Trecho de "A festa da insignificância", de Milan Kundera traduzido por Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca
 “No encontro seguinte, Charles faz para seus amigos uma conferência sobre Kalinin e sobre a capital da Prússia
- Desde suas origens, a cĂ©lebre cidade da PrĂşssia chamava-se Königsberg, que significa “a montanha do rei”. SĂł depois da Ăşltima guerra ela se tornou Kaliningrado. Grado em russo significa “cidade”. Portanto, a cidade de Kalinin. O sĂ©culo ao qual tivemos a sorte de sobreviver era louco por rebatismos. Rebatizaram TsarĂtsin de Stalingrado, depois Stalingrado de Volgogrado. Rebatizaram SĂŁo Petersburgo de Petrogrado, depois Petrogrado de Leningrado, e por fim Leningrado de SĂŁo Petersburgo. Rebatizaram Chemnitz de Karl-Marx-Stadt, depois Karl-Marx-Stadt de Chemnitz. Rebatizaram Königsberg de Kaliningrado... mas atenção: Kaliningrado continuou e continuará para sempre irrebatizável. A glĂłria de Kalinin terá suplantado todas as outras glĂłrias.
- Mas quem era ele? – indagou Calibã.
- Um homem - prosseguiu Charles – sem nenhum poder real, um pobre fantoche inocente, e que, no entanto, foi durante muito tempo presidente do Soviete Supremo, portanto, do ponto de vista protocolar, o maior representante do Estado. Vi sua fotografia: um velho militante operário com um cavanhaque pontudo, metido num paletĂł mal cortado. Ora, Kalinin já estava velho e a prĂłstata aumentada o obrigava a urinar toda hora. A pulsĂŁo urinária era sempre tĂŁo brusca e tĂŁo forte que ele tinha que correr para um mictĂłrio mesmo durante um almoço oficial ou no meio de um discurso que pronunciava diante de um grande auditĂłrio. Ele havia adquirido uma grande prática. AtĂ© hoje, a RĂşssia inteira se lembra de uma grande festa que aconteceu na inauguração de um novo teatro de Ăłpera numa cidade da Ucrânia, na qual Kalinin pronunciou um longo e solene discurso. Era obrigado a se interromper a cada dois minutos e, toda vez que ele se afastava do pĂşlpito, a orquestra começava a tocar alguma mĂşsica folclĂłrica e belas bailarinas ucranianas louras surgiam no palco e se punham a dançar. Voltando para o pĂşlpito, Kalinin era sempre acolhido com aplausos; quando saĂa de novo, os aplausos ressoavam ainda mais fortes para saudar a chegada das bailarinas louras; e Ă medida que a frequĂŞncia de suas saĂdas e de seus retornos aumentava, os aplausos se tornavam mais longos, mais fortes, mais cordiais, de modo que a celebração oficial se transformava num clamor alegre, louco, orgástico, como o Estado soviĂ©tico jamais conhecera.
“Infelizmente, quando Kalinin se encontrava no seu pequeno cĂrculo de camaradas durantes as pausas, ninguĂ©m queria saber de aplaudir sua urina. Stálin contava as anedotas dele e Kalinin era disciplinado demais para ter coragem de incomodá-lo com suas idas e vindas ao banheiro. AlĂ©m do mais, Stálin, ao conta-las, fixava os olhos nele, no rosto que ficava cada vez mais pálido e crispado de caretas. Isso incitava Stálin a alongar ainda mais a narrativa, a acrescentar descrições, digressões e protelar o desenlace atĂ© o momento em que, de repente, o rosto diante dele se distendia, desapareciam as caretas, a expressĂŁo se acalmava, e a cabeça era cercada por uma aurĂ©ola de paz; sĂł entĂŁo, sabendo que Kalinin perdera mais uma vez sua grande luta, Stálin passava rapidamente para o desenlace, levantava-se da mesa e, com um sorriso amigável e alegre, terminava a sessĂŁo. Todos os outros tambĂ©m se levantavam e olhavam maliciosamente para seu camarada postado atrás da mesa, ou atrás de uma cadeira, para esconder a calça molhada.”
Os amigos de Charles estavam encantados de imaginar essa cena e sĂł depois de uma pausa CalibĂŁ interrompeu o silencio divertido:
- No entanto, isso não explica absolutamente por que Stálin deu o nome do pobre prostático à cidade celebre alemã onde viveu por toda a vida o célebre... o célebre...
- Immanuel Kant – soprou-lhe Alain.”
Páginas 35, 36 e 37 - Companhia das Letras (2014)