[flashback]
As últimas semanas de Athaliah estavam sendo no mínimo bizarras, em poucas semanas sua vida deixou de ser um constante pesadelo e tornou-se uma caixa de surpresas. Foi apresentada e introduzida a um mundo completamente novo, um mundo que por muito tempo pensou existir apenas na ficção, e, por mais que soubesse que era diferente das pessoas que um dia chamou de família, descobriu que existiam seres mais ou pelo menos tão diferentes quanto ela. Era assustador e reconfortante.
Sentada em uma sala de aula, Liah - como agora preferia ser chamada - prestava atenção e fazia anotações sobre a matéria que o professor explicava. Mal se lembrava da última vez que frequentou regularmente uma escola, já que anos atrás, quando teve seu breve período de fama, os Montanari haviam decidido que a educação da menina seria feita em casa com professores particulares para evitar o assédio, e após a aparição da velha bruxa que alegou que Athaliah não era um milagre divino ou um anjo enviado diretamente pelo Deus deles as visitas dos professores tornaram-se mais espaçadas até quase pararem completamente, ela se tornara um ameaça e o foco era despossuir sua alma.
Era exatamente sobre esse assunto que a aula se tratava, a história relatava que o tratamento que recebeu dos humanos ao descobrirem quem realmente era já foi algo comum, centenas de bruxas foram queimadas, exorcizadas, consideradas demônios, seres terríveis e indignos da compaixão. As palavras do professor pareciam ser socos em seu estômago, respirar começou a ficar difícil, o coração palpitava descontroladamente, tudo acontecia novamente em sua cabeça, todo o sofrimento, toda a angústia, o medo irracional fazia suas mãos tremerem. Olhou em sua volta, ninguém mais estava sentido aquilo, só ela parecia estar entrando em colapso. Não podia mais ficar ali, não aguentaria.
Levantou e sem notar todos os olhares voltados para ela ou a voz do professor perguntando se bem, saiu da sala, talvez estivesse correndo, não sabia exatamente pois já não dominava seu corpo nem sua mente. Virou alguns corredores sem destino certo, até parar em um que estava deserto e sentar-se ao chão, encostada na parede. Só então percebeu que lágrimas rolavam por seu rosto, sentia calafrios pelo corpo todo e um desespero enlouquecedor.
@solvrvnorwood












