× ➶ eu não posso te amar na escuridão (part 1/3)
# aaron taylor johnson – # cidade dos anjos
A escuridão engole tudo ao redor, densa como uma tempestade prestes a desabar. Ela te envolve, te afoga, te arrasta para um vazio sem forma. A angústia aperta teu peito, sufocante. Você quer chorar, mas as lágrimas se recusam a cair, presas em algum lugar fundo demais para alcançar. Quer gritar, mas os sons morrem na garganta, como se o próprio ar tivesse se esvaído.
Então, os olhos dele surgem — uma âncora em meio ao caos. Um brilho frio, azul como vidro quebrado, perfura a escuridão. Você não sabe quem ele é, mas já o viu antes. Em algum lugar. Em algum tempo. A lembrança escapa por entre os dedos, um fantasma impossível de segurar.
A pele dele é quente quando suas mãos se tocam, um contraste cruel com o frio que te assombra. Ele te puxa, te arranca da escuridão como se nunca houvesse outra opção. Vocês estão cara a cara. Sempre estiveram. Sempre estiveram?
Você o toca, sente sua presença, mas ao mesmo tempo… ele não está ali. Sua pele é sólida sob seus dedos, quente, viva—mas há algo errado. Algo que não se encaixa.
Ele sussurra seu nome, a voz baixa como um sopro contra a tempestade na sua mente. Ele sabe quem você é. Mas você não sabe quem ele é. Não sabe como chegou até ele. Não sabe quando seus caminhos se cruzaram.
Ou talvez… tenham se cruzado antes. Em algum outro tempo. Em algum outro lugar. Mas não nessa vida.
Um instante atrás, você estava à beira de um precipício. O vento cortava sua pele, a queda chamava seu nome, e você queria escapar—de tudo, de si mesma. E agora, você está aqui. Com ele.
Então, por que ainda está respirando o mesmo ar que ele?
Talvez eles estivessem certos o tempo todo. Talvez você realmente tenha enlouquecido.
A realidade se desfaz em ruídos distantes, como se estivesse presa em um sonho onde tudo parece próximo demais e, ao mesmo tempo, intangível. Mas então, a voz dele rasga o nevoeiro, puxando você de volta.
“Por você?” A hesitação pesa em cada sílaba. “Você… eu… você ia pular? Por quê?”
Seus pés tocam o chão, firmes, pesados, ancorando você à realidade que por um instante pareceu escorregar pelos seus dedos. A brisa fria do inverno rasga sua pele, cortante como pequenas lâminas invisíveis. Seus lábios ardem, secos, rachados pelo vento impiedoso. O choque gélido traz clareza.
O homem diante de você não é um delírio, nem uma sombra perdida na sua mente fragmentada. Ele te olha como se enxergasse cada pedaço seu, até mesmo aqueles que você mesma tentou esquecer.
"Você me salvou?" Sua voz sai baixa, como se nem você acreditasse no que está dizendo. "Mas… como?" Você pisca, confusa, o olhar vacilando entre o chão e os olhos dele—tão azuis que parecem um pedaço do céu no meio do inverno.
Ele hesita, como se escolhesse as palavras certas. Então, dá de ombros. “Você pulou, sim. Mas eu estava lá.”
Você franze a testa. “E… você me pegou no ar? Tipo cena de filme?”
Ele solta uma risada curta. "Não sou tão dramático. Mas digamos que tive um ótimo timing."
Algo nele te intriga—não só os olhos azuis ou a forma como parece saber mais do que diz, mas a sensação estranha de que, de alguma forma, você já o conhece.
"Posso saber o nome do meu herói?" A pergunta sai quase como um sussurro, mas você sabe que, no fundo, está ansiosa por uma resposta.
Ele torce o rosto, como se estivesse pensando, mas o sorriso de canto permanece, tímido, como se escondesse algo. Algo que você não consegue alcançar.
"Anjo da guarda, talvez?"
Você vê a expressão dele mudar num piscar de olhos. Algo distante, algo cético, como se a ideia de ser chamado assim o incomodasse. Talvez não goste de religião, ou talvez seja apenas desconfortável com a palavra "salvador". Mas antes que ele deixe que o silêncio tome conta, tenta sorrir de novo, como se estivesse pedindo desculpas pela própria reação.
“Aaron… meu nome é Aaron.”
As palavras parecem mais pesadas do que você esperava. Ele diz o nome de forma simples, mas há algo nele—algo no tom da voz dele—que faz o som parecer importante.
Se fosse em outro momento, talvez você tentasse fazer uma piada ou, quem sabe, pedir o número dele. Mas não agora. Você o observa, ainda tentando encaixar as peças, tentando entender como ele surgiu ali, como encontrou você tão perdida e distante. Como ele conseguiu te pegar no ar, no exato momento da queda.
Mas, em vez de se perder nessas perguntas, você quebra o silêncio com uma pergunta simples, que soa mais natural do que qualquer outra coisa que pudesse ter dito:
“Pode me dar uma carona?”
O tom da sua voz é leve, quase como se fosse uma brincadeira. Mas, no fundo, você só quer sair dali. Se afastar de tudo o que aconteceu, sem realmente entender o que ainda está acontecendo.
"Na verdade, eu vim caminhando até aqui!" ele diz, com um sorriso leve, quase despretensioso. "Mas se quiser companhia, posso te levar em segurança."
Você pensa por um momento, e a ideia de ter alguém com você, mesmo que por um breve tempo, soa reconfortante.
Vocês caminham lado a lado, o som dos passos ecoando de forma tranquila. Olha em volta, observando o local agora com mais calma. Era bonito ali—um lugar que sempre te encantou. As árvores, a grama, as flores. Tudo parecia mais sereno do que o caos que você carregava dentro.
“Um belo lugar pra morrer,” você pensa, sem querer. Sente o olhar dele, curioso e atento, a sobrancelha arqueada. Como se ele pudesse ler sua mente.
“Eu quero perguntar o por quê,” ele diz, a voz suave, mas cheia de uma leve tensão.
“É complicado,” você responde, balançando a cabeça. “É mais fácil dizer que eu tô cansada.”
Ele fica em silêncio por um instante, como se ponderasse suas palavras, antes de tentar quebrar o clima com um tom mais leve. “Você podia simplesmente dormir, então.”
Você solta uma risada baixa, mais por impulso do que por achar graça. “Não consigo dormir bem há alguns bons anos.”
Ele parece refletir por um momento antes de responder, a voz mais suave agora. “Sinto muito.”
Você sente a sinceridade nas palavras dele, algo em seu olhar que não pode ser ignorado.
As horas se tornam minutos na companhia silenciosa de Aaron, e de alguma forma, a presença dele preenche o espaço de um jeito que você não consegue explicar. Cada passo que vocês dão parece leve, sem pressa, como se o tempo tivesse tirado a pressa de tudo. Quando ele te entrega em segurança na porta de casa, há algo nos olhos dele—uma observação, um conhecimento silencioso—que te faz questionar se ele já esteve ali, em algum lugar, em algum momento que você não pode acessar.
Ele suspira, um som quase imperceptível, e, ao te olhar, há algo em seu rosto que você não pode entender completamente, como se ele estivesse preso entre o agora e algo distante.
As mãos dele tocam as suas, e a intimidade desse gesto parece profunda, familiar, como se o simples toque tivesse o poder de curar algo que você não sabia que estava machucado. Vocês ficam frente a frente, mais uma vez, os olhos se entrelaçando em um silêncio que não precisa de palavras.
"Você vai ficar bem?" Ele pergunta, a voz suavemente carregada de uma preocupação que você não sabe se merecia, mas que sente ser genuína.
Você esfrega o dedão na mão dele, sentindo o calor da pele dele, como se o toque fosse uma promessa. "Se eu não ficar, eu tenho você para me salvar?"
Ele puxa você para perto, e o movimento é abrupto, quase como se fosse uma necessidade. Seu corpo se encaixa no dele, como se tivesse sempre pertencido ali. O calor dos braços dele te envolve, e você se perde nesse abraço, um lugar onde o tempo não parece existir.
Mas algo em você, algo que você não pode identificar, começa a flutuar. Como se, de alguma forma, você já tivesse estado nesse lugar antes. Como se tudo isso fosse um déjà vu, um momento que se repete, mas nunca foi vivido.
"Eu não posso nos salvar," ele sussurra, a voz baixa, mas intensa, carregada de um peso que você não pode explicar.
"O que?" Você pergunta, tentando decifrar o que ele acabou de dizer.
Ele te olha com algo em seus olhos—uma verdade não dita, algo que não pode ser revelado. "Eu não disse nada," ele responde, e o silêncio que segue fica pesado entre vocês, como se ele tivesse dito tudo sem precisar pronunciar uma única palavra.