Capítulo 4 - O Azul na Névoa de Vapor
O sol mal rompia o horizonte, e a cidade de Nova York já estava acordada, ressoando com o som de engrenagens, apitos de vapor e o movimento incessante das máquinas que mantinham aquele mundo em funcionamento. No terceiro andar de um prédio de tijolos cobertos de fuligem, uma mulher despertava.
Senhora Blue sentou-se na beirada da cama, os cabelos azul-turquesa caindo levemente sobre os ombros. O tom vibrante contrastava com a palidez de sua pele, e o quarto à meia-luz parecia uma pintura em tons de cinza e azul. Ela esfregou os olhos, espantando os últimos traços do sono.
No armário, suas escolhas estavam alinhadas com precisão quase militar: vestidos de corte elegante, todos em tons escuros, adornados com detalhes em renda ou couro, que combinavam com o mundo a vapor que ela habitava. Ao lado das roupas, em uma prateleira separada, estavam seu coldre de couro preto e um revólver Webley Mk VI, herança da Primeira Guerra Mundial. Era pesado, confiável, e um dos poucos objetos que a faziam sentir-se segura no mundo instável que a cercava.
Ela ajustou o coldre à cintura, escondendo-o discretamente sob o casaco longo de lã que escolheu para o dia. Nas botas de couro, finas e bem ajustadas, havia ainda uma pequena faca, caso a situação pedisse algo mais silencioso.
O espelho revelou sua imagem final. Seus olhos fixaram o reflexo, avaliando a própria expressão. Fria, mas impecável. Emocionalmente distante, mas decidida. A vida havia lhe ensinado que fraqueza era um luxo que não podia se permitir, especialmente em uma cidade cheia de lobos.
Ela pegou seu chapéu de abas curtas, colocou-o com cuidado e saiu para enfrentar mais um dia.
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O Covil dos Lobos.
A delegacia de polícia era um prédio antigo, com colunas pesadas e máquinas a vapor que faziam os elevadores funcionarem. Senhora Blue caminhava pelos corredores com passos firmes, os saltos ecoando no chão de mármore. A sala principal estava cheia de vozes altas, papéis amassados e o cheiro forte de tabaco misturado ao óleo das máquinas.
Assim que entrou, as conversas diminuíram por um instante, apenas para serem substituídas por risinhos abafados e piadas de mau gosto.
— Olha quem chegou, a nossa Madame Elegância! — bradou Miller, um policial corpulento com uma barriga proeminente e um ego ainda maior.
— Será que a Senhora Blue está investigando os designers de moda agora?
Outro colega, sentado em sua mesa, acrescentou com um riso sarcástico:
— Ou talvez ela esteja aqui para ensinar os criminosos a costurar roupas mais finas!
Senhora Blue parou, seu olhar afiado pousando sobre os homens como uma lâmina de gelo.
— Impressionante como vocês conseguem falar tanto e produzir tão pouco. Miller, já encontrou sua dignidade hoje ou ainda está procurando?
O riso preencheu a sala, mas desta vez à custa de Miller, que ficou vermelho como uma caldeira superaquecida. Senhora Blue seguiu para sua mesa sem dar outra palavra, ignorando os olhares que a seguiam. Trabalhar ali era como andar em uma corda bamba sobre uma multidão de hienas, mas ela aprendera a dominar esse ambiente com inteligência e desprezo calculado.
Por volta das três da tarde, o capitão Briggs chamou-a para sua sala. O homem, de postura rígida e semblante sério, era um dos poucos que não a tratavam com desdém. Ainda assim, até mesmo ele mantinha um ar de ceticismo ao lidar com suas capacidades.
— Blue, temos algo incomum para você — começou ele, empurrando uma pasta para ela.
Ela abriu o documento com cuidado. Havia poucos detalhes: um homem, aparentemente capaz de se teletransportar, fora avistado no Central Park. Não havia nome, apenas um relato vago de uma testemunha que alegava tê-lo visto desaparecer em pleno ar.
— E por que isso veio parar na minha mesa? — perguntou ela, com a voz baixa e controlada.
— Porque, se for verdade, não é algo que meus outros detetives possam resolver. E porque você tem uma habilidade para... enxergar além das aparências.
Ela fechou a pasta e levantou os olhos para ele.
— Ou seja, é um caso estranho demais para eles e conveniente demais para mim.
Briggs deu de ombros, ajustando o monóculo.
— Apenas tome cuidado, Blue. Algo nesse caso não cheira bem.
Enquanto caminhava pelas ruas de Nova York em direção ao Central Park, o som das máquinas e o vapor que escapava das caldeiras criavam um cenário quase irreal. Senhora Blue ajustou o chapéu contra o vento e deixou que seus pensamentos vagassem.
O que significava alguém que podia desaparecer no ar? E por que isso parecia tão desconfortavelmente familiar? O peso do mistério a envolvia, e ela sabia que o Central Park não seria apenas o cenário de um encontro casual, mas o início de algo muito maior.
Seu trabalho estava apenas começando.











