Hoje decidi escrever para ti. Não por achar que devo, não por ter simplesmente de escrever, mas por sufocar no próprio sufoco do excesso lexical entalado em mim, em nós, no não dito. Volto a casa. Ao vazio, portanto. Nos últimos dias que se passaram algo mudou, algo em mim agravou, não sei. Não me sinto a mesma. E engulo cigarros, engulo a calma. Engulo tudo, resta a alma. Quero gritar e implorar que te dês a mim. Não consigo assim. E hoje perdi-me. Em tudo, no escuro, no fumo. E estou presa. Presa aqui. Condenada ao perpétuo purgatório que deixaste para mim na mesa. O teu purgatório. A tua indecisão. Pára. Não. Facas, bisturis, qualquer coisa que me corte a alma sempre que sorris. Não sei que pedaço de mim continuo a procurar nos sinais de ti. E berra-se, eu corro. Tento fugir. Prendes-me neste laivo de dor a que me recuso chamar de amor. E tu ficas, gritas. Tentas sair. Não consigo aceitar que vás, seja como for. Mas ficas, respiro de novo. O sufoco acalma e afoga-se num abraço sem cor. E eu morro, caio no poço. Saio, retorço, engulo a alma, sufoco a calma e calo o ardor. Perdi o céu algures neste caminho. Perdi a lua. Ou será que fomos nós? Fomos problemas agora somos temas lemas teoremas. Gostava que calasses a incerteza, estou num mar de fogo. Não me sinto bem, não te sinto justa. Ando a procurar água nas redondezas mas extingui a chuva para não me lembrar de ti, e não tenho saída. E eu olho para o teto, há algo a bloquear o céu. Sou eu Ou fui eu? És tu. Não quero que te sintas mal, não quero que me peças desculpa. Quero deixar de afogar o que deixas em mim num mundo alheio quando quero afogar-me em ti, por completo. São duas da manhã e marcam-se assim três horas de sono nos últimos dois dias. É a cabeça. Grita. Grita. Sufoca, Apita. Sei que ainda escreves em traço de sussurro aquilo a que foges em nós, o que tens medo de viver em nós. E os instintos... Normais. Formais. Casuais. Carnais. F a t a i s ... ... ... E há um rio... A voz é lenta enta nta. Quis o vermelho, acabei agarrada a mais um cigarro. Algo que estimule a cabeça, a desvie de ti enquanto simuladamente te desvias de mim. Ou te deixas desviar... De ti nunca me deste um todo. Deixaste-te sempre pela metade e eu dei demais de mim demasiadas vezes. Tentei controlar a fuga de mim para ti, mas a caixa tem furos. Tenho furos, algures em mim. Não sei o que sai de mim, já não sei. Mas tento descobrir. Tento, em memória a mim, a mim, ao que fui antes de ti. E sei que afogo o silêncio na chama, toda eu sou chama, e ardo comigo mesma. Ardo, desapareço-me. Gostava de sentir um calor teu que ardesse com um terço daquilo que o meu arde. Mas não arde. Porque ardes, mas o fogo foi posto e a origem da chama é múltipla, e o que eu ardo tu pareces querer que o alheio apague. E agora somos corpos. Corpos. Fundo-me Perco-me Desenho-me em ti. Como é que me perdi em ti assim? Fomos o jardim. Não quero ser múltipla, de multiplicidade tenho que chegue, em mim. Por favor, não brinques comigo. Por favor. Se não queres ficar, sai já de mim. E não voltes. Porque és tóxica assim. E por favor, cura-me. Ou és apenas Foste apenas Deixaste apenas Doença Descrença Um vazio Uma voz Uma voz T e n s a Em mim.