Orelhão - Funções Utilitárias e Simbólicas
No início da década de 70, dois modelos antecederam o Orelhão: o “Concha” e o “Orelinha” (Fig. 1 e 2, respectivamente), porém é a primeira vez que um modelo imprime características positivas relacionadas à economia, simplicidade, resistência, boa acústica e estética e que o permite invadir as ruas das cidades. Examinaremos três aspectos: tecnológicos, morfológicos e funcionais para melhor compreender suas funções e características.
No objeto analisado, visto a partir de seu ângulo lateral esquerdo (Fig. 3), é possível verificar a existência de pelo menos três tipos de materiais e formas, heterogêneas, que se unem e formam um único objeto, nas palavras de Ulpiano (1980, p. 6) “o que significa eu ter diante de mim um artefato decomponível, desmembrável em unidades autônomas, mas que se articulam entre si”. A composição dos materiais é dada por metal (base cilíndrica), plástico (acabamento e suporte) e fibra de vidro (carcaça externa). O uso da fibra de vidro começou, a nível mundial, por volta de década de 30, mas no Brasil seu ápice deu-se com o segundo período de industrialização nacional na década de 70. Dentre outros aspectos, o uso do material buscava remeter ao avanço tecnológico, inovação e identidade. E essas características foram bem impressas pelo produto. O fato de ser um objeto que exige diferentes materiais mais econômicos e resistentes como o metal, derivados de petróleo e fibra de vidro, somado aos diferentes processos industriais de fabricação, fez com que em pouco tempo o objeto passe a ser produzido em larga escala, o principal nome envolvido neste novo empreendimento foram as Industria e Comercio de Moldes e Ferramentas Lafer.
Para descrever morfologicamente este artefato, serão destacados os aspectos físico-químicos do objeto, suas dimensões, forma, cor, textura e dureza, Meneses (1998, p.91). Diferentemente do modelo inglês de “cabine” que para ser utilizado o usuário precisa abrir/fechar uma porta, o Orelhão é um objeto estático e acessível, sua sustentação é feita por um cano cilíndrico de 1,46m (altura) x 28cm (circunferência) com nove furos em sua extremidade superior, tais furos são os pontos conectores entre a base e peça no formato ovalado, comumente chamada de Orelhão. O cilindro é protegido por uma tampa em material plástico em formato redondo. Fixado a esta base vertical temos um suporte de 11,5cm x 24cm que antecede a cápsula protetora, como visto em ângulo lateral e plano (fig. 4). É através deste suporte que é fixada a estrutura de fibra de vidro em forma ovalada, rígida e minimamente maleável, possuí uma abertura na parte frontal de 1 metro de diâmetro (fig.5).
O processo de produção da fibra de vidro, não permite que o material seja transparente, como os modelos anteriores, a estrutura sólida aumenta a privacidade do usuário que este em um ambiente externo. A peça é encaixada à base de fixação na altura de 1,45. O ponto mais alto dentro do Orelhão é tem até 2,10m. O ponto de convergência do som dentro do Orelhão foi projetado para uma estatura média de 1,75m, neste ponto há um beneficiamento na acústica . A boa acústica em um formato ovalar fez com que Chu Ming Silveira adotasse essa forma de ovo para desenvolver o objeto, seu design simples, praticidade e resistência agradaram os indivíduos ampliando seu potencial de comunicação. Mais resistente e ergonomicamente adaptado à arquitetura da cidade e a relação indivíduo x mobiliário urbano, o Orelhão ajudou a diminuir o número de depredações a aparelhos públicos, pois acreditem o número de ataques a telefones públicos era muito maior antes da adoção deste modelo.
O modelo escolhido foi projetado por Chu Ming Silveira para compor uma exposição na Bienal de Arquitetura de SP (1973), atualmente está exposto na residência de seu marido e engenheiro Sr. Clóvis Silveira. No local, que fica no bairro do Morumbi em São Paulo, funciona também o escritório de propriedade intelectual da família. Este Orelhão possuí características que o diferem dos atuais modelos ainda em uso no Brasil, e nos países que o adotaram como modelo como Peru (fig.6), Bolívia (fig. 7) dentre outros países como Angola, Moçambique, China. A função utilitária do “Orelhão” de ponto de comunicação, não está presente neste objeto, logo, não abordaremos questões referentes ao seu uso e apropriação social como suporte de comunicação. A reflexão feita ao objeto está associada ao conceito apresentado por Ulpiano (1998, p.91) em relação ao fetichismo atribuído a uma peça de análise:
“Nenhum atributo de sentido é imanente. O fetichismo consiste, precisamente, no deslocamento de sentidos das relações sociais – onde eles são efetivamente gerados - para os artefatos, criando-se a ilusão de sua autonomia e naturalidade.”
Ressaltaremos alguns aspectos sobre as diferenças que fazem desta peça um fetiche com relação às outras cabines ainda em uso pela cidade. Primeiramente sua cor é totalmente branca, sólida, dando a sensação de unidade, e transferindo o objeto para o campo da apreciação visual. A função principal do Orelhão, de proteção ao aparelho telefônico e seu usuário, é descartada principalmente pelo fato do objeto não possuir em seu interior um aparelho telefônico público, devido sua localização em uma residência privada.
Contudo, estas questões não nos exclui de falar da função social e arquitetônica do Orelhão. Com a erupção do feminismo no Brasil e a mulher conquistando espaço e reconhecimento dentro de uma sociedade patriarcal e politicamente militarizada, o Orelhão criado por Chu Ming Silveira é aceito pela sociedade e ao mesmo tempo em que apresenta associação com o avanço tecnológico o objeto transforma o espaço urbano, colabora com o empoderamento da mulher no protagonismo social, ajuda as pessoas a comunicarem-se cada vez mais. Estes aspectos são de suma relevância quando se trata de traçar uma relação entre artefato e sociedade. A aceitação e utilidade do Orelhão aumentaram ano após ano. Seus serviços foram modernizados e em determinado período o número de chamadas diária de aparelhos públicos já era maior que a de telefones privados. Talvez pelo caráter elitista do aparelho privado. As linhas eram demasiado custosas e o valor da chamada era alto. O Orelhão além de fomentar a comunicação dos indivíduos, permitiu à Companhia Telefônica Brasileira aumentar a oferta do serviço público e do privado, uma vez que o custo para instalação da rede de conexão passa a ser compartilhada com o interesse coletivo.
A demanda de acompanhar o usuário em suas necessidades dentro e fora de casa aumentam tanto que no ano seguinte (1973) surge nos EUA o aparelho celular móvel. No Brasil a tecnologia que chega na década de 90, começa a substituir a função do telefone público mas ajuda a solidificar a função de comunicação e conexão dos indivíduos em uma sociedade organizada e heterogênea.
Vale a reflexão sobre o futuro das comunicações e as necessidades latentes de determinadas sociedades, mas por enquanto lá estão eles. Diante da discussão sobre a substituição do Orelhão por um objeto que atenda as necessidades atuais de nossa sociedade é necessário destacar as funções de cada componente do produto “Telefone de Uso Público” (carcaça protetora, aparelho telefônico) e verificar o que realmente ficou obsoleto.
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