Feliz Aniversário, antigo e novo Eu
A vida humana é curta demais, ao mesmo tempo em que os seres humanos são estúpidos demais. Quando finalmente tornamo-nos capazes de proteger o que é precioso, já perdemos a maior parte de nós mesmos. Já machucamos. Destruímos. Aniquilamos demasiadas coisas unicamente belas, tanto em nós, quanto nos outros, para que o resto do trajeto tenha algum sentido além do biológico.
É nisso que penso enquanto sopro a vela espetada no pequeno bolo de chocolate sobre a mesa do bar. A mulher ao meu lado, já um tanto embriagada, bate palmas, enrosca meu braço entre seus seios e brinda-me com um sorriso, enquanto exclama: “Um brinde ao Dan!”
Nossos copos de vinho se chocam, “clink”, e levamos as taças à boca.
O que eu fiz durante esse tempo todo? Percorri inúmeros caminhos sem chegar a lugar algum; encontrei-me com diversas mulheres, travei amizade com uma variedade de pessoas, sem, no entanto, alcançar o âmago de nenhuma. Se eu morresse neste exato momento, poderia dizer que estaria indo sem arrependimentos? Poderia dizer que alguém, de fato, me conheceu?
Quando olho para trás, vejo somente uma extensa trilha de pessoas feridas pelas minhas mãos imundas e inábeis. Me pergunto se, caso tivesse uma segunda chance, seria capaz de fazer as coisas direito. Se a sabedoria maldita que acumulei durante esses longos e confusos anos serviria a um propósito maior do que exclusivamente satisfazer minhas necessidades e ambições.
A mulher ao meu lado começa a devorar o bolo com uma colher, sem tirar os olhos de mim. Ela fala sem parar do ex-marido, um sujeito que está sempre atrás dela em busca de dinheiro para bebida. Eu peço mais vinho.
Pelo que me lembro, eu não costumava ser assim. Eu era um adolescente tímido, que cultivava grandes ideais sobre o amor. Mal podia encarar uma garota nos olhos sem enrubescer como um tomate. Em algum momento, algo dentro de mim se turvou, mas quando? Talvez tenha sido um processo lento e gradual, de modo que não seja possível precisar o instante exato da mudança.
É um exercício fútil refletir sobre isso, eu sei, mas aniversários tem o costume de me deixar melancólico, conduzindo-me a divagações sem sentido como essa. Imagino que todas as pessoas sejam vítimas de tais pensamento de vez em quando. Todos vivemos sobre o mesmo mundo e compartilhamos, em certo grau, dos mesmos sofrimentos e angústias. Quem não gostaria de mudar algo sobre si mesmo, ou o próprio passado?
— Ei, Dan, você tá me ouvindo?
A mulher, como é o nome dela mesmo?, segura meu rosto com as duas mãos e fixa seus olhos nos meus.
— Você tá bem? Quer vomitar?
Por que eu estou aqui, afinal? Não nutro qualquer tipo de sentimento por essa pessoa, e, no entanto, permito que ela demonstre livremente sua afeição por mim. Falo sobre sabedoria, sobre mudar o passado, quando sequer sou capaz de agir de forma decente no meu presente. Diante de meus olhos vejo a prova de que não mudei ou aprendi coisa alguma em todos esses anos.
De repente sinto vontade de chorar, mas não tenho esse direito, então verto o vinho em minha boca e rio baixinho, dizendo:
— Nunca me senti melhor! Mais vinho, garçom!
— Você parece mal — diz a mulher, ignorando-me, e apoia minha cabeça em seu peito. Com os dedos, acaricia meus cabelos. — Não é fácil envelhecer. Eu entendo.
Queria que sua maquiagem não fosse tão excessiva. Que não tivesse o odor de álcool e miséria impregnados tão profundamente em seu corpo. Que não compreendesse tão bem o estado de meu coração.
De súbito, liberto-me dos braços dela e fico de pé.
— Preciso ir no banheiro — digo, e afasto-me.
Alcanço a porta do bar e saio para a rua. Está frio, ainda mais frio do que lá dentro. As únicas estrelas são as coloridas lâmpadas que brilham no alto dos postes ao longo da rua.
Penso em meu apartamento, na maçaneta girando sem fazer barulho, no lençol abandonado sobre a cama, na escova de dente preta no armário do banheiro, no prato dentro da pia, na toalha balançando ao vento na sacada escura.
Viro-me na direção oposta e começo a caminhar.
Havia um lugar que eu costumava visitar quando estava no ensino médio. Uma praça com um escorregador coberto, com uma casa de brinquedo no alto. Eu costumava subir lá nas manhãs em que não me sentia disposto a encarar a sala de aula. Me sentava no topo e escutava música enquanto lia livros, até a hora de voltar para casa.
Depois de talvez vinte minutos caminhando, eu avisto o parque, iluminado somente por um poste de luz amarela, bem no centro. O escorregador continua de pé, mas sua cobertura não existe mais. Apesar disso, eu subo até lá, sentindo a estrutura inteira balançar e ranger debaixo de mim, e me sento com as costas apoiadas na madeira.
Olho para cima e me deparo com milhares de estrelas pulsando contra o céu noturno. Há algo de assustador no Universo revelado assim diante de mim, mas não consigo definir a origem desse sentimento, ainda assim, é melhor do que não sentir nada, de modo que continuo encarando-o.
Uma eternidade transcorre, sem que eu mova um único músculo. Apenas minhas pálpebras se movem: para baixo e então para cima. Meu pulso torna-se tão lento que mal sinto o coração bater dentro do peito. O ar que se infiltra para dentro de mim é morno e silencioso.
Será que estou mesmo vivo?
Por mais que eu reflita, não consigo encontrar algo cuja posse, nesse momento, me faria feliz, ou animado, ou qualquer coisa. Um carro novo, uma viagem para o outro lado do mundo, fama eterna, mulheres, família; sinto que nada disso despertaria em mim sequer uma centelha de alegria ou satisfação.
Talvez eu não seja uma pessoa, mas sim algo inanimado, algo morto desde o princípio, como esse escorregador desbotado, pichado, oscilante, avariado, rangente. Eu sou ele desde a sua construção, dia e noite, no sol e na chuva, imóvel, inconsciente, insensível. De alguma forma, eu sonhei a vida de um ser humano depois de ele compartilhar comigo uma parte de sua essência, e acabei esquecendo o que sou.
Mas está tudo bem agora, por que eu lembrei. O pesadelo chegou a um fim. Posso voltar a existir como um simples escorregador.
Apesar disso, algo parece estar errado, pois não está chovendo, e escorregadores não choram.