A gaúcha Mariana Kalil, jornalista formada pela PUC-RS, com passagem pela revista Donna, do jornal Zero Hora, e pela BBC na Espanha contou como foi a sua perigrinação pelo jornalismo. Mariana também falou do companheiro de longa data o Bento, seu cão, inspiração para o seu trabalho, há doze anos ele a acompanha a todo lugar que ela pode levá-lo.
Quais motivos a levaram escolher a carreira jornalística?
Mariana – Era bem um sonho de criança, eu queria era apresentar um telejornal me imaginava numa bancada de um jornal nacional, era uma coisa meio de sonho adolescente. Eu acabei fazendo Jornalismo por causa da televisão, mas acabei fazendo minha carreira em redação por portas que foram se abrindo, coisas que foram acontecendo. Depois que eu conheci a redação, que comecei a lidar com a escrita, imediatamente, eu desisti da TV, eu vi que eu gostava mesmo era de escrever. Você atualmente escreve para o caderno Donna do Jornal Zero Hora.
Como a editoria de moda entrou na sua vida?
Mariana – Quando eu estava na faculdade eu fiz estágio na TVE, depois eu trabalhei um pouquinho TV Bandeirantes e eu não fui aprovada no Projeto Caras Novas da RBS. Foi aí que eu fiz um concurso para a Zero Hora e passei, comecei em jornal e fiz toda a minha carreira em mídia impressa. Acabei no final gostando da mídia impressa e desisti da televisão. Eu entrei na Zero Hora, comecei como repórter do Donna, virei colunista da contra capa e, depois, fui embora para São Paulo. Lá em São Paulo eu trabalhei nas revistas Época, Isto É Gente e, depois, fui passar um tempo em Barcelona estudando. Eu voltei para trabalhar no Estadão, em São Paulo, fui para o Rio e trabalhei na Isto É Gente e aí voltei para Porto Alegre, por questões pessoais, e sem emprego. Quando estava há uns seis meses aqui, a Zero Hora me convidou para ser editora da revista Donna, já conheciam o meu trabalho. Então eu entrei lá, por isso, por um convite da Claudia Laitano e me tornei editora da revista que é o que eu exerço até hoje.
Pelo que vemos no seu blog, seu cão, o Bento, está sempre presente em suas postagens. De onde surgiu a ideia de fazê-lo tão presente na sua vida profissional? Ele tem alguma influência no seu trabalho?
Mariana – Eu tenho o Bento há doze anos e essa linguagem em que eu falo com ele no blog é uma linguagem que eu sempre falei com ele. Quando eu mandava e-mails para a minha mãe, de Barcelona, que o Bento foi comigo pra lá, eu mandava e-mails assinados pelo Bento ele que contava nossa vida lá.
Então, é uma coisa que vem de muito tempo, foi muito natural, não foi nada pensado porque na verdade é a minha vida, mais que um blog é um diário. E essa interação que eu tenho com o Bento no Blog é a mesma interação que eu tenho com ele na minha vida. Eu nunca esperei que ele fosse fazer esse
sucesso que ele faz (risos), me pegou muito de surpresa porque hoje ele é o grande astro daquele blog. Eu achava que ele seria mais um bichinho no meio de tantos aqueles outros que eu coloco, mas é uma coisa muito natural porque o que ele diz ali no blog, na verdade, é o que eu converso com ele, quando
ele me olha eu sinto o que ele está me dizendo.
“eu não sou mais a Mariana sozinha: é a Mariana e o Bento”
Nasceu sem querer, se tu for olhar posts mais antigos não tem muito a presença dele, alguns nem tem, aí ele foi entrando, foi entrando, ele foi tomando conta e as pessoas foram gostando. E agora eu sou quase que cobrada pela participação do Bento, tem post
que o Bento não aparece e aí perguntam “mas cadê o Bento?” Eu vejo que nós viramos dois personagens, eu não sou mais a Mariana sozinha: é a Mariana e o Bento. Então isso já está bem assimilado para mim, foi muito de receber esse feedback das pessoas de irem gostando, a gente virou uma coisa só. Minha vida foi sempre com o Bento, ele já fazia parte desta minha rotina, desta maneira de falar e escrever, foi natural, uma surpresa foi que ele tenha se tornado uma estrela (risos).
O livro “Peregrina de Araque” conta sua peregrinação acidental pelo Oriente Médio. Como foi a preparação técnica para escrevê-lo? Como foi juntar e lembrar tudo o que você viveu lá?
Mariana – Sem preparação nenhuma, eu fui fazer essa viagem como correspondente do jornal. A agência de turismo convidou a Zero Hora para participar dessa viagem e, a Zero Hora delegou a mim essa viagem, eu fui. Como era uma viagem que me causava muito estranhamento porque eu não tenho essa coisa de peregrinar eu comecei a escrever a viagem para mim, todo o dia eu chegava no hotel e contava para como tinha sido. E aí eu comecei a mandar e-mails para os meus pais e para o meu marido. No Egito eu escrevia e-mail, todos os dias, como é que tinha sido, bem como está no livro, e no dia seguinte eu mandava. Quando eu voltei o meu pai foi quem me chamou a atenção “Mariana tu viu que se tu reunir todos esses e-mails tu tens um livro?” e ele disse que eu deveria pensar nisso. Aí eu sentei, aprimorei uma linguagem, pensei mais nas palavras, tinha muito daquelas coisas de e-mail muito rápido e repetitivo, procurei uma editora e aí gerou um livro. Eles se interessaram, adoraram, quiseram publicar, a gente pensou em um título, eu pensei imediatamente na Bebel (Bebel Callage, ilustradora) para desenhar a bonequinha da capa, que era quem me desenhava sempre. Foi feito sem nenhuma pretensão de virar livro.
Você tem postado frequentemente no seu blog sobre como está sendo escrever o seu novo livro que será lançado em julho, do que ele se trata?
Mariana – Todas as perguntas que tu está me fazendo vão estar descritas no livro porque ele é uma viagem de peregrinação profissional minha, de quando eu saí daqui e por todos os lugares que eu passei, o que foi acontecendo até essa minha volta. Houve diferença na preparação ou na dificuldade de escrever esse livro em relação ao “Peregrina de Araque”?
Você tem postado bastante que tem corrido contra o tempo para finalizá-lo, como que foi estipulado o prazo de finalização do livro, já terminou de escrevê-lo?
Mariana – O grosso, grosso, eu terminei hoje (28/06/2013), eu estava desde terça-feira trancada no escritório, agora eu fui ao cinema para celebrar esse fim. Eu vou deixar ele bem quietinho. A editora me procurou no começo do ano para ver se eu tinha um projeto de mais algum livro, eu disse que tinha, e eles
disseram que gostariam que estivesse pronto em outubro. Eu perguntei até quando eu tinha para entregar e responderam que o ideal seria meados de julho. Aí, eu calculei que, tendo como eu tinha na minha cabeça, em um mês na corrida eu conseguiria entregar. Então, eu pedi um mês de licença e fiz um cronograma dia a dia do que eu precisava produzir para dentro desse mês ele está pronto. Até porque depois que começar no jornal eu não vou conseguir, no máximo vai ser algum acréscimo, mas esta imersão assim eu não vou conseguir mais. Era uma questão de sobrevivência: ou fazia ou não tinha
livro. Eu tirei licença de um mês para fazer esse livro porque trabalhando e escrevendo não dá, tem meio que te afastar do trabalho diário. A minha licença termina no outro domingo (06/07/2013), segunda-feira eu vou pegar ele devagarzinho vou preencher algumas cosias que eu deixei em branco e vou dar mais uma lapidada, vou ler de novo, vou olhar as coisas mais com calma. E na sexta-feira eu entrego para a editora. A idéia é que ele esteja pronto em outubro e que o lançamento seja em novembro, o Peregrina também foi lançado em novembro.
O livro já tem título? Quais as expectativas para esse lançamento?
Mariana – Eu tenho, mas eu não quero te passar para não sair nada errado, mas eu já propus para a editora um título, como ela não me deu um ok é como se não tivesse. A ideia é ter peregrina no título para ter o link com Peregrina de Araque. Eu vou dizer que eu estou bem satisfeita, eu sou muito exigente
comigo, eu sei quando eu fiz alguma coisa que está do meu agrado. Ele ficou do meu agrado, é um livro que eu gostaria de ler. É claro que eu vou pegar ele segunda-feira e, de novo, eu vou achar um monte de defeitos, quando ele estiver pronto eu vou achar um monte de defeitos como é com o Peregrina. Até hoje eu pego o Peregrina leio e têm coisas que olho e como eu escrevi isso, eu deveria ter usado outra palavra, mas é assim. A minha expectativa é boa, eu acho que o blog está me ajudando muito na visibilidade. Quando eu lancei o Peregrina eu era só uma editora do Donna, não só, mas eu era a editora do Donna eu não era a Mariana escritora, eu acho que o blog me ajudou a ter essa visibilidade como escritora e isso vai me ajudar na divulgação do livro. Eu já tenho um primeiro livro, é a Mariana que escreveu Peregrina não é uma pessoa nova, já é um passinho andado.
*Entrevista por: Carla Zanett e Murilo Zechlinski (Shalynski Zechlinski) | Entrevista para Disciplina de Jornalismo da UniRitter: Mídias Digitais | Semestre: 2013/1
Boca de rua: o jornal criado por quem mais conhece as ruas
A criatividade e a experiência são o que mantêm um jornal feito por pessoas em situação de rua em Porto Alegre
O Boca de Rua é um projeto da ALICE (Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação), criado em 2000, para acolher moradores de rua. A partir deste projeto surgiu o Jornal Boca de Rua, é o único jornal no mundo totalmente criado e cogerido por moradores de rua, conforme a Internacional Network of Street Papers (INSP). Mais tarde foi criado o Boquinha, composto por crianças e adolescentes, menores de idade.
As atividades realizadas por esses dois grupos acontecem no prédio do GAPA (Grupo de Apoio à Prevenção da AIDS). Atualmente, o Boca de Rua tem vinte e cinco integrantes que se reúnem, semanalmente, para debater assuntos trazidos por eles mesmos, que se tornam em pautas para suas matérias. A produção do jornal é financiada pela ALICE, que são vendidos trimestralmente pelo povo de rua (pessoas que viveram e vivem nas ruas).
A necessidade de criar o Boquinha deu-se porque muitas mães não tinham com quem deixar seus filhos e acabavam levando as crianças junto nos encontros do Boca de Rua. Diferente do Boca de Rua o Boquinha é para que as crianças e adolescentes não precisem trabalhar, por isso foi criada uma conta corrente para doações, a quantia arrecadada é entregue às famílias dessas crianças, uma vez por mês.
“É um real só cada jornal e a gente ganha trinta (exemplares) cada vez que sai, mas já ajuda né”, relata Paulo Ricardo de Oliveira que faz parte do projeto e vive em situação de rua. Ele ainda conta que algumas vezes recebe valores ou outros tipos de doações. “Tem gente que nem pega o jornal, mas acaba dando um valor maior ou se não tem dinheiro da algo pra comer, às vezes, até roupa”, completa.
O objetivo da ALICE não é fazer do Boca de Rua um projeto assistencialista para que essas pessoas saiam das ruas e parem de usar drogas, a maioria são usuários. Mas fazer com que os integrantes dele não precisem pedir esmolas, por isso a agência não fica com nenhuma quantia das vendas dos jornais. É uma forma de trabalho e ao mesmo tempo podem mostrar que, também, são capazes de desenvolver um pensamento crítico, como qualquer outra pessoa.
“A ideia de criar esse projeto foi pela inconformidade de como a mídia mostra a
realidade do povo que vive nas ruas aos que não tem acesso a informação sobre estas pessoas”, explica Rosina Duarte, editora e jornalista responsável pelo Boca de Rua. Rosina conta que muitos deles são trabalhadores,artistas, músicos. E que por motivos distintos pararam nas ruas, mas nem por isso devem ser tratados como delinquentes. A editora, ainda, resume esse trabalho em duas palavras “acolhimento e oportunidade”.
*Reportagem por: Murilo Zechlinski (Shalynski Zechlinski) | Disciplina de Jornalismo da UniRitter: Conceitos, Técnicas e Práticas de Jornalismo | Semestre: 2012/2
No lançamento do livro Um lugar na janela: relatos de viagem, a escritora Martha Medeiros concedeu entrevista ao Unipautas. Neste livro, Martha, conta suas experiências de viagens pelo mundo. Na entrevista, a escritora, relatou qual foi a sua inspiração para este lançamento e de como as viagens influenciam na sua vida, tanto pessoal como profissional. Martha, também, falou da sua influência sobre seus leitores.
AGEX: Neste mês, está sendo lançado o seu novo livro Um lugar na janela: relatos de viagem contando suas experiências de viagens pelo mundo. Muitas de suas crônicas falam, exatamente, de experiências. Mas como surgiu a ideia de juntar todas essas estórias, de viagens, em um único livro?
Martha: Eu tinha um blog, escrevia muito sobre viagens, e resolvi então transformar aqueles posts em livro. Viajar é das coisas que mais gosto na vida.
AGEX: Antes de começar a escrever Um lugar na janela, já tinha pensado em escrever um livro sobre experiências que envolvessem um mesmo contexto, como experiências de viagens pelo mundo?
Martha: Não, foi a primeira vez. É uma espécie de livro de memórias, mas focado num mesmo assunto. Gostei da experiência, apesar de ter me deixado insegura pelo ineditismo.
AGEX: Na introdução, a senhora diz que atravessar fronteiras era um sonho desde menina e usa os verbos conhecer, descobrir, avançar, aprender como definição de si mesma relacionando com o exercício de liberdade. O que significa liberdade na sua opinião?
Martha: Liberdade é atingir a autenticidade plena. Se não plena, conseguir ser o mais parecido possível com si próprio, sem sofrer tantas influências externas. É se movimentar no mundo e na vida fazendo o que gosta e sentindo-se bem
acompanhada por si mesma.
AGEX: Dentro do seu conceito sobre liberdade, a senhora se considera livre?
Martha: Dentro do possível, sim. Ninguém é totalmente livre, a não ser que não
possua vínculos afetivos. Como não abro mão dos meus, é claro que as concessões acabam sendo inevitáveis.
AGEX: Um lugar na janela tem recordações desde quando a senhora era mais jovem até a atualidade, acredito que todas inesquecíveis. Mas tem alguma, em especial, que costuma se lembrar mais que as outras?
Martha: A primeira viagem sozinha pela Europa, que está relatada nos primeiros
cinco capítulos do livro, é inesquecível. Foi minha primeira viagem não só pra fora, mas pra dentro de mim mesma. Me valeu por 30 anos de terapia.
AGEX: Quando vai viajar já tem a pretensão de escrever alguma crônica?
Geralmente, como costuma ser a inspiração para escrever?
Martha: Não levo notebook, não escrevo nem uma linha quando estou viajando, apenas faço o registro da viagem em cadernetas, à mão, sem intenção literária ou jornalística, apenas para lembrar dos detalhes (nomes de restaurantes, exposições, etc). Quando volto, às vezes escrevo uma crônica sobre a viagem, mas não fico pensando nisso quando estou lá. Ao viajar, desligo de tudo.
AGEX: Da mesma forma que muitos leitores se identificam com as suas crônicas, a senhora acha que este livro pode despertar o interesse deles em querer viajar, com a ideia de encarar uma aventura a um lugar desconhecido. E até mesmo voltarem a um lugar que já visitaram antes, com a vontade de matar uma saudade?
Martha: É possível. Mas o mais importante para mim é mostrar que viajar também pode ser algo simples. Às vezes as pessoas colocam muita expectativa numa viagem, como se fossem mudar de vida a partir dela, e na verdade é apenas um passeio que possibilita que abandonemos os nossos papéis rotineiros e repetitivos. Viajar é um convite a sermos viajantes sempre, inclusive onde vivemos. Basta treinar o olhar para o que é novo.
AGEX: Em outros momentos a senhora disse que escreve para si mesma, como uma forma de autoconhecimento. Partindo desta ideia, você acredita que os leitores quando se identificam com as suas crônicas eles acabam conhecendo a si mesmos?
Martha: Toda leitura amplia nossos horizontes, nos expande. Livros em geral (não só os meus) estão sempre ajudando na nossa formação.
AGEX: De alguma forma as viagens influenciam na sua carreira como escritora?
Martha: Não, viajar é meu lazer, não está ligado diretamente ao meu trabalho.
AGEX: A senhora acredita que a mudança para o Chile, em 1993, tenha sido uma grande oportunidade para você se tornar escritora? Ou foi, apenas, coincidência?
Martha: Eu já escrevia poemas antes de ir para o Chile, tinha alguns livros publicados, mas essa temporada por lá foi providencial para eu me tornar cronista. Um divisor de águas. Se eu não tivesse saído do país (o que me fez abandonar a carreira de publicitária), talvez tudo continuasse igual. Que bom que aconteceu do jeito que foi. Quando retornei, um novo futuro me aguardava.
AGEX: Muitas pessoas veem os escritores ou qualquer um que tenha determinado destaque na sociedade, como pessoas diferentes, talvez, até esquecendo que todo mundo é igual dentro das suas particularidades. Escrever sobre fatos reais que aconteceram na sua vida seria uma forma de mostrar que a senhora tem uma vida com uma rotina além de escrever?
Martha: Não tenho nada de especial, sou uma mulher como as outras, acordo cedo pra levar minha filha ao colégio, vou ao supermercado, saio com as amigas, é uma vida prosaica. Escrevo sobre o que penso e sinto, apenas isso. É uma alegria que o meu trabalho tenha encontrado tamanha aceitação. Pode ser, sim, que o pessoal se identifique com essa “trivialidade” do meu jeito de ser. Mas não é um truque para conquistar leitores, eu simplesmente deixo transparecer a maneira que vivo.
AGEX: Hoje, com a era da internet, podemos a qualquer hora em qualquer lugar do mundo divulgar a foto, um vídeo ou um simples comentário do que lugar onde estamos visitando. Na sua opinião, essa tecnologia ajuda ou atrapalha na hora de aproveitar a viagem?
Martha: Tem gente que sente necessidade de compartilhar tudo o que está fazendo, o tempo todo. Há uma certa ansiedade nisso, e ansiedade não combina com férias. Pra se conectar com lugares novos e com as sensações provocadas por uma viagem, é preciso se desconectar da parafernália tecnológica, ou parece que não saímos de casa.
*Entrevista por: Murilo Zechlinski (Shalynski Zechlinski) | Entrevista para Agência Experimental da Facs UniRitter | Disciplina: Conceitos, Técnicas e Práticas de Jornalismo | Semestre: 2012/2