Nuances de uma vênus
“A verdade é que eu sempre vou sentir a falta dela, parece que sempre vai ter um espaço vazio esperando que as delimitações da alma dela o preencham. Eu não a li, eu a decorei, eu peguei a sua pele e transformei na minha, descobri junto dela que os nossos seres foram feitos da mesma matéria, tatuei seu nome no meu coração jovem e sonhador de antes, agora me digam, como em sã consciência poderei eu, mero mortal que sou, substituir essa dádiva que recebi da vida? Como posso, depois de ter tantas certezas de que seria ela meu único e grande amor, tentar achar um outro alguém para dizer o mesmo? Não posso. Ela é única, por mais que eu tente fugir de pensar no som da sua risada, negar que o brilho dos seus olhos sejam os mais lindos que eu já tive o prazer de sentir, escapar da lembrança da textura e do cheiro de sua pele, eu nunca conseguirei me livrar da falta que ela me faz. Falta ela me fazendo rir, me batendo de uma forma cômica por alguma coisa que eu disse seguido de um abraço forte que eu a entregava pra ela parar de me agredir, apesar de eu gostar, falta ela me atendendo tarde da noite pra ouvir sobre o meu dia ou só me ouvir desabafar mesmo, falta nós dois esperando em filas juntos, as filas nunca mais foram as mesmas sem ela de companhia, falta a mesma me dando seus melhores beijos, os em locais proibidos, os em locais escondidos, em locais inusitados, em locais apropriados, os em pensamento, falta ela me desejando bom dia, boa noite, melhoras por causa dos meus problemas de saúde e eu por causa dos dela, falta ela me fazendo esperar horas em locais públicos por conta da sua incapacidade de chegar pontualmente nos lugares, falta o nosso bom trabalho em equipe, a nossa cumplicidade e sintonia, falta os longos abraços cheios de amor que eu nunca mais encontrei em braço algum, faltam tantas coisas, falta até mesmo a falta dela de carinho às vezes, falta a falta dela de tato e a sua frieza, que antes eu não entendia, mas agora eu entendo que faz parte dela e eu jamais iria querer mudá-la. Mas apesar de todas essas coisas, o que mais me dói é que me falta a sua amizade, o conforto que eu sentia ao saber que eu poderia contar com ela sempre, saber que eu poderia me jogar profundamente em outro alguém sem medo de me afogar e permitir com que ela se aprofundasse em mim e conhecesse meus lados jamais vistos antes, eu não tinha receios, me jogava de cabeça porque ela sempre me seguraria, em tese. Por não termos nos definido, acabei nos tornando infinitos dentro de mim e a saudade é o que se tem de um ser humano que iluminava os meus dias e que fazia eu me esforçar ao máximo pra iluminar os dela, fazia eu me esforçar pra ser a melhor pessoa que eu poderia ser, afinal, quando você considera alguém sua família, você faz de um tudo por ela. Mas, agora parece que ela já pôs outro em meu lugar e, apesar da dor dos ciúmes me consumir, o que mais toma a minha cabeça é: será que ele já sabe que ela tem alergia à sabonetes normais? Será que ele já sabe os tipos preferidos delas de livros? Será que ele já sabe que ela tem, ou pelo menos tinha, o hábito de ler e que às vezes, quase sempre, ela trocaria uma boa conversa romântica por alguns capítulos? Será que ele já tomou a liberdade de escutar um pouco de suas músicas, que foram, por um tempo, inacessíveis? Será que ele já aprendeu a lidar com o seu humor inconstante e o seu temperamento hora explosivo hora omisso e calmo? Fico me perguntando se ele sabe que ela não gosta de mostrar as costas por conta das marcas de catapora que permaneceram lá, mas que na verdade são muito charmosas, ou se ele já comentou sobre a série favorita dela ou sobre os livros muito bonitos que o pai dela guarda em sua biblioteca particular, se ele se encanta do mesmo jeito que eu me encantava quando ela fazia vozes engraçadas, se ele sabe do amor incondicional dela pela sua cadela, tanto que seu nome já foi uma de suas senhas do celular, se ele sabe que, apesar de ter uma aparência de durona, basta provocar do jeito certo e ela solta gritinhos bem agudos de menininha indefesa, ah, indefesa, será que ele já conhece seus lados mais sensíveis? Será que eles vão ao cinema com a intenção de não ver o filme? Será que ela lembra ou reclama quando ele não fala as frases iniciais da propaganda habitual dos filmes e ele fica envergonhado por não ter lembrado? Me pergunto se ele sabe que o aeroporto é um de seus locais "preferidos” de fazer compras pra presente de aniversário, a verdade é que quando ela é desorganizada em relação a isso, ela sempre passa lá de última hora, ou seja, isso é constante. Será que ele lembra ela das datas importantes e que ela deve sim fazer algo? Como no dia dos pais ou das mães… ela se esquece fácil… E NUNCA sabe o que fazer, ela tem muita dificuldade em escolher presentes… mas eu não, eu sempre saberia o que dar para ela. Bem, espero que após esse cara saber de todas essas e outras coisas, ele se dê conta de que está diante de algo raro e que nunca a deixe ir, como eu deixei… Mas é que ela é livre e eu me apeguei àquele pensamento “se você ama, deixe ir, se te amas de volta, vai voltar” mas ela não voltou. “












