[Você só tem dezessete anos, mas você já sabe certas coisas.]
Você tem dezessete anos agora e história é sua matéria preferida (apesar de você se dar melhor com fórmulas e números porque eles são exatos e geralmente constantes e você gosta das suas coisas assim então você gosta de matemática) e pessoalmente você não gosta de Romeu e Julieta e acha que eles poderiam ter se saído melhor nessa coisa de romance.
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Às vezes seu pai volta lá pelas quatro da manhã, outras vezes ele não volta e você sabe que quando ele dorme em casa, ele dorme no quarto de hospedes e não junto com a sua mãe, mas você tem medo demais pra perguntar o motivo.
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Não era pra acontecer. Mas essas coisas nunca são. Em um dia ele não estava lá, e no outro, estava em todo lugar (cabelo loiro, olhos azuis, clichê assim, entradinhas na barriga, dedos longos, um sorriso de uma covinha só, pintinhas pelos braços e pescoço), mas você não esperava que alguém como ele fosse aparecer. Na sua cabeça, antes de descobrir o nome dele, você o chama de O Garoto Bonito.
Você tenta, tenta mesmo não prestar atenção nele. Mas o garoto de repente começa a aparecer nos mesmos lugares que você, nos corredores da escola rindo alto demais com os amigos, na biblioteca enquanto você tenta ler The Kite Runner, no refeitório enquanto você finge que come seu lanche, na lanchonete quando você sai com as suas amigas, na sorveteria da esquina e quando você passa por ele você tem certeza que ele faz um esforço pra esbarrar de leve no seu ombro. O garoto continua aparecendo nos mesmos lugares que você ou foi você que começou a perseguir o garoto? Você pode jurar que ele mantém os olhos em você por mais tempo do que o necessário, como se tivesse uma prova importante e você fosse o assunto e ele estivesse estudando você.
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A primeira vez que ele fala com você é pra te dizer apenas “belas pernas” durante uma aula de educação física e apesar dele te avaliar de cima a baixo você achou que fosse só um comentário inocente (depois que você o conhece, você descobre que não tem nada de inocente sobre as coisas que ele fala). Você fica pensando nisso pelo resto do dia.
A primeira vez que vocês se beijam é em um canto escuro de uma festa de uma amiga sua e é um tanto quanto rápido e confuso. Você está saindo do banheiro e ele te puxa pela mão e te encosta em uma parede e é isso. Nada de especial, romântico ou de fazer seu mundo girar. Você consegue sentir o álcool da boca dele se misturando com o álcool da sua, tequila encontrando vodka, e você registra que a cintura dele está sendo pressionada contra você e o máximo que você consegue fazer é mover sua mão até a nuca dele pra confirmar que o cabelo dele é tão macio quanto parece ser — e é. A sua vontade é levá-lo até uma das cadeiras da festa e sentar no colo dele e continuar puxando aquele cabelo e rebolar pra ele e gemer pra ele (esse é o seu lado bêbado falando) mas ele corta o beijo cedo demais, mordendo seu lábio com força enquanto segura seu queixo e diz de um jeito que parece uma ordem “quero te ver depois”. No outro dia você não lembra muito bem do beijo e fica brava consigo mesma por ter bebido tanto a ponto de esquecer (blame it on the alcohol), mas você sabe que quer mais. Ele passa por você no corredor como se não tivesse acontecido.
A primeira vez que ele te manda uma mensagem é com um simples “gostei do seu beijo”.
A primeira vez que ele te liga pra te dar boa noite — a ligação dura três horas e vocês dormem com o telefone ainda ligado, só uma respiração do outro lado da linha e às vezes dá pra ouvir o barulho de um sorriso — te deixa sorrindo de orelha a orelha. Você quase morre de sono no outro dia, mas quem se importa?
A primeira vez que ele pula pela janela do seu quarto é numa noite quente às duas da manhã e ele tropeça e cai e tem que se esconder no seu banheiro porque sua mãe acorda e vem te perguntar o motivo do barulho e depois que ela sai do quarto você tem que falar “shhhh, garoto” dezenas de vezes pra ele parar de rir. Depois, vocês sentam de pernas cruzadas no chão e conversam sobre a escola, sobre quando você era pequena, sobre seus amigos, sobre o time de natação do qual ele faz parte, sobre as bandas que vocês gostam e vocês trocam confissões aos sussurros. Você finge que não fica nervosa pelo fato de ter seus dedos entrelaçados nos dele. Ele vai embora um pouco depois do sol nascer. Agora ele te dá olhares rápidos quando passa por você e você tenta não ficar vermelha.
A primeira vez que você “vai pra cama” com ele não é realmente numa cama, mas sim no sofá da sua sala, em um final de semana que os seus pais viajaram e confiaram em você o suficiente pra te deixar sozinha (não deveriam, porque a primeira coisa que você faz é mandar uma mensagem pra ele dizendo “ei, adivinha quem vai ter a casa livre esse final de semana?”). Você sabe que ele vai entender a dica e garantir uma camisinha no bolso de trás da calça porque ele é esse tipo de cara. Dessa noite você se lembra muito bem porque dessa vez não tem álcool no seu sistema, então você memoriza tudo — suas pernas abertas, jogadas uma pra cada lado do sofá, como ele rasgou a camisinha com os dentes, o jeito que ele disse “belas pernas” pra você antes de desaparecer com a cabeça entre elas, suas unhas afundando na pele das costas dele, seus pedidos de “mais rápido”, os quadris dele se movendo contra você, seus dedos se perdendo naquele cabelo loiro, as bochechas dele ficando vermelhas e suadas, o modo como ele foi delicado na primeira vez e um pouco mais violento na segunda. Cada detalhe. Além dos olhares rápidos, agora ele te lança sorrisos antes de desviar o olhar e você pensa: bom, é um começo. Ou talvez não.
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Durante o jantar, sua mãe pergunta: “o que há de errado com você? Por que você anda tão distraída?”. Você não entende a pergunta muito bem (você está pensando na mão dele entre as suas pernas por baixo da mesa durante um jantar de família) então você responde com um: “o quê você disse?” e sua mãe resmunga com frustração. Felizmente é uma das noites em que seu pai não aparece.
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Depois da primeira vez no seu sofá, você pensa: não. Não se deixe levar, porque não vai rolar. Nem agora nem nunca. Você foi mais uma de muitas e ele provavelmente faz e diz o mesmo pra todas, o que você tem de diferente? “Belas pernas” deve ser uma piadinha interna dele com os amigos. Seu mundo não é o mesmo que o dele. Tira isso da cabeça. Não fantasie. Não se iluda. Não. Então a sua mente é invadida pela imagem dele com outras garotas, fazendo as mesmas coisas que fez com você, mexendo a língua da mesma forma, ficando nas mesmas posições, os mesmos truques, dobrando os dedos da mesma forma, gemendo o nome delas entre respirações pesadas, sorrindo enquanto faz tudo isso e você tem vontade de vomitar só com o pensamento. Você diz pra si mesma: não vai acontecer de novo. Mas acontece, e acontece de novo e de novo e de novo. No seu sofá, no banco de trás do carro dele, na sua cama. Não parece uma piada quando seus corpos estão tão colados que não dá pra por um fio de cabelo entre eles.
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A verdade? Você nunca foi exatamente legal. Popular. Não que você seja a garota dos livros de amor adolescente que é chata e sem graça e que mesmo assim consegue o garoto perfeito, mas você é, ao invés disso, a garota com os fones de ouvido altos demais, sempre tendo que perguntar “o quê?” quando falam contigo porque você nunca realmente presta atenção no mundo ao seu redor. Em troca, ninguém presta muita atenção em você. E você está totalmente ok com isso, porque ele presta atenção em você.
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Ele diz que você pode arranhar as costas dele à vontade e que ele adora quando você deixa as unhas crescerem, mas que não é pra deixar chupões no pescoço porque os amigos dele vão implicar e, de verdade, requer seu tempo e concentração não deixar marcas roxas nele inteiro, do pescoço a barriga, pra que os amigos dele (e quem sabe as outras meninas) saibam do que vocês fazem dentro do seu quarto e do efeito que você provoca nele. Mas você não faz isso e também não se opõe ao que ele diz porque da última vez em que você o confrontou sobre algo ele começou a gritar e a ficar nervoso e a dizer que não te deve explicação alguma.
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E você é calma com ele, a sua voz não se altera quando ele berra com você e nem quando ele dá socos na parede (a única vez que sua voz tremeu foi quando ele apareceu no seu quarto com o olho roxo e o lábio sangrando e colocou o rosto entre as mãos e chorou na sua frente e esse foi o dia mais horrível de todos). A sua voz é exatamente a mesma, baixa e controlada quando você pede se vai ver ele essa noite ou se ele se importaria em se mover um pouco mais rápido contra os seus quadris porque você está quase lá. E a coisa é: ele gosta. Gosta de ver você implorando e pedindo e se contorcendo e quase se humilhando embaixo dele. Então você sempre pede permissão. Posso te chupar, por favor? Posso ficar por cima hoje, só hoje, por favor? Você poderia puxar meu cabelo com mais força, por favor? Sempre por favor e em troca ele faz todas as coisas que deixam os seus joelhos fracos e desse jeito simplesmente funciona entre vocês (funciona?). Geralmente, as únicas coisas que ele fala durante esses momentos, além de palavras soltas e gemidos e palavrões são “fica quietinha, não tão alto agora, ninguém pode ouvir, você consegue ficar quieta pra mim? boa menina” e muito raramente “você gosta assim? Disso? Desse jeito?”. Você gosta dele te chamando de “boa menina”.
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Você sabe que o seu melhor amigo não te entende, mas ele te ama apesar disso, ou por causa disso. E você tem consciência que vocês só são melhores amigos porque ele também escuta música com os fones ouvidos altos demais (agora vocês aprenderam a dividir os fones e as músicas, mesmo que você não goste de verdade de Radiohead e que ele odeie Arctic Monkeys) e você tem uma noção de que se uma das suas professoras não tivesse feito você ajudá-lo com uma redação, ele jamais teria olhado pra você duas vezes e você odeia quando ele balança a cabeça em reprovação porque você começa a falar do garoto bonito pra ele. “Você tem um certo problema”, ele te diz enquanto balança a cabeça. “Você não sabe desapontar as pessoas, você gosta de agradar as pessoas a todo custo e você não sabe quando parar”. São nesses dias que você geralmente decide ir sozinha pra casa, com os dois fones no ouvido tocando Radiohead.
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Tem um concurso de escrita no colégio e a coisa é: você ganha. Você escreve esse livrinho de poesia que tem o nome de eu te conheci aos 17 e o livro todo fala sobre olhos azuis, cabelo loiro bagunçado, pintinhas no pescoço, sorriso de uma covinha só (como ninguém percebe sobre o que isso se trata?). Você está no refeitório, tentando ler Wuthering Heights quando percebe alguém parado na sua frente. Ele se inclina até você e você pensa meu deus ele vai me beijar aqui agora na frente de todo mundo meu deus o que eu faço mas ele não te beija, ele te dá um abraço rápido e indiferente e diz meus parabéns, você escreve realmente bem, bom trabalho e ele não diz isso de um jeito que um namorado ou mesmo um amigo diria, ele não diz de um jeito que alguém que pula a janela do seu quarto durante a noite e te beija com vontade diria, ele não diz isso como quem sabe que um livro — mesmo que pequeno — foi escrito sobre ele, ele diz isso de um jeito que um desconhecido simpático diria e você simplesmente levanta uma sobrancelha com uma pergunta silenciosa no rosto como você faz isso? e a vontade de aparecer só aumenta quando ele te dá as costas e anda em direção a outra garota e você quer perguntar pra essa garota se ela sabe que enquanto ela dorme durante a noite (provavelmente sonhando com ele) ele tem que tampar sua boca com a mão ou com beijos pra você não gemer tão alto.
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Ele tem um melhor amigo, e é o único amigo que você sabe que sabe. Esse melhor amigo sempre te cumprimenta e sorri pra você e te chama pelo seu apelido e às vezes te pergunta como você está, sempre gentil (por que você não pode ser que nem ele?) e você não sabe como interpretar aquele olhar de pena no rosto dele.
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Um dia desses em uma aula vaga de matemática você escuta o garoto bonito falando pros amigos dele que ficou com aquela garota e os amigos dele perguntam o por quê e ele responde por que não? e você se pergunta se você também é um caso de por que não? pra ele (provavelmente sim). E mais tarde na saída você escuta ele falando no telefone com uma voz macia claro que eu quero, eu sempre quero mas você não escuta o resto porque você recoloca os fones de ouvido pensa o que eu não sei não pode me machucar, certo?
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Você deseja poder falar com o seu irmão sobre isso. Porque ele sabe o que falar nesses momentos, porque ele é mais experiente do que você e porque ele provavelmente se ofereceria pra dar uma surra no garoto bonito. Você diria não, não, ele é muito bonito pra isso, mas ficaria agradecida. Ou só falar com o seu irmão já adiantaria. Você sabe que faz meses que ele parou de ligar pra casa e de atender as ligações da sua mãe (e talvez seja por isso que às vezes você a escuta chorando baixinho antes de dormir e você sabe que a culpa do seu irmão ter ido embora é do seu pai e talvez seja por isso que os dois pararam de dormir juntos e você pensa que deve ser horrível não saber em que lugar do planeta seu filho está ou se ele está bem) e o seu irmão também parou de ligar pra você e você se sente irritada, com raiva, você quer bater em algo e naquela noite quando o garoto entra pela sua janela você pede pra ele não ser gentil e delicado com você.
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A sua mãe pergunta sobre os hematomas e você só balança a cabeça. Cai na educação física. Bati na mesa. Tropecei, eu sou tão desastrada! Mas sério? Ninguém acredita que pequenas marcas roxas e redondas no seu pescoço ou no seu peito ou nas suas coxas sejam resultados de tombos ou batidas. Você finge, e ela se deixa enganar.
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Você ama o seu melhor amigo, muito, o garoto que você mais ama no mundo (é mesmo? Mentirosa), você ama o jeito que a barba dele arranha sua bochecha quando ele te abraça e ama mais ainda quando ele faz a barba e fica com aquele cheiro de aftershave misturado com perfume, mas você odeia quando ele insiste que você merece coisa melhor e que não deveria deixar o garoto bonito te tratar assim. “Me tratar como? Ele me trata normal”. “Ele te trata como a porra de um capacho, um bichinho de estimação”. Você o deixa falando sozinho.
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E você começa a entender só agora que o garoto bonito que beija basicamente qualquer outra menina que ele tiver a chance e que não conta pros amigos sobre vocês dois e se recusa a te beijar em público não te ama e que se ele te ama, ele não sabe porra nenhuma sobre como lidar com o amor e que o seu melhor amigo tem razão. Você jura não criticar Romeu e Julieta e fica feliz por pelo menos não ter nenhuma morte envolvida na sua história.
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Você encara o seu prato de comida, sem nenhuma vontade de realmente comer. “Querida, tudo bem?” Você não responde sua mãe (porque na sua cabeça você está fazendo uma lista com possíveis jeitos de esquecer alguém) e uma batida na da mesa te tira dos seus pensamentos. “Quando sua mãe fala com você, é melhor você responder direito!”. Você levanta os olhos até encontrar os da sua mãe — vermelhos, pequenos, cansados. Ela é bonita, e está ficando mais velha, você repara. “Você está bem, meu anjo?” . Você só consegue sentir culpa, e não responde de novo. “Fala comigo” sua mãe tenta de novo. Você fala que não pode. Não pode conversar com ninguém sobre isso. Não, você não fala, você grita. E então você sai da mesa e pensa que deveria ter escolhido um dia que seu pai não está em casa pra surtar.
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Sua mãe bate na porta e encontra você chorando, rosto inchado, nariz escorrendo, cara feia. Ela não faz perguntas — nesse ponto ela já entendeu que é inútil —, mas ela abraça você. E chora com você (e isso te faz chorar ainda mais). Você sente vontade de perguntar se ela já teve o coração quebrado desse jeito, mas você pensa no carro do seu pai saindo da garagem com algumas caixas no banco de trás e sabe que ela entende. E você sente vontade de perguntar se ela sabe te explicar por que você está chorando por um garoto que agora já não te olha mais no corredor ou te lança sorrisos rápidos ou pula a janela do seu quarto durante a madrugada.
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E você fica cansada. Cansada de ordens. Cansada de a gente não pode contar pra ninguém, meus amigos não podem saber, tem essa outra garota, não podemos ser vistos na escola, não posso me comprometer, não quero sentimentos envolvidos, não posso fazer isso, você tem que entender, você não pode me amar, diz que me ama!
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Você tem dezessete anos, falta um mês pra você completar dezoito e você sabe que quando o garoto que passou mais de dez meses enganando você bate na sua porta, você não deve deixar que ele entre. Não é correto, não é apropriado.
Você sabe. Mas você deixa. E tudo é tão diferente agora e é tão surreal porque, bem, ele está entrando pela porta da frente, e são quatro da tarde e seu rosto queima lembrando das vezes que ele entrava no seu quarto as duas da manhã tropeçando pela janela e te cumprimentando com um beijo na boca mas você se obriga a mandar essa lembrança direto pro fundo da sua mente porque você não precisa disso. Nem dele.
“Desculpa” é tudo que ele diz.
“Sai. Agora” é o que você diz.
Ele parece confuso porque você não está mais sendo a boa menina dele e ele gagueja um monte de palavras como eu sinto sua falta e eu sinto muito e eu queria tanto poder voltar no tempo e quando ele finalmente diz eu te amo você lembra de ter desejado ouvir essas palavras e essa é a gota d’água, é o seu limite (mas você não chora como faria um tempo atrás) e você empurra-o até que ele saia da sua casa e ele tenta te fazer escutar, ele segura seu braço, ele levanta a voz, ele pede por favor, mas você não quer escutar porque por mais que ainda o queira (caramba garota), não precisa mais desesperadamente dele ou do corpo dele pressionado ao seu durante a noite pra dormir direito e ele finalmente desiste, dá as costas e vai embora, como ele já fez antes, diversas vezes, só que dessa vez é pela porta da frente.
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Agora você tem dezoito anos, mas você já não sabe de mais nada.