Olha: alguns títulos dos livros de Stella Florence, francamente, me preocupam.
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Olha: alguns títulos dos livros de Stella Florence, francamente, me preocupam.
apesar dos pesares
uma vez, ao ler o livro Os Indecentes de Stella Florence, me deparei com o texto Uma Carta de Desamor. nele, a autora faz uma lista de supostas desculpas que a amiga deveria fazer ao ex-namorado por todas as coisas boas que ela havia feito para ele, uma vez que o cara não soube reconhecê-las. meio que indo pelo mesmo caminho, vai aqui finalmente a tal carta que eu prometi há textos atrás. acho que vou chamá-la de ele não vai vir.
ele não vai vir
ele não vai vir mesmo que você peça ele não vai vir mesmo que você tenha esperado o momento certo pra convidá-lo a tua casa ele não vai vir mesmo que você tenha sido carinhoso com ele apesar de ter motivos para não ser ele não vai vir mesmo que você tenha arrumado a casa para que ele não achasse que ela é tão bagunçada quanto você ele não vai vir mesmo que você tivesse avisado com antecedência que ele poderia vir e ele tenha dito que estaria livre
ele não vai vir mesmo que você peça ele não vai vir mesmo sabendo que você é o “melhor cara que ele poderia ter conhecido” e que infelizmente não conseguiu se apaixonar pela tua perfeição ele não vai vir mesmo que você ainda se preocupe quando ele te diz as duas da manhã que ainda está na rua e um pouco longe de casa ele não vai vir mesmo que com ele você tenha tido coragem de fazer muitas coisas pela primeira vez
ele não vai vir mesmo que você peça ele não vai vir mesmo que você tenha dito que está apaixonado por ele ele não vai vir mesmo que diga “vou terminar” com o outro lá pra ficar com você ele não vai vir mesmo que ele possa vir
ele não vai vir mesmo que você peça ele não vai vir mesmo que você tenha oportunidade de sair com outros caras e ainda assim prefira ele ele não vai vir mesmo que você olhe de tempo em tempo a última vez que ele visualizou a tua mensagem depois de sumir por dois dias
e o pior de tudo, ele não vai vir mesmo que você dê uma segunda chance que ele não pediu.
parafraseando a música… “e por falar em saudade…”
Eu não deveria estar aqui: o médico da minha mãe recomendou que ela me abortasse. Como vocês podem ver (ou ler), mamãe ignorou tal conselho. Eu sou um feto que sobreviveu – e fetos podem falar, se chegarem a nascer. Portanto, eu falo. E falo hoje sobre o aborto.
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Um encerramento bem feito, com elegância e clareza, promove outros recomeços, abre outras estradas.
Stella Florence.
Um não-encerramento, um silêncio inconclusivo, arrastado, dúbio, deixa no outro um troço nada agradável chamado mágoa. E a mágoa é como um cãozinho esperto: você pode abandoná-lo bem longe de casa, em outra cidade até, mas ele volta, ele sempre te acha.
Stella Florence.
Há palavras duras que precisamos ouvir, a cuja existência não é possível nem desejável escapar, o que me intriga é outra questão. Por que as pessoas insistem em dizer coisas desagradáveis mesmo sabendo que o outro não quer ouvir aquilo? Mesmo sabendo que aquilo irá magoar? Mesmo sabendo que aquilo é de uma inutilidade atroz? Só uma resposta me assalta agora: egoísmo. Egoísmo faz com que não se enxergue a existência do outro, não se perceba suas necessidades, desejos, fragilidades. Um vomita, o outro se cobre: e assim caminha a humanidade.
Stella Florence
Ele me acha tão incrível que está saindo com outra
"Encontro fios de cabelo comprido no banheiro dele. Eu tenho cabelos curtos, como qualquer imbecil pode ver. Brinco que a faxineira dele anda desleixada e esqueço o assunto. Escolho esquecer porque realmente acredito que pode ter sido uma noite desimportante, fruto de uma pequena crise que tivemos ou, num cenário mais otimista, os fios poderiam pertencer a uma visita, a uma irmã, a uma amiga (alguns homens têm amigas com quem nunca transaram – como os meus amigos, por exemplo).
No entanto ontem ele me leva para jantar e diz que gosta muito de mim (sinto um frio na espinha), que eu sou incrível (lá vem algo ruim), que ele me adora (certamente vem algo muito ruim), que eu faço bem pra ele (me preparo para o baque), que me quer na vida dele pra sempre seja de que modo for (seja de que modo for?) e que, sim, aqueles fios de cabelo eram de outra mulher com quem ele tem saído (ah, chegamos ao ponto).
Então enquanto eu me afogava de desejo sozinha em casa, havia alguém com ele. Certo. Então ele me acha tão incrível que está saindo com outra. Perfeito. Se me achar um pouco mais incrível, a seguir ele puxará minha saia para limpar o cocô do cachorro sarnento no qual ele inadvertidamente pisou ali na esquina. E se me achar ainda mais incrível, não restará outra coisa a fazer, de acordo com esse raciocínio, a não ser me dar um tiro à queima roupa.
Voltemos ao jantar. Fui civilizada, como sempre. Há algo mais inútil do que chiliques ou lágrimas? Eu não grito, eu não xingo, eu não brigo, eu não dou escândalos, eu não choro na frente de ninguém, eu não incorporo a fúria de mulher traída, eu apenas aceito as coisas como são e desapareço. E essa aceitação doída, porém resignada, essa imediata ação de sumir tem em mim um efeito de alvejante, de desinfetante, de ácido limpador: depois que passa a tristeza imensa, imensa, não resta mais nada. Algo ali se quebra e é irrecuperável.
Eu me recuso a manter mágoa ou dor ou carinho ou compaixão ou amizade com alguém que não percebeu que tinha um tesouro nas mãos. Um tesouro não se auto-proclama: ele é. Aproveita o tesouro quem tem inteligência e sensibilidade: quem não tem, volta, cedo ou tarde, a sua própria miséria."
Por Stella Florence
O pior tipo de egoísta
"A coisa começou simples assim: entrei no avião, me certifiquei de ter encontrado o lugar certo, cumprimentei em silêncio meu vizinho de poltrona, me acomodei e abri meu livro.
Então o velhinho ao meu lado perguntou o que eu estava lendo. Fernando Pessoa. Pediu para ver a edição do livro. Claro. Ao me devolver o exemplar, sorrisos a granel, ele diz que mora em Salvador, que é pediatra, que perdeu um filho num acidente de moto, que adora jardinagem, que sua primeira mulher foi modelo do Denner, que já escreveu poemas premiados, que seu pai era muito austero, que seu Facebook tem mais de mil amigos, que todos elogiam seu bom-humor, que arranha o violão e já musicou alguns de seus poemas, que vê a vida com tal alegria que é capaz de dizer com toda leveza para qualquer um a frase: “Eu te amo”. Antes de sair, ele pôs as mãos no peito, sorriu e disse: “Stella, eu te amo”.
Ah, que encontro sublime o acaso me reservou naquele vôo, que lição de vida, que bênção, não é mesmo? Não, não é mesmo. Todas as histórias têm dois lados – e eu não contei o meu ainda.
Durante o monólogo do velhinho, tentei voltar ao meu livro, mas ele me interrompia de novo e de novo para falar invariavelmente do mesmo assunto: ele. Tentei alongar o pescoço, já duro, torto, doído de tanto olhar para um lado só, cheguei mesmo a comentar duas vezes que estava ficando com torcicolo, que talvez devêssemos trocar de lugares, mas o senhor que em breve diria me amar não me deu atenção. Por acaso ele quis saber quem eu era, por que viajava ou se estava bem? Houve alguma troca naquele voo Não. Ele não perguntou rigorosamente nada sobre mim, a não ser meu nome para dar alguma veracidade ao seu fechamento espetacular: “Stella, eu te amo”.
Após a aterrissagem, o velhinho, satisfeito como um bebê que mamou bastante e arrotou alto, pegou sua maleta, me deu um adeus infantil e foi embora. Ao sair do avião, porém, sem premeditar, eu o segui. Ele se virou uma, duas, três vezes e em todas deu com a minha cara sorrindo amigavelmente para ele. Seu rosto se decompunha mais e mais com o meu não-desaparecimento. Até que, com medo de que eu o convidasse a almoçar ou impusesse minha presença de algum outro modo, o bom senhor gritou, apertando o passo: “Minha mulher está me esperando, deve estar ansiosa para ficar sozinha comigo, tchau!”.
Assim que insinuei a possibilidade de existir, o velhinho tratou de se livrar de mim como se eu fosse eu um cancro peçonhento. Esse é o pior tipo de egoísta: ele (ou ela) se disfarça de amigo, de bonzinho, de criatura-nova-era-alto-astral apenas para se pavonear às suas custas. Não ouse existir: para o egoísta você é apenas o receptáculo do que quer que ele queira dizer.
'Stella, eu te amo!' Ah, claro que me ama: tanto quanto um lago no qual se possa ver a sua, a sua, a sua imagem refletida."
Por Stella Florence