Eu vou entrar no jogo
Enterrarei o lado demasiado desperto da consciência
Serei uma máquina voltada ao progresso material
Uma criatura de planos, ambições e sucesso
Até o dia em que mergulharei de volta
E contemplarei o produto de minhas ações.
AnasAbdin
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@absurdoscosmicos
Eu vou entrar no jogo
Enterrarei o lado demasiado desperto da consciência
Serei uma máquina voltada ao progresso material
Uma criatura de planos, ambições e sucesso
Até o dia em que mergulharei de volta
E contemplarei o produto de minhas ações.
Eu estou aqui
Eu sou responsável
Eu sorrio e solto comentários divertidos
Eu sou produtivo, criativo, e todos contam comigo
Eu me importo
Mas não, eu não me importo
No fundo, eu sei que se,
De uma hora pra outra,
Tudo ruísse e só restassem destroços ao meu redor
Meu coração permaneceria tão calmo
Quanto nos dias de garoa.
No fim, não há um grande propósito
Nunca houve
As batalhas são neblina
As guerras, fumaça
E eu sou uma sombra à meia-noite
À espera da hora mais escura
fios
Não há libertação em poder ver os fios invisíveis da realidade pairando sobre cada vida
só há uma terrível sensação de inutilidade e melancolia e
um ocasional afrouxamento dos nós sobre a própria alma
apenas o bastante para que
enquanto se debate na teia da vida,
como um pequeno inseto encurralado,
possa sentir a totalidade de sua impotência.
Os Anjos Devoram As Próprias Asas
É uma noite negra
tão negra que os anjos devoram
as próprias asas
Uma pétala de cada vez
a escuridão é uma coisa viva
desabrochando em meu peito
Já não há maneira de escapar
Não importa o quão forte você seja
a vida enterrará sua trágica lâmina
no seu ponto mais frágil
naquele precioso lugar que você jamais
acreditaria ser possível
e mesmo que você pense em
belas imagens e palavras
a ferida sangrará grotescos vermes
do tamanho de ratos
que roeram o que resta
de sua alma
e pouco importará quanto tempo permaneça
agachado debaixo do chuveiro
somente sentindo o pulsar do desespero
tão sobrepujado pela dor que é
incapaz de chorar
uma vez que a noite relancear em seus olhos
o caminho até ali será uma vaga e
cruel sombra nas profundezas da
solidão
e você saberá que é o
fim.
E de repente eu não me importava mais em ser compreendido
Ou respondido
Ou que gostassem de mim ou me odiassem
Eu não ligava que falassem sobre mim
Ou que me esquecessem por completo
Eu já sabia quem eu era
Eu havia encontrado paz
E junto dela, uma solidão morna e inodora
Cuja presença só era sentida
Quando minhas pernas paravam
E a noite, densa e oscilante, suspirava sobre mim.
algum lugar, qualquer lugar
deveria existir algum lugar para ir
quando se está tão fundo na noite
que nenhuma voz pode ser ouvida
nenhuma vibração pressentida
nenhuma cor vislumbrada
quando só resta na mente o eco de um dia demente
e a perspectiva de uma semente apodrecida
algum lugar deveria existir, algum beco, algum buraco
qualquer lugar
qualquer lugar em que se jogar
fundo o bastante
para que o barulho ao atingir o fundo
seja o suficiente para que
apenas por um segundo
o silêncio morra e renasça em outro
lugar.
viver
ninguém me ensinou a viver
eles apenas disseram
sente-se aí e copie isso, decore
isso, responda isso
letras, números, conhecimento
eu obedeci, pois eles estavam aqui há mais tempo do
que eu e isso deveria significar algo
muitos anos depois
o quão aterrorizado fiquei ao descobrir que
estamos todos perdidos
e ninguém sabe nada de nada
e subitamente meus números e letras tornaram-se
pó em meus neurônios colapsados
e como uma bola de pinball eu me
arremessei de um tormento ao outro
à procura de algo
verdadeiro
uma mosca debatendo-se na teia da existência
agitando as asas arduamente na tentativa de
escapar
e mesmo nesse momento eu continuo me debatendo,
me debatendo
mas minhas asas já não batem com tanta força
e talvez seja até confortável e correto
apenas permanecer
aqui.
as pessoas dizem que o amor
é a força unificadora do
universo
que ele é baseado em compartilhar a
verdade
para que duas pessoas possam
honestamente
compreenderem-se
mas, não seria o contrário?
não seria o amor
a maior barreira
para que duas pessoas
verdadeiramente
se conheçam?
a verdade não é tão doce
para que possa ser oferecida
tão levianamente
logo
quantas serão as vezes
em que ocultaremos
pelo bem daqueles que amamos
as verdades mais dolorosas
e quantas serão as mentiras
que teremos fabricado por amor
até que tenhamos perdido um ao outro de vista?
caos
ele era confuso, covarde e carente
e seu amor era idealista e paradoxal
conseguia ser ao
mesmo tempo
egoísta e totalmente altruísta
era capaz de possuir a intensidade
de um planeta submergido em chamas
e poderia se entregar integralmente ao ser amado
sem jamais se importar com os intermináveis tormentos da vida
desde que a tivesse ali, ao seu lado, envolvendo-o em seu olhar
no entanto, exigiria do outro o mesmo ardor
a mesma infinita ânsia
isso porque o vazio em sua alma só poderia
ser preenchido pelo vazio de outra alma tão
agitada quanto a sua
esses dois buracos negros então colidiriam e
anulariam-se mutuamente
resultando numa explosão tão poderosa que
erradicaria suas existências para em seguida
as reintegrar em uma nova alma
que persistiria
harmoniosa e absoluta
em partilhado caos.
Há em mim mais confusão e caos do que a alma humana deveria suportar. Vocês encontrarão em mim tudo o que quiserem. Eu sou um fóssil das fundações do mundo, no qual os elementos não se cristalizaram, no qual o caos inicial entrega-se ainda à sua louca efervescência. Eu sou a contradição absoluta, o paroxismo das antinomias e o limite das tensões; em mim tudo é possível, pois sou o homem que rirá no momento supremo, na agonia final, na hora da última tristeza.
Então eu parei e percebi: havia no mundo alguém que me conhecia de verdade? Não. Não havia. Eu estava completamente só dentro de mim mesmo, e por mais que gritasse, tudo que eles escutariam seriam os ecos distorcidos oriundos de seus próprios corações. Minhas palavras, o que eu queria dizer com elas, jamais seriam compreendidas, não importava o quanto eu me esforçasse.
Feliz Aniversário, antigo e novo Eu
A vida humana é curta demais, ao mesmo tempo em que os seres humanos são estúpidos demais. Quando finalmente tornamo-nos capazes de proteger o que é precioso, já perdemos a maior parte de nós mesmos. Já machucamos. Destruímos. Aniquilamos demasiadas coisas unicamente belas, tanto em nós, quanto nos outros, para que o resto do trajeto tenha algum sentido além do biológico.
É nisso que penso enquanto sopro a vela espetada no pequeno bolo de chocolate sobre a mesa do bar. A mulher ao meu lado, já um tanto embriagada, bate palmas, enrosca meu braço entre seus seios e brinda-me com um sorriso, enquanto exclama: “Um brinde ao Dan!”
Nossos copos de vinho se chocam, “clink”, e levamos as taças à boca.
Trinta anos.
O que eu fiz durante esse tempo todo? Percorri inúmeros caminhos sem chegar a lugar algum; encontrei-me com diversas mulheres, travei amizade com uma variedade de pessoas, sem, no entanto, alcançar o âmago de nenhuma. Se eu morresse neste exato momento, poderia dizer que estaria indo sem arrependimentos? Poderia dizer que alguém, de fato, me conheceu?
Quando olho para trás, vejo somente uma extensa trilha de pessoas feridas pelas minhas mãos imundas e inábeis. Me pergunto se, caso tivesse uma segunda chance, seria capaz de fazer as coisas direito. Se a sabedoria maldita que acumulei durante esses longos e confusos anos serviria a um propósito maior do que exclusivamente satisfazer minhas necessidades e ambições.
A mulher ao meu lado começa a devorar o bolo com uma colher, sem tirar os olhos de mim. Ela fala sem parar do ex-marido, um sujeito que está sempre atrás dela em busca de dinheiro para bebida. Eu peço mais vinho.
Pelo que me lembro, eu não costumava ser assim. Eu era um adolescente tímido, que cultivava grandes ideais sobre o amor. Mal podia encarar uma garota nos olhos sem enrubescer como um tomate. Em algum momento, algo dentro de mim se turvou, mas quando? Talvez tenha sido um processo lento e gradual, de modo que não seja possível precisar o instante exato da mudança.
É um exercício fútil refletir sobre isso, eu sei, mas aniversários tem o costume de me deixar melancólico, conduzindo-me a divagações sem sentido como essa. Imagino que todas as pessoas sejam vítimas de tais pensamento de vez em quando. Todos vivemos sobre o mesmo mundo e compartilhamos, em certo grau, dos mesmos sofrimentos e angústias. Quem não gostaria de mudar algo sobre si mesmo, ou o próprio passado?
— Ei, Dan, você tá me ouvindo?
A mulher, como é o nome dela mesmo?, segura meu rosto com as duas mãos e fixa seus olhos nos meus.
— Você tá bem? Quer vomitar?
Por que eu estou aqui, afinal? Não nutro qualquer tipo de sentimento por essa pessoa, e, no entanto, permito que ela demonstre livremente sua afeição por mim. Falo sobre sabedoria, sobre mudar o passado, quando sequer sou capaz de agir de forma decente no meu presente. Diante de meus olhos vejo a prova de que não mudei ou aprendi coisa alguma em todos esses anos.
De repente sinto vontade de chorar, mas não tenho esse direito, então verto o vinho em minha boca e rio baixinho, dizendo:
— Nunca me senti melhor! Mais vinho, garçom!
— Você parece mal — diz a mulher, ignorando-me, e apoia minha cabeça em seu peito. Com os dedos, acaricia meus cabelos. — Não é fácil envelhecer. Eu entendo.
Queria que sua maquiagem não fosse tão excessiva. Que não tivesse o odor de álcool e miséria impregnados tão profundamente em seu corpo. Que não compreendesse tão bem o estado de meu coração.
De súbito, liberto-me dos braços dela e fico de pé.
— Preciso ir no banheiro — digo, e afasto-me.
Alcanço a porta do bar e saio para a rua. Está frio, ainda mais frio do que lá dentro. As únicas estrelas são as coloridas lâmpadas que brilham no alto dos postes ao longo da rua.
Para onde ir, agora?
Penso em meu apartamento, na maçaneta girando sem fazer barulho, no lençol abandonado sobre a cama, na escova de dente preta no armário do banheiro, no prato dentro da pia, na toalha balançando ao vento na sacada escura.
Viro-me na direção oposta e começo a caminhar.
Havia um lugar que eu costumava visitar quando estava no ensino médio. Uma praça com um escorregador coberto, com uma casa de brinquedo no alto. Eu costumava subir lá nas manhãs em que não me sentia disposto a encarar a sala de aula. Me sentava no topo e escutava música enquanto lia livros, até a hora de voltar para casa.
Depois de talvez vinte minutos caminhando, eu avisto o parque, iluminado somente por um poste de luz amarela, bem no centro. O escorregador continua de pé, mas sua cobertura não existe mais. Apesar disso, eu subo até lá, sentindo a estrutura inteira balançar e ranger debaixo de mim, e me sento com as costas apoiadas na madeira.
Olho para cima e me deparo com milhares de estrelas pulsando contra o céu noturno. Há algo de assustador no Universo revelado assim diante de mim, mas não consigo definir a origem desse sentimento, ainda assim, é melhor do que não sentir nada, de modo que continuo encarando-o.
Uma eternidade transcorre, sem que eu mova um único músculo. Apenas minhas pálpebras se movem: para baixo e então para cima. Meu pulso torna-se tão lento que mal sinto o coração bater dentro do peito. O ar que se infiltra para dentro de mim é morno e silencioso.
Será que estou mesmo vivo?
Por mais que eu reflita, não consigo encontrar algo cuja posse, nesse momento, me faria feliz, ou animado, ou qualquer coisa. Um carro novo, uma viagem para o outro lado do mundo, fama eterna, mulheres, família; sinto que nada disso despertaria em mim sequer uma centelha de alegria ou satisfação.
Talvez eu não seja uma pessoa, mas sim algo inanimado, algo morto desde o princípio, como esse escorregador desbotado, pichado, oscilante, avariado, rangente. Eu sou ele desde a sua construção, dia e noite, no sol e na chuva, imóvel, inconsciente, insensível. De alguma forma, eu sonhei a vida de um ser humano depois de ele compartilhar comigo uma parte de sua essência, e acabei esquecendo o que sou.
Mas está tudo bem agora, por que eu lembrei. O pesadelo chegou a um fim. Posso voltar a existir como um simples escorregador.
Apesar disso, algo parece estar errado, pois não está chovendo, e escorregadores não choram.