorrir em compreensão. Alguns minutos depois Eron os alcança, diferente de Rafe, não parece se importar de estar invadindo o vagão da Sonserina. Nudd escorrega os olhos pela roupa do gêmeo, a desordem cria um vinco entre suas sobrancelhas, havia se esforçado para que o rapaz se vestisse apropriadamente, mas pelo visto, não fora o suficiente para durar até chegarem em Hogwarts. Rafe fechou a porta da cabine, ignorando os avisos do sonserino sobre Persophone estar para voltar, preferiu justificar que não irão demorar para acertar a aposta.
Conforme um novo membro da família Rafferty ingressa em Hogwarts, os três rapazes apostam a respeito de qual casa o acolherá, até então, Nudd teve a perspicácia de acertar todas as vezes em que participou. Fechou o livro, deixando-o por cima de seu colo antes de anunciar com confiança suas deduções: Bat irá para a Sonserina, já Gwin deverá ser escolhido para a Corvinal. Rafe riu sonoramente, como se fosse uma ideia ridícula, explicou que não há como Bardot com toda sua graça ser justamente sonserina, e assim, apostou no extremo contrário, Lufa-Lufa, por outro lado, concordou com a posição dada à Gwin. Eron demorou três segundos antes de dizer que acredita que Gwin será um grifinório orgulhoso, ficou em dúvida quanto à Bat, soa estupidez duvidar daquilo que Nudd crê quando é o mais próximo do menino, ainda assim, parece estranho o imaginar com vestido com verde e prata, por fim, acaba concordando com o mais velho, Bat irá para a Sonserina. Rafe sorri de canto, quase como se estivesse anunciando previamente a vitória, Eron não demonstra tanta segurança, Nudd permanece com a expressão tranquila.
— Quero o valor da surpresa. — As palavras são quase sibiladas, os lábios se curvam sutilmente, tanto o irmão quanto o primo o encaram com descrença. O valor da surpresa configura em cobrar qualquer coisa, em qualquer momento, sem que o devedor tenha a oportunidade de recusar aquilo que é pedido. A tradição da família Rafferty não tende a ser utilizada com banalidade, mas não é como se Nudd se importasse, assim ao ver Rafe querer retrucar, não se incomoda em o cortar. — Se está tão convencido de seus palpites não deveria recuar.
— Aceito o valor da surpresa. — Eron dá continuidade, neste momento tem certeza de que Nudd irá ganhar a aposta, de caso contrário não pediria por isso, e Rafe também o sabe, mesmo que inconscientemente, e dessa forma, demora mais alguns segundos antes de aceitar.
A primeira semana de aula havia sido extraordinária aos olhos do Villiers, não só saiu vitorioso da aposta, como também o êxtase do início do ano letivo começa a se cumprir de maneira agradável, particularmente, conseguir modificar seu horário para se encaixar ao de Eron foi um feito quase capaz de o fazer resplandecer. Amalie possui sua cota de motivos para não permitir os gêmeos nas mesmas turmas, mas deixou-se convencer depois de alguma chantagem emocional, e mesmo sabendo ser apelo manipulativo, deixou-se levar pelas justificativas do Villiers. Garantir que Eron consiga passar de ano é sempre um dos seus desafios pessoais, por mais que o mais novo não aparente se importar tanto com este ponto, está além das rédeas de Nudd consentir que o irmão não o acompanhe no desenvolvimento letivo. Além disso recebeu um bônus, com o fim das férias de verão teve de tolerar Rafe e Eron tagarelando sobre a festa que dariam assim que retornassem, seria fenomenal, afinal, Lester não só cedeu a casa da família em Hogsmeade, como também concordou em passar uma boa quantia para os garotos, seria um evento tão exclusivamente grifinório que Nudd tratou de ignorar o assunto.
Ao menos, foi o que fez até ser interpelado pelos garotos, e então veio seu regalo. Lester se aborreceu com o filho, levando Rafe conseguir um castigo por alguma proeza não explicada, e o Villiers não testou para descobrir o motivo de descontentamento de seu tio com a prole, não levaria a lugar nenhum, além de não ter motivos para brincar com a paciência defasada de Daren, no mínimo ganharia um hematoma caso insistisse. Precisavam de alguém capaz de conseguir o dinheiro necessário, então recorreram à provavelmente, o único Rafferty com o discurso liso o suficiente para conseguir mudar a opinião de Lester Rafferty-Burton. Mas cobrou seu preço, quis o direito de convidar quem desejar. Nenhum dos outros dois precisaria ser muito esperto para saber que Nudd estenderia o convite para quem bem entendesse sem preocupar-se com possíveis desavenças e inimizades suas. Mas Rafe ainda assim esperava que o sonserino não tivesse o atrevimento de chamar o grupo de Loke… ficaria surpreso caso visse com quanta fluidez Nudd solicitou a presença do McBeth e de seus amigos.
O barulho vindo do andar inferior os alcança enquanto selam a passagem para o segundo andar, Lester fora claro e categórico quanto não ser permitido o acesso ao espaço, e diferente do primo, Nudd não não é capaz de encontrar coragem o suficiente em si para bater de frente com as ordens dadas pelo tio, talvez as burlar com sutileza, mas não desafiá-las escancaradamente. Assim que retornam para a sala, seu sorriso mais insolente é destinado à equipe de quadribol da grifinória, esses por sua vez, compõem quase por completo o grupo íntimo de Rafe, e mesmo não se misturando com os outros, também possui seu espaço nos particularidades de Daren para saber que ao menos três dos seus amigos não o toleram. O espaço é bem ornamentado, o piso de madeira cobre toda a sala, por segurança, retiraram todos os tecidos e tapetes do local, afastaram alguns móveis e outros foram colocados para bebidas e comes serem servidos, do teto, inúmeras lâmpadas pendem rodeadas por pontos cintilantes, ao seguir para a varanda o espaço se abre, os pequenos sofás são acompanhados por mesas baixas, nas paredes, a cerca viva de hibisco vermelho se ergue vistosa.
Os dedos se fecham ao redor da garrafa dourada de champanhe, o gargalo é enfeitado com uma cobra feita de cristais e os olhos são duas pedras brilhantes de esmeralda, uma verdadeira jóia que acabará guardada entre seus pertences assim que a bebida acabar. Eron questionou a necessidade de algo do tipo, o rapaz deu de ombros, havia pagado por ela e algumas outras regalias cujas quais não pretende compartilhar com qualquer companhia, não deixaria de acariciar a própria vontade apenas por falsa modéstia. Na outra mão, três taças são presas pelas pontas entre os dedos esguios, ao sentar-se junto de Astra e Azura, as oferece para depois servir a bebida, a garrafa então é deixada sobre a mesa, os olhos ainda se encantam com as pedras preciosas. O corpo relaxa e então passa a prestar atenção à conversa das garotas, Azura conta com tranquilidade das férias na França, em alguns momentos comenta a respeito de um rapaz que não recorda de ouvir o nome, Archie, pela forma como as bochechas ficam rosadas, é fácil pensar ser um enamorado. Em alguns momentos faz suas próprias perguntas e observações, mais interessado em ouvir do que realmente falar, parte de sua atenção está em analisar o outro lado do ambiente.
— Gostaria de estar apaixonado, você faz parecer encantador. — O comentário despretensioso arranca um riso leve da lufana, o fazendo completar a fala ao voltar-se para a irmã caçula. — Talvez nós devêssemos ter um pouco de paixão em nossas vidas. — O sorriso continuou em sua expressão por mais alguns segundos, manteve os olhos em Astra, imaginando uma versão sua fascinada por causa do amor. Instantes depois a sobrancelha estava arqueada, os olhos observando Nina Gardd próxima de um Rafe um tanto carrancudo. — Gostaria de entender qual o encanto de Daren para conseguir tantas namoradas em tão pouco tempo. — Não é apenas uma provocação, é de fato uma curiosidade. Não que seja um exemplo de namorado, mas ainda consegue se surpreender com o quão alheio o primo pode ser com seus relacionamentos.
— É muito simples. Um e oitenta de altura, olhos em azul egípcio, bastante popular, e tem uma conversa que ainda atrai e ilude. Nada realmente novo, a escola está cheia desse tipo, mas continuam sendo estranhamente cativante. — A descrição dada por Azura o faz rir baixo, mas não discorda, apenas mantém os olhos na menina ao vê-la terminar o champanhe em sua taça. — Talvez, seja uma coisa de família, não lembro de ver nenhum Rafferty fazendo tolices por paixão. — A voz é divertida, mas os olhos azuis brilham em direção à Astra como se quisesse a fisgar pelo assunto e amolecê-la até os ossos.
— Quando foi a última que se sentiu assim? — A pergunta é feita ao mesmo tempo em que a Woolridge aninha-se ao corpo da amiga, Nudd move-se um pouco mais para a ponta do sofá, abrindo mais espaço para as meninas. — Não me lembro de um momento em que realmente estive envolvido. — “É um tanto frustrante”, a frase não chega a ser verbalizada, mas circula por sua mente ao passo que bebe do champanhe.