Durante minha infância, eu tinha várias dúvidas sobre como seria a minha vida adulta. Dentre elas, eu tinha uma ideia muito pessoal sobre a morte. Na verdade, eu não idealizava sobre a morte; eu achava que as pessoas não morriam. E que elas nunca mais paravam de crescer, até ficarem bem gigantes e terem que sair de casa. Uma boa analogia sobre a vida. Eu era inocente, mal sabia eu que nem chegaria a 1,75m.
A medida que fui crescendo, me deparei com a ideia de morte. Não teve um episódio em específico. Foi a mesma coisa com o papai noel; num ano você acredita e no outro você já está escolhendo presentes que caibam no orçamento dos seus pais. Provavelmente por não ter um baque definitivo, deixei de importar com o conceito de morte e vida. Era algo inevitável, afinal de contas.
Os problemas vieram com as tentativas de me catequizar. Sério, eu não serviria para ser índio há 500 anos atrás. Eu achava a maioria das coisas sem sentido ( e ainda acho, na verdade). Depois conto melhor minhas experiências católicas. O fato era que tinha uma coisa que me chamava muito a atenção no quesito de religião: a vida eterna.
A vida eterna pra quem não sabe é como uma vida normal, só que ela pode ser muito boa ou muito ruim, dependendo de como você agiu na vida normal. E é eterna também. Não tem muito significado você passar algumas décadas na vida normal como uma "prova" e depois ser julgado eternamente. É tipo fazer o ENEM uma vez pra decidir se vai na PUC ou numa UNIBAN. Mas o conceito de não ter vida após a vida é muito estranho e assustador. Como um ser humano que só viveu pode ter a noção do que é não viver?
Como ateu, eu tinha que encarar a possibilidade que talvez não haja vida eterna. Muitas vezes eu imaginava que quando eu morresse, eu ficaria num lugar escuro, onde eu não podia sentir ou ouvir nada, mas ainda tinha conciência da minha existência. Isso poderia ser minha visão do inferno. Eu odeio o tédio, e imaginar isso como algo inevitável era horrível pra mim. Essa era a fase que eu "temia" a morte.
Depois de algum anos de reflexão, fui me acostumando com o fato de nada ser eterno. Nem mesmo o pelé. Tudo acabará um dia. Mas percebi o quanto era idiota minha visão de “nada”. Antes eu tinha falado que era estranho para um ser humano imaginar uma não-vida sendo que só viveu. Mas a questão é que todos os seres humanos já experimentaram uma não-vida. Eu mesmo sou um exemplo disso. A maior parte da história humana, do mundo e do universo, eu passei não existindo. Eu só tive uma vida a partir do momento de meu nascimento. Antes disse, eu tinha uma não-vida. Eu não lembro da minha não-vida, mas deve ter sido um saco não pode ser tão ruim quando eu imaginava uma não-vida. Essa era a fase que eu aceitava a morte e uma não-vida.
Ultimamente, tirando minhas próprias conclusões e também ouvindo opiniões sobre outros, minha concepção mudou mais um pouco. Imaginei o conceito de eterno e vi como era assustador isso. Eu vivi vinte anos, mal sei o que é viver o tempo de toda humanidade, ou de todo o mundo. Quiçá imaginar o que é eterno. Eterno é muito tempo. Eterno é muito, muito, muito tempo. O que eu faria nesse tempo todo? A vida eterna começou a me assustar como a não-vida me assustava. Aquele minha percepção de viver com conciência mas num lugar onde eu não teria sentidos não era a ideia de não-vida, mas sim a ideia de vida eterna. Mesmo que não passe a eternidade num ambiente escuro, não consigo pensar em nada que seja eterno e não me enjoe. Nem que sejam momentos, recordações, sensações ou fique a mercê da minha imaginação, tudo me entendiará um dia. Começo a não só aceitar a morte, mas a agradecer por uma não-vida.
Toda essa minha nova ideologia me fez afastar ainda mais da religião. Não consigo mais ouvir sobre vida eterna sem ter uma crise de pânico (isso foi uma hipérbole, só pra deixar claro). E olha que nem entrei no conceito de inferno. Imagina estar fadado a uma UNIBAN por causa de um ENEM? Esse conceito é cruel demais. Tão cruel quanto imaginar um lugar em que tudo é perfeito, mas que uma hora eu vou achar um saco e querer tacar o terror em todo mundo lá.
Minhas últimas conclusões que posso dar é que a vida só é bonita porque a morte é inevitável. Imagina só se essa vida agora fosse eterna. Você viveria nesse mundo pra sempre, como eu imaginava quando era criança. Você não teria nem a liberdade de poder escolher outra saída. Estaria fadado a viver aqui, para sempre. A morte é bem misericordiosa se for pensar por esse lado. E a melhor parte nisso é que foi tirado de você a responsabilidade de ter que escolher um prazo. Você não precisa fazer um contrato para 80 anos e sabendo que depois vai implorar para ficar mais um pouco quando este se esgotar. Assim como implora por mais cinco minutos quando o despetador toca. Não precisará se preocupar com sua decisão, não tem saída (para os dois exemplo). Pode parecer uma antologia sem nexo, mas a morte inevitável é a coisa mais bonita que a vida poderia ter a oferecer.