Ele era como um heroi, um ser invencível em sua majestade, ele sabia de tudo e tudo podia fazer, sua primeira mentira não me recordo qual foi, mas todas as outras já jaziam em seus olhos. Seu coração era frio, se é que eu poderia dizer que ele o tinha. Eu vivia sob sombra daquele que temia, daquele que me arrepiava a espinha, o medo em mim jazia.
Eu sabia que ali por detrás daqueles olhos, com aquelas moedas invisíveis, mesmo que tivesse uma alma, nela nada de bom eu encontraria, ele era como um barqueiro. Ele era o barqueiro que nos guiava até onde definhar íamos em nosso horror, em nosso silêncio submisso. Nosso silêncio que em nossas mentes eram vozes agonizantes implorando para dali nos libertarem.
“Por que não pedimos um outro para o barco remar?” - em minha inocência e ânsia pela liberdade a ela perguntei - “Porque mesmo que troquemos o barqueiro esse sempre será aquele a quem te designaram como guia, dele você nunca poderá fugir, se lance nesse rio vermelho e sangrento e sua alma se perderá e dele você jamais se esquecerá, aqueles olhos assim que tu fugir eles te perseguirão até seu último grito”
Me encolhi e aceitei tal destino nefasto, vivi aquela jornada por anos observando meu caronte remar, meu caronte a ela maltratar, aquela pobre mulher que nasceu sem a sorte de ser a própria psiquê, que era invadida pelo olhar que mais pareciam duas moedas frias, opacas e gélidas, elas não brilhavam como o ouro, muito menos reluziam como a prata, mas a ganância por detrás e a falta de alma que sugava a minha própria ali reluziam. Aquele não era o Caronte original, não era nem de longe filho dos deuses ou um anjo da morte, aquele era um farsante apenas um ser que queria destruir nossas almas até não sobrar um estilhaço delas.
Agarrei a mão daquela pobre, me rendi ao destino sangrento que aquele rio nos reservava, era melhor se afogar no sangue dos malditos e exilados, do que com aquele ser continuar a velejar. O barqueiro, nosso maldito barqueiro nossas mãos tentou agarrar, suas unhas sujas e podres nos arranhavam, em nosso desespero para nos libertamos nos jogamos, engolidas pelas águas sangrentas quase nos afogamos. Nadamos, nadamos e nadamos contra a correnteza sem saber onde chegar, ainda estamos nadando, ainda estamos fugindo, posso sentir aqueles olhos frios e malditos em nossas costas, não pode nos pegar, mas mesmo que cheguemos aos campos elísios pra sempre nos perseguirá.